Correr por gosto também cansa.

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Dou por mim a reajustar aquilo que nunca pensei ser possível de sofrer alterações, esforço-me por não me sentir refém da minha própria liberdade e reafirmo o meu foco em voz alta para não sair do caminho.

Relembro-me que afinal fui eu quem procurou este mar revolto, troquei o marasmo das águas paradas pela agitação das marés vivas, fui eu até que preparei a tripulação para o que aí vinha e sou eu agora que me tenho de manter na rota que defini. 

Tento encontrar o equilíbrio.

Procuro-o na forma como ocupo o tempo e vivo a minha vida, procuro-o no que dou e no que recebo, no que espero e no que consigo, entre o que procuro e o que encontro.

Correr atrás de um sonho e depois transformá-lo num pesadelo é um risco demasiado grande.

Sinto que este querer mais da vida, arriscar fazer o que o instinto me diz pode facilmente empurrar-me para um abismo onde a queda é iminente. 

Imagino-me a olhar para baixo o tempo todo sem conseguir viver tranquila o facto de estar cá no cimo.

Arriscar é muito mais do que ter coragem, é aceitar viver com medo e conseguir transformá-lo em energia criadora, em auto motivação e em força.

Querer viver com paixão o que se faz, alimentar criativamente um projecto, organizar os tempos, ser tudo ao mesmo tempo sem o tempo ideal para ser cada uma das coisas são desafios constantes.

Além de que ser o próprio patrão e trabalhar em casa é um pau de dois bicos; há por um lado o conforto de gerir o tempo, de estar no melhor local do mundo, de poder parar para beber o chá favorito, ouvir a música que mais se gosta e usufruir do espaço próprio. Poder estar e responder sempre que os filhos precisam, almoçar bem e fugir à rotina muitas e muitas vezes, ir ao mercado a meio da semana, respirar o silêncio quando todos saem e tantas outras coisas tão boas e tranquilizadoras que me  fazem agradecer diariamente e sentir que sou uma privilegiada. 

E depois há também o outro lado, aquele que me impede de usar a pausa da manhã para beber o chá e ouvir a música e me empurra para a cozinha para tirar a loiça da máquina, pôr a roupa a lavar enquanto o ficheiro descarrega, tirar os brinquedos da sala no decorrer de um telefonema de trabalho, o lado de me atafulhar de coisas para fazer no tempo reservado para ir mandar encomendas ao correio e  que aproveito para tratar dos assuntos pendentes ou passar no supermercado. Acordar mais cedo e adormecer mais tarde, trabalhar sempre que há oportunidade para isso, sentir a cabeça a fervilhar e ter ideias a toda a hora.

E, de repente, é a linha que separa o tipo de tarefas que desaparece e já não há as coisas da casa e as de trabalho, há as coisas da vida e estão todas dentro de um mesmo saco pesado que carrego comigo para onde quer que vá. Uma mistura total que acontece porque sou aquilo que faço.

E este é o preço desta opção, este é um ritmo que, sem compassos certos nos exige muita disponibilidade e amor.

Depender totalmente do caminho que vou trilhando também não é pacifico, há uma sensação de impossibilidade de parar que muitas vezes é angustiante, como se houvesse uma bola de neve que rola atrás de mim enquanto corro. Sou eu que escolho a direcção em que sigo mas sei que, se abrandar o ritmo ou se parar para descansar, sou imediatamente esmagada. E há dias em que esta sensação se torna aflitiva mas noutros é muito estimulante e desafiadora. Certo é que correr acompanhado torna tudo mais fácil tal como olhar em volta e procurar na ligação com os outros a motivação necessária para continuar.

Ainda assim haverá sempre quem, confortavelmente sentado, veja a vida a passar a correr e arrisque dizer: Quem corre por gosto não cansa.

Cansa pois!

Publicado em Maio de 2016

Alexandra Neves daSilva