O Nascimento de uma nova vida

Eu já era uma mulher crescida, até madura e com três filhas. 

Decidi, e a vida decidiu comigo, ter outro filho e vivi uma verdadeira revolução interior.

Tinha 38 anos e alguma estabilidade.

Um emprego, três meninas e um companheiro atento.

Mas uma nova morada e uma impaciência que já pensava ter desaparecido, vieram fazer tremer o meu solo firme e de cada vez que via um bebé eu emocionava-me - era a casa nova, os jardins, o silêncio e o barulho dos pássaros, o tempo; eram as meninas crescidas e o cheiro a bebé que ficava nas mãos e me enchia de lágrimas.

A razão, as contas e a lógica abriam-me muito os olhos como as mães fazem às crianças quando estas ameaçam portar-se mal.

Mas esta vontade começou a ganhar espaço dentro de mim, a dominar os meus pensamentos durante cada vez mais tempo ao longo do dia, a dormir comigo de noite e quando dei conta já se tinha apoderado e silenciado a lógica e a razão; amordaçou-as e deu-me ouvidos moucos para os seus argumentos.

No dia em que comecei a falar disto tinha a certeza de que não havia volta a dar e que nunca mais nada seria igual.

Quando fiquei grávida sabia bem que estava a abrir uma porta para um novo mundo, ter um bebé nesta idade ia ser avassalador para as poucas certezas que tinha construído ao longo destes anos, mas eu sentia-me capaz e suficientemente forte para ser despejada de verdades e receber a incerteza.

Tenho muitas saudades da emoção da gravidez. Da alegria de cada acordar, da felicidade palpitante no decorrer dos dias.

O meu olhar, ao virar-se para dentro, conheceu uma lucidez maior no que via à volta. A comunicação emocional com as minhas filhas despiu-se de ruídos e ganhou a profundidade do silêncio partilhado. A vida ganhou um novo ritmo, mais lento e sentido, como se de repente os pormenores importantes ganhassem uma luz própria e sobressaíssem no meio de tudo o resto.

Os meses foram passando e eu degustando lentamente este repasto, sentindo cada aroma, decifrando cada ingrediente e, embora não gostasse de tudo, procurava identificar de forma serena o que me incomodava e perceber como podia transformar a minha relação com isso. Foi um alterar completo da forma como me relacionava com o mundo e eu ia percebendo que isso traria consequências incontornáveis e irreversíveis.

Tornei-me mais tolerante com os outros mas mais intolerante com a forma como me deixava poluir pelo exterior, sentia a minha família como um balão de oxigénio onde eu podia encher os pulmões de ar puro e tentava mantê-los assim nos outros ambientes onde me via obrigada a respirar.

Comecei a perceber que algumas realidades que tinha aprendido a suportar não seriam mais possíveis de manter nos meus dias. Lentamente fui aceitando que mudar de vida era uma inevitabilidade à minha nova condição, percebi que esta mudança exterior era uma consequência natural à revolução serena que vivia internamente e foi nessa altura que decidi que ia sair do emprego que tinha há 12 anos.

Quando dizem que fui muito corajosa eu encolho os ombros, não por menosprezar esta opinião mas apenas por saber que não tive escolha, ou antes, que esta foi um "efeito colateral" de outra decisão tomada anteriormente.

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Depois de ter prolongado a licença de maternidade até não poder mais, regressei desencantada à vida que já não me fazia sentido, lutei durante mais de um ano para encontrar motivação onde sabia que não ia conseguir nada, como "quem espera o comboio na paragem do autocarro", diariamente eu caminhava no sentido contrário à minha vida e tentava reencontrar nexo, plantava sementes em terra morta.

Estranhamente e sem ter nada de concreto a acontecer que indiciasse uma mudança nesta área da minha vida, eu sentia uma esperança constante, era como se tivesse sempre a certeza que alguma coisa ia acontecer e mantinha essa certeza em banho-Maria, num lume muito baixinho de forma a que nem entrasse em ebulição nem arrefecesse de vez, e essa sensação morna ia-me mantendo atenta.

Repetia em silêncio frases que ia ouvindo: não devemos ter medo dos nossos desejos, se acreditarmos muito conseguimos fortalecê-los e criar as condições para que se concretizem; a vida resolve.

Depois, o que aconteceu comigo foi uma mistura de sorte, de loucura, de irresponsabilidade, de consequência de um percurso e do fluir da vida.

Passado um ano de remar contra a minha maré a sorte mudou, a vida baralhou e voltou a dar e eu arrisquei ir novamente a jogo, com outras regras e com muito mais riscos mas com a minha paz restabelecida.

Passaram já alguns anos, tenho uma vida nova cheia de desafios. Vivo em constante desassossego com vários projectos em braços, como bebés que dão noites más, poucas horas de sossego, que tenho de alimentar de duas em duas horas, que me trazem angústias enormes e me provocam dores tortas e outras agudas, que me preocupam, que muitas vezes me levam ao desespero e me até a uma enorme vontade de desistir, mas que, ao mesmo tempo me derretem por completo quando se mostram, quando olho para eles como que para um bebé a dormir, quando me emociono ao ouvir os seus nomes na boca de outros, quando os sinto a crescer e a existir de facto, a ser mais do que vontades, desejos, quando sinto que tudo isto é real e que, mais do que estrias me deixa cheia de rugas, "rugas de sorrir". 

Os vários projectos que tenho, entre eles o espaço Nheko, são o culminar de um processo iniciado quando decidi ter mais um filho, são a materialização do que eu sou hoje e no que a vida me tornou. Quando quis ter este filho nesta fase da minha vida eu sabia que estava a aceitar os termos de responsabilidade que estavam escritos nas entrelinhas e que isso implicava recriar-me de novo.

Quando olho em volta, quando olho para mim e para a minha família, sinto que foi talvez a melhor decisão que tomei na vida. Não a tomei sozinha mas sei que só eu tinha ideia no que isto ia dar.

Sinto-me muito grata por toda a sorte que tenho, especialmente pelo companheiro maravilhoso que está ao meu lado e agradeço também a este filho a oportunidade que me dá de viver a vida desta forma.

Amanhã o nosso BoNheko faz 6 anos, é fruto de uma doce irreverência, de um desejo profundo.

Todo ele é amor. É um presente da vida.

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Alexandra Neves daSilva