Perder o pé, ficar sem rede, reforçar os laços e apertar os nós.

Há alturas tramadas, alturas em que um simples incidente precipitam uma série de acontecimentos e nos sentimos a perder o pé, que somos engolidos vorazmente pelas pequenas falhas que se acumulam e transformam a realidade dos nossos dias num aparente desastre.

Fotografia Vitorino Coragem

Fotografia Vitorino Coragem

Somos frágeis, muitos frágeis e a todos os níveis.

Há o patamar das coisas muito importantes onde encontramos o Amor e a Saúde.

Há o pântano assustador do desequilibro financeiro que pode ser provocado pela simples queda de uma pequena e aparentemente insignificante carta que faz parte do (frágil) castelo que, tão cuidadosamente, edificámos.

Há também a rede de dependência que criamos diariamente e nem nos apercebemos como nos domina e nos limita.

É aqui que estou frágil e me sinto perdida.

Sei que, se por um lado sou uma nódoa ao nível dos gadgets e tecnologia, por outro também tenho claras as minhas prioridades, os custos e consequências que estão subjacentes às mesmas. 

Vivo com isto.

O meu computador é um velho e pesado portátil de marca branca, o meu telemóvel um smartphone dos mais em conta e é com dificuldade que tenho tudo ligado entre si de forma a parecer uma pessoa normal que utiliza e vive enredada nas redes.

Faço tudo para que o meu trabalho apareça e que mereça atenção por parte dos atentos seguidores e possíveis interessados nas diferentes áreas onde concentro a minha actividade enquanto freelancer.

Sinto que participo numa corrida renhida mas que tenho menos cavalos no motor.

Não concorro aos primeiros lugares e sei bem que não tenho na vitória o meu objectivo. 

Mas corro, corro afincadamente, como posso e sei.

Procuro o meu lugar, tento manter o foco sem me distrair com o ventos provocado por quem por mim passa,veloz. 

Há alturas em que deixo de conseguir ver em frente, os olhos ficam inflamados com a poeira do caminho.

Nessas alturas olho para dentro, concentro-me no que transporto e reconheço a importância do que levo comigo.

Não sou leve nem viajo sozinha.

O mais importante existe, vivo-o na pele.

Transporto comigo a minha vida e faço-o todos os dias.

Na (minha) vida real não é necessário ter os dados móveis sempre ligados para que os likes apareçam em forma de gestos directos dos que nos rodeiam.

No exercício da relação, mesmo sem rede, temos acesso às falhas e necessidades dos que fazem parte.

Na vida em família nunca ficamos sem bateria numa altura importante nem Crash-amos quando sabemos que precisam de nós.

Carregamo-nos uns aos outros como se fossemos Powerbanks infalíveis, vibramos uns com os outros e respeitamos o silêncio.

Quando temos demasiadas janelas abertas, usufruímos da leve corrente de ar e sentimos o cheiro do café que se propaga pela casa.

Se sentimos falhas na rede, juntamos todos à volta da mesa porque sabemos que não há melhor coisa que reforçar os laços.

Há alturas tramadas, alturas em que nos sentimos a perder o pé.

Nestas alturas, o melhor é encostar à boxe e seguir a pé. 

Sentir o sol a afagar-nos o rosto, olhar em volta e aproveitar para ver o que não se consegue quando se avança com pressa.

Permitir-nos a ver o caminho sem olhar a meta.

Retirar os filtros e ser o melhor retrato se si mesmo, uma selfie só vista por quem caminha ao nosso lado e nos provoca os melhores sorrisos do nosso feed.

Alexandra Neves daSilva