A dois

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Diz-se que a relação de um casal é como um jardim que tem de ser regado, ou um primeiro filho que tem de ser cuidado... a pessoa que temos ao nosso lado e com quem decidimos partilhar a vida, ter filhos e ficar até ser velhinhos merece a nossa melhor atenção, o que nem sempre é fácil no meio da vida que vivemos.
Cá em casa já passámos por muitas fases diferentes, estamos juntos faz muito tempo o que tem muitas coisas boas mas alguns inconvenientes também, é assim como ter um carro clássico: é lindo, toda a gente admira mas, se não lhe damos muita atenção, a tendência é que comece a dar problemas!

Neste momento vivemos uma situação muito privilegiada porque temos serviço de baby sitter interno e sem custos. O facto de termos três filhas crescidas e um mini rapazinho, permite-nos sair para jantar, ir ver um espectáculo ou estar com amigos sempre que o desejamos. 

Mas nem sempre foi assim e passámos mesmo uns anos bem difíceis neste aspecto quando as três irmãs eram pequenas. 

A nossa filha mais velha tem dois anos de diferença das irmãs que são gémeas e os primeiros anos da nossa carreira de pais foram passados com pouca ajuda externa o que nos obrigou a arranjar novas e criativas soluções a bem da manutenção da vida saudável do casal.

De forma natural sempre tivemos alguns papéis bem definidos, as coisas aconteciam e cada um de nós ia assumindo as funções em que se sentia mais confortável ou onde tinha melhor desempenho. Com as constantes ausências do pai devido ao seu trabalho e graças à minha característica de açambarcadora de filhos, eu assumi para mim grande parte das funções diárias que as três crianças pequenas exigiam o que me deixava muito pouco tempo e disponibilidade para pensar em qualquer outra coisa.

Esta tendência que tenho, e que acho que é muito comum nas mães, afasta-nos da nossa essência de mulheres, anula-nos e muitas vezes revela-se fatal para a nossa auto estima e para a nossa relação.

Vivemos muitas pressões, socialmente somos empurradas para o papel da mãe perfeita e, com a melhor das intenções, desaparecemos como pessoa por trás dessa fachada da mãe capaz.

Eu não tive noção de nada disto e sempre achei que chegar a tudo era a melhor forma de viver mas o tempo veio mostrar-me que saber sair do palco é muitas vezes um acto mais corajoso do que tentar levar o mundo à frente.

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Dono de uma grande sensibilidade e perseverança, o pai das crianças assumiu nesta altura as rédeas da relação, que andava meia à deriva, e dedicou-se a ela sob o principio mãe feliz, vida feliz.

Regularmente, sempre que os concertos não o obrigavam a estar fora, este meu querido companheiro lá preparava uma noite especial para nós, muitas vezes eu nem me apercebia de nada e, no tempo em que eu deitava as meninas - leitinhos, fraldas, histórias, mimos (coisa que podia demorar bem mais de 1 hora), nesse período a nossa sala passava de "sala de jardim de infância" a sala privada de um qualquer restaurante gourmet e romântico. Nesta altura este meu dedicado rapaz, aprendeu a fazer sushi e sashimi, tornou-se especialista em menús de degustação de queijo e vinhos, arriscou jantares temáticos de inspiração mexicana, espanhola, francesa... 

Nessas noites perdíamos-nos na conversa, bebíamos mais do que a conta e namorávamos pela semana toda, adormecíamos tarde mas ficávamos felizes e próximos, sentíamo-nos reforçados para assumir e dar resposta às necessidades das meninas, do trabalho e da vida em geral.

Este espaço que criámos foi fundamental para conseguirmos ultrapassar as dificuldades que foram surgindo ao logo do tempo, foi importante para me descentrar do meu papel de mãe que tinha assumido a 100% e permitir-me aos poucos de voltar a ser Eu - Eu mãe, mulher, filha, amiga...

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Nunca perdemos este hábito embora haja muitas alturas em que espaçamos demasiado estes momentos, agora que podemos sair, acabamos por não o fazer muitas vezes e temos saudades daquela altura em que a vida nos "obrigava" a ficar em casa.

Numa relação longa há uma tendência para nos acomodarmos, para dar tudo como certo e seguro. Numa família com filhos o espaço do casal é constantemente invadido por todos, é também desprezado, desvalorizado e muitas vezes abandonado. Há alturas que deixamos secar o jardim o que depois exige muito mais trabalho, engenho e dedicação. Há muitos que preferem investir num jardim novo com a esperança que esse nunca seque.

Eu tenho muita sorte por ter a meu lado uma pessoa muito paciente, lutadora e concentrada.

Cuidamos do nosso jardim com respeito, dedicação mas com excesso de confiança, o que nos leva a encontrar muitos canteiros secos quando olhamos com mais atenção, e aí, de forma mais concreta e efectiva, lá nos obrigamos a encontrar espaço e tempo para nós.

Tentamos, pelo menos uma vez por ano, ter uma saída mais completa, viajar durante três, quatro dias sem os filhos. Não somos exigentes no destino e até já fomos algumas vezes ao Porto em vez de sair do país, eu não me importo nada. 

Também já fomos mais longe, a Londres, a Barcelona, a Amesterdão... 

São dias cheios de coisas que adoramos: vamos ver exposições, conhecer restaurantes, passear pelas ruas, visitar lojas e outros espaços inspiradores, encontrar amigos e aproveitar cada segundo da vida que temos em casal.

Neste momento andamos a planear a próxima saída, eu adorava ir a Berlim, também gostava de ir a Paris, cidade onde ambos já estivemos várias vezes mas nunca juntos.

Na verdade qualquer destino é bom desde que seja para irmos os dois tratar do jardim.

Julho 2015, Fotografias  Vitorino Coragem

Julho 2015, Fotografias Vitorino Coragem

Alexandra Neves daSilva