O compromisso na educação e ainda a coragem

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No final do ano letivo passado, uma das minhas filhas encontrava-se perante uma desmotivação gigante.

Acabava o 10.º ano na área de Humanidades, as notas refletiam o desinteresse embora fossem suficiente para dar seguimento ao processo.

Resolveu parar, levantar a cabeça e procurar mais.

A escola não podia ser só aquilo... recusou-se a aceitar aquela realidade onde não encontrava nenhum foco de inspiração, nenhuma referência significativa, nada que a inquietasse e provocasse emoção. Não havia alegria, curiosidade, sentido nem propósito naquela forma se viver a aprendizagem.

Aceitando ter de dar um passo atrás para seguir viagem, aos 15 anos, resolveu abraçar o desconhecido e apostou numa nova realidade. Deixou o liceu onde conhecia toda a gente, trocou a ida diária para a escola de transporte próprio por um percurso de mais de uma hora e meia diária de transportes públicos, um acordar às 6h da manhã e toda uma nova realidade na qual depositava, acima de tudo, muita esperança.

A Eva optou pelo ensino profissionalizante numa escola onde o processo de ensino é um projeto comum a todos os que lá trabalham.

Encontrou professores realmente disponiveis, comprometidos com os alunos, envolvidos emocionalmente. Encontrou conteúdos com sentido, trabalhos estimulantes, estratégias dinâmicas, valorização pessoal, investimento humano e conheceu um prazer imenso pelo processo de aprendizagem.

Num ano cresceu de uma forma incrível e a vários níveis, não só em termos de autonomia e responsabilidade como no que respeita a uma crescente valorização pessoal, uma vontade de saber cada vez mais, ganhou plasticidade no pensamento, revelou interesse sobre o mundo e variadíssimos assuntos da atualidade, desenvolveu um sentido enorme de pertença, conheceu figuras inspiradoras e reconheceu na "escola" um local essencial para a vida acontecer.

Ao longo do ano letivo assistimos ao aparecimento de uma aluna briosa, exigente, focada, envolvida e apaixonada.

No fim deste ano, a média é incrível.

O processo de avaliação, contínuo, participado, centrado em objetivos de aprendizagem, é algo que faz sentido para todos e reflete exatamente as capacidades que cada um vai alcançando, mostra as fragilidades e propõe novas estratégias de melhoria.

Os resultados são de todos, alunos e professores têm um envolvimento afetivo nesta procura de alcançar bons resultados. Há um verdadeiro trabalho de equipa num caminho que é comum.

No final deste primeiro ano não podíamos estar mais satisfeitos com o percurso.

Aqui, os resultados obtidos não são mais que o espelho deste mesmo caminho. A média não é a meta, é apenas o reflexo do trabalho feito ao longo do ano e isso sim, faz sentido.

É um orgulho ver que a coragem de arriscar trouxe tantos frutos, que a vida depende, realmente daquilo que fazemos com ela.

Exigir mais, lutar por aquilo que queremos é talvez o ponto chave onde o Direito e o Dever se encontram.

E eu dou os parabéns à Eva, vivemos um ano incrível.

NOTA IMPORTANTE: Defendo uma alteração profunda no sistema de ensino, trabalho nesse sentido todos os dias. Acredito que no sistema de ensino atual, as alterações têm de ser estruturais, no entanto, como mãe tenho de procurar alternativas, lutar no presente por um futuro melhor. Não considero sequer a hipótese de enterrar a cabeça na areia, lamentar apenas o que está mal.

Atualmente, existem várias instituições onde diariamente é feito um trabalho muito válido e onde profissionais levam ao limite o esforço de criar uma realidade onde a aprendizagem aconteça, faça sentido e contribua para o desenvolvimento de pessoas livres, responsáveis e felizes. Trabalhar em educação é um desafio enorme e exige um grande investimento ao nível da inteligência emocional, seja dos alunos, dos profissionais, da direção, da família.

A meu ver, exige, acima de tudo, compromisso.

Fotografias  Vitorino Coragem

Fotografias Vitorino Coragem