Dias úteis

Fotografia  Vitorino Coragem  em Flores do Cabo

Fotografia Vitorino Coragem em Flores do Cabo

Prefiro uma boa festa a uma noite de descanso, roubo horas ao sono para aproveitar o silêncio da casa e ler até muito depois do que seria sensato. 
Não poupo a bateria e acelero em demasia. 
Estico a corda e uso os braços sentindo-me um polvo que tudo quer abraçar. 
Tenho ânsia pela vida, alimento-me de tudo mesmo que sejam pequenos nadas. 
Trabalho o ser feliz com afinco, sou dedicada, esforçada e focada nessa missão. 
Sinto-me responsável pelos meus, caminho lado a lado tentando sempre acertar o passo. 
Sempre que me vou abaixo zango-me comigo como se não tivesse esse direito. Trago o mundo às costas. Decidi assim e julgo deitar-me na cama que faço.
Mas há dias em que me apetecia ser má. Ser desprezível. Mandar a felicidade às urtigas e permitir-me a afogar-me em mágoas. Aceitar a culpa mas sem a querer resolver. Não me importar com nada.
Há dias em que gostava de não ter medo de morrer. 

Deito me demasiado tarde.
De manhã acordo cedo
Não me levanto logo
Enumero uma a uma as razões pelas quais devo sair da cama
São quase todos os dias as mesmas, ainda assim listo-as. Só depois me decido.

Nunca me permiti olhar para o dia com o enfado deste ser apenas mais um. 
Muitas vezes troco tudo o que ia fazer só pelo gozo de baralhar a vida
Sou irreverente e mesquinha neste exercício.
Preferia ser obstinada. Tenaz.

Construo com o mesmo empenho que destruo mas sempre com o cuidado de manter a fachada imaculada numa enganadora e aparente robustez.
Baralho e volto a dar, reinicio o jogo.

Alimento rigorosamente e com esmero a minha solidão. Vigio-a de perto fingindo dar-lhe alguma liberdade. Faço - a refém da minha vontade, da minha loucura.
Sei que posso enlouquecer a qualquer momento.
Sei que o experimento tantas vezes como um exercício de preparação. Metodicamente como quem ensaia para uma depois avançar sem medo. 
Olho em volta e enumero as razões pelas quais devo enlouquecer.
Viro-me para o lado e decido bruscamente que hoje não me levanto da cama.
Mentira. Não enlouqueço, nem morro.
Levanto-me apenas.

Alexandra Neves daSilva