Filha adolescente, eu não quero mandar em ti!

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Eu nunca vi na maternidade um exercício de autoridade, talvez por nunca ter vivido o papel de filha como uma forma de obediência. A autoridade é algo com a qual eu nunca me relacionei muito bem e, conseguir que os meus filhos façam o que eu quero, não faz parte dos meus objectivos.

Pensar pela cabeça deles muito menos.

A adolescência é um desafio enorme, uma fase de conflito latente para os pais, a fase em que tudo se põe em causa, especialmente a autoridade.

Essa autoridade, desde sempre, tão questionável.

Em nossa casa há poucas verdades absolutas, não há proibições quadradas nem nãos redondos mas há regras, compromissos, deveres e direitos e um dos que mais prezamos é o direito a ser ouvido e a ter opinião. 

Acreditamos que é assim que os nossos filhos se tornam pessoas autónomas e capazes de tomar decisões em consciência.

Ao longo do crescimento há alturas em que esta forma de nos relacionarmos fica mais complexa mas estamos convictos que este é o caminho e, mesmo agora, com três adolescentes ao rubro, continuamos a afirmar: Eu não quero mandar em ti!

O respeito, a autonomia, a liberdade e a responsabilidade são os pilares dos relacionamentos, sejam eles com graúdos ou miúdos.

Com os filhos a relação constrói-se a cada passo, a cada dia, em cada conquista, em cada conflito, em cada resolução.

Entregamos sempre a responsabilidade da decisão ao protagonista da situação. Criamos espaços para o confronto de opiniões, apresentamos todos os nossos argumentos, abrimos o jogo e depois, damos espaço, ficamos à espera da decisão.

Este é um jogo delicado mas que necessita de gente firme.

Não podemos a meio mudar as regras. Temos de estar preparados para respostas que não sejam, de todo, aquilo que gostávamos que fossem. 

Há que ter cabedal para aceitar decisões que contrariam a nossa opinião, temos de acatar de forma honesta, sem ficar zangados nem com vontade de desejar que então tudo corra mal.

Podemos pegar num exemplo concreto:

Há um tempo as meninas do meio, que têm 15 anos, tinham convites para duas festas no mesmo fim de semana - festas que acontecem até tarde - e conversámos sobre o assunto. 

Nós chamámos à atenção sobre o facto de que, caso fossem a ambas as festas, não iam conseguir fazer mais nada no fim de semana pois os dias iam ser passados praticamente a dormir e além disso iam ficar extremamente cansadas durante a semana; as manhãs iam ser difíceis, as aulas iam parecer mais longas e desinteressantes, os trabalhos mais difíceis de fazer, a concentração... e por aí fora. Jogámos os nossos trunfos e deixámos que decidissem por si.

Fazemos isto porque durante toda a vida as habituámos a pensar, construímos em conjunto uma boa bagagem de bom senso e acreditamos que as aprendizagens se fazem assim. Ainda assim sabemos que é arriscado. 

Aceitamos o risco.

Estávamos certos de que, fosse qual fosse a decisão, cá estaríamos juntos para a viver. Atenção que isto não quer - de maneira nenhuma -  dizer que se corresse mal e andassem a semana inteira a cair pelos cantos nós lhe fossemos heroicamente dizer: nós avisámos! - Não, nunca fazemos isso, antes pelo contrário. Se isso acontecesse íamos ajudar ao máximo e nunca usaríamos esse argumento tão feio. Acreditamos que educar é dar o exemplo, que gentileza gera gentileza.

Há que saber deixar cair e ajudar a limpar as feridas sem recorrer a moralismos fáceis nem a liçõezinhas de moral de consequências já previstas. 

Conversamos como com qualquer outra pessoa que amamos e que está dorida por uma má opção que fez; tratamos assim o outro como gostamos de ser tratados.

Este exemplo serve para ilustrar o nosso estilo parental, aquele em que acreditamos.

Nesta situação aconteceu ambas optarem apenas por uma das festas e o fim de semana decorrer normalmente.

Construímos em conjunto o caminho que queremos fazer juntos.

Nesta fase da adolescência é fundamental dar espaço para o individual e criar espaços para o colectivo, partilhar experiências e alimentar cumplicidades.

Ouvir a música que trazem de novo, ver as séries que acham imperdíveis. Adaptar horários se isso permitir criar novos momentos de partilha.

Não querer controlar e definir tudo, ouvir de uma forma disponível e aberta.

Queremos continuar a SER em conjunto, mas temos de aceitar que a anterior reunião* vivida na infância, deu lugar à interseção*, ao espaço comum de gostos, de formas de estar, de opiniões e a uma co-existência de seres autónomos e capazes de tomar as suas próprias decisões. (*conceitos da matemática)

Aceitar que os filhos cresceram pode ser uma fase complexa para os pais, para nós, mães. 

Recorrer à autoridade é uma forma de promover o afastamento, de alimentar a falta de relação, de respeito até.

Questionar não é desrespeitar. É querer reconstruir tendo um papel activo nessa nova edificação.

A tentativa de controlar a vida dos miúdos muitas vezes é um acto desesperado de os manter debaixo da asa mas isso só vai fazer com que queiram voar para mais longe. 

Por aqui optamos por manter o ninho um local confortável, onde se pode livremente existir, assim acreditamos que voam mais seguros e que regressam por livre vontade para onde se sentem amados e acarinhados.

E é isso que nós queremos: Amar, de perto, as nossas filhas adolescentes. Nós não queremos mandar nelas!

Fotografias  Mariana Sabido  || Publicado em Maio de 2018

Fotografias Mariana Sabido || Publicado em Maio de 2018

Alexandra Neves daSilva