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Realidade editada, na Era em que nada é o que É(ra)



A realidade tem nova era.
A verdade não é hoje essencial para ser real.
A ilusão tomou posse e destronou a realidade ultrapassada.
Editar a vida passou a ser a mais pura das verdades numa realidade melhorada.
E isso é real.

A impossibilidade de partilha é já hoje causa de hipoteca da vontade do usufruto de determinada situação, como se de nada valesse VIVER o que depois não pode fazer parte desta nova realidade - a da partilha.
É uma nova dimensão.
É o paradigma que muda e eu, muitas vezes, sinto-me a navegar em águas turvas.
É o labirinto que se enche de becos sem saída e eu desoriento-me neste percurso.


Tenho observado e acompanhado de perto esta mudança.
Tenho-me esforçado por entender as novas linhas que nos prendem e desprendem nesta rede de ilusões.
Assisto a esta ilusão da consciência numa consciência da ilusão,
É o aceitar da ilusão,
o enaltecer da ilusão.
A manipulação indiscriminada na reconstrução de uma nova prova.
O assumir do parecê-lo em total desprezo pe-lo-sê-lo.

Será parte do choque geracional, o grande corte com o que havia antes.
Sinto que hoje existe um fosso muito mais profundo do que pensava quando mandava a moeda para o poço e desejava que isto fosse apenas uma ilusão.

A ilusão de um amanhã melhor é coisa de um passado do qual não reza a stories.
Importante hoje, é investir num presente suficiente, num surpreendente registo digno de nos rotular, pelo menos nas próximas 24 horas.
Somos o que mostramos, 
o que construímos numa edição rápida, uma corrida veloz para o que foi acompanhar, a par e passo, o que passa a ser.

E mesmo sabendo que andamos todos a fingir, essa passa a ser a regra para esta nova forma de criar identidade.
Procuramos originalidade, 
ser fora da caixa, fechados dentro de um ecran rectangular, 
emaranhamo-nos em redes que nos toldam os movimentos enquanto criamos movimentações em massa que nos colocam num diálogo surdo mas em directo com todo o mundo. 
Nunca estivemos tão perto de todos numa solidão tão imensa como o poder do arrastão destas redes.

É o esvaziar do ser, na procura de um novo eu - editado, controlado, premeditado. sacrificado.
É uma nova forma de viver onde o existir necessita de validação, num género de Seguem-me, logo existo.

E eu não desisto. Procuro o meu espaço nesta existência editada e também registo. 
Resisto. Persisto e agarro-me de unhas e dentes ao conteúdo de mil palavras, na esperança de que valha mais do que a imagem.

Fotografias Mariana Sabido
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