O meu filho não come || Um dedo de conversa

 Um dedo de conversa, uma série de publicações com partilhas feitas na primeira pessoa, relatos de experiências vividas na pele. 

A vida em família é o tema de fundo destas conversas, tal como o é de todo o projecto Nheko.

A Diana é mãe de duas meninas e de um mini rapazinho e foi ele que, de um momento para o outro a surpreendeu com uma recusa quase total de comer, fosse lá o que fosse.

Uma partilha que mistura angústia, inquietação, tensão, mas também esperança, perseverança e muita criatividade.

Obrigada Diana.

O meu filho deixou de comer de um dia para o outro, tinha um ano e meio. Até aí comia carne, peixe, sopa, feijão preto, milho e abacate. Estes eram os seus sabores preferidos. E mamava (ainda mama). De repente as refeições tornaram-se em momentos de muita tensão e angústia porque falhavam todas as tentativas para o fazer comer. Éramos nós a forçar, as irmãs a inventar brincadeiras, a família e os amigos preocupados, pratos e colheres coloridas, a comida disfarçada e a ansiedade constante de que pudesse ficar doente. Este foi sempre o maior de todos os medos, que tantas noites nos deixou sem dormir, a par de uma enorme frustração por não conseguirmos perceber a origem do problema ou sequer ajudá-lo a recuperar o apetite.

 

Lemos muito sobre o assunto, procurámos ajuda médica e conversámos com outros pais mas nenhum corte nos pareceu tão radical como o do Gaspar, que chegou a passar dias inteiros sem comer. Houve momentos em que quase fazíamos uma festa se ele comia uma bolacha!  Alguns amigos prepararam pratos especiais para ele. Também pedi ajuda no grupo do facebook das mães de Macau e recebemos muitos conselhos e muitas manifestações queridas de preocupação e carinho.

 

Apesar de todo o desespero de não o vermos comer, nunca sentimos culpa nem que estaríamos a falhar enquanto pais. Estivemos sempre atentos e dedicados, como continuamos a estar, mas ganhámos alguma serenidade e confiança porque vai melhorando devagarinho. Está quase com 3 anos e fizemos, desde então, alguns progressos. Come arroz, massa, clara de ovo e papas de aveia, não muito mais do que isto mas, ainda assim, esta ementa consegue sossegar-nos a angústia porque está alimentado, tem o peso certo e não lhe falta energia. Continuamos a experimentar sabores diferentes, novas receitas e estratégias apetecíveis com grandes doses de criatividade que às vezes resultam. Este processo do Gaspar levou-nos a inventar técnicas, a criar peças e a fazer jogos com a comida para tornar as refeições mais divertidas.

 

Agora que entrou na escola acreditamos que mude ao ver os outros meninos comer. Acreditamos que o tempo lhe vai devolver a capacidade inicial de saborear a comida. E apurar o gosto para descobrir novos sabores. Talvez aprenda a comer brincando com as tais peças que vamos criando para ele. 

 

Quem nos dera ter a receita certa que o fizesse comer e chorar por mais. Sabemos apenas que o amor, a paciência, a disponibilidade, a persistência e a criatividade são alguns dos ingredientes que todos os dias reunimos à mesa com o Gaspar. 

Diana Soeiro

Outubro 2018

Alexandra Neves daSilva