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Eu não estudo, tu não estudas. Elas é que estudam.


Mais uma ano lectivo que se aproxima do fim!
Cá em casa, no meio de tanta intensidade e hormona, a escola é, estranhamente, um dos assuntos mais tranquilos que existe.

Já referi anteriormente, os nossos filhos frequentaram no pré escolar (os 4) e no primeiro ciclo as 3 meninas) uma escola com o Movimento da Escola Moderna
Nesta metodologia a autonomia - nomeadamente no estudo e trabalhos de casa -  é muito valorizada e cá em casa também!
A mãe não estuda, o pai não estuda.
As filhas é que estudam.



Estes pais não estudam com os filhos.
Ocasionalmente quando eu o fiz, a história não teve propriamente um final feliz e então procurámos outras estratégias que passaram muito por estimular e reforçar a tal autonomia e a responsabilidade.
Também nunca misturámos assuntos, as notas são uma responsabilidade do filho, o aluno, nunca dos pais. Não oferecemos prémios nem damos castigos por terem tido boas ou más notas, isso nunca nos fez sentido.
Quando tivemos de pensar sobre qual seria a melhor forma de ultrapassar as dificuldades que a escola estava a colocar às miúdas, eu assumi a responsabilidade de encontrar uma estratégia, de procurar uma solução. 

Nessa altura questionei imensa coisa, li sobre o assunto, falei com várias pessoas e acabei por encontrar a nossa formula, adaptada às nossas necessidades, características e particularidades. É aquilo a que se chama uma formula adaptada. 
Não domino, nem quero, grande parte das matérias, nomeadamente nas áreas de matemáticas,ciências disciplinas onde havia mais engasganços. Também conclui que o problemas não eram propriamente as matérias mas sim a falta de estrutura e de organização no estudo. 
Criei então com cada uma das meninas um género de uma tabela onde escrevíamos as várias ferramentas que podiam utilizar no estudo: apontamentos / resumos / leituras extra / pesquisas / conversas sobre o tema / exercícios / registo de dúvidas / dificuldades. 
Era como criar um projecto de vida para cada disciplina. 
Na verdade eu apenas ajudava a organizar a cabeça e, mesmo com três cabeças tão diferentes isto acabou por resultar com todas. 

As três manas são completamente diferentes na maneira de pensar, o que é fascinante. Os assuntos que interessam a uma nem passam pela cabeça da outra, a forma como estudam, tudo é diferente mas esta estratégia ajudou todas e a mim também, libertou-me da sensação de culpa por não ser capaz de ajudar a estudar, por não querer saber daquelas matérias, e, uma vez mais contribuiu para o reforço da autonomia, tornou-as mais responsáveis mas também mais confiantes.

E foi importante porque nos aproximou mas sem que fossem criadas novas dependências. Voltou a colocar cada um em seu sítio. 
Acreditamos que os pais não têm de solucionar os problemas dos filhos mas têm de lhes fornecer as armas necessárias para os próprios irem à luta, é ensinar a pescar em vez de lhes arranjar o peixe.

Se em Geografia estão a estudar as rochas, vamos lá passar um sábado às Grutas de Mira d'Aire ou ver um bom documentário actual. Temos todos a aprender uns com os outros, isto é prazer não é obrigação.
Estudar e saber devia ser isso mesmo, em qualquer altura e durante toda a vida.


Acreditamos que cada pessoa tem o seu ritmo e estabelece as suas metas, se tiver uma boa auto-estima, for responsável e autónomo, está capaz de ser o gestor do seu tempo, de ser dono da sua organização.
Nós não somos uns pais muito exigentes no que se refere à notas, preocupa-nos mais que haja interesse e consciência das responsabilidades do que propriamente a nota obtida. O foco está no percurso e não no resultado.
Somos no entanto, exigentes na forma como cada um se relaciona consigo próprio e com os outros. Exigimos honestidade na maneira como cada um se respeita a si próprio e isto passa obviamente pelos estudos e resultados.
Falamos muitas vezes das matérias que estão a ser abordadas e tentamos oferecer novos pontos de vista, procurar ferramentas inovadoras para abordar os assuntos e, acima de tudo, integrar as matérias em interesses que lhes façam sentido.

A escola está ultrapassada, falamos também muito nisto mas, esta é a escola que existe e tentamos retirar o melhor que conseguimos desta experiência.
Não vale a pena chover sobre o molhado.
A desmotivação, para nós, é o maior inimigo do processo. 
Encontrar a área acertada, a escola mais adequada, as matérias mais alinhadas com os interesses de cada uma é um desafio grande.

Ouvi de um amigo, professor universitário, a seguinte afirmação: "Mais de 50% das profissões que vão existir daqui a 10 anos ainda não foram criadas!" fiquei perplexa mas reforçou-me a convicção de que, muito mais importante que ensinar especificidades, é urgente apostar nas competências. 
Educar para a responsabilidade, para a pertença, para a relação. Investir na inteligência emocional, capacitar os miúdos de instrumentos para viver em sociedade, consciencializar para o todo, levantar a cabeça do umbigo e olhar/ver em volta.

Tudo isto, claro que exige que nós, os adultos, também consigamos viver assim, que nos ultrapassemos.
Obriga-nos a viver conectados com os filhos, a não entregar à escola uma responsabilidade que é nossa. A da educação. Todos nós somos educadores, a toda a hora. Somos exemplo.

Verificamos diariamente que os filhos crescidos exigem tanto tempo e dedicação como os pequenos. 
A relação tem de ser algo prioritário nas vidas de ambos.
Quando os filhos são pequenos estão sempre disponíveis para nós mas depois quando crescem já não é assim.
É preciso querer estar e cativar também a atenção deles, no meio de tanta solicitação conseguir que queiram estar connosco não é assim tão fácil, temos de ser boa companhia.
Fazer equipa com e não equipa contra. Numa família somos parceiros, não somos rivais, não jogamos em campos opostos.
A escola e o estudo muitas vezes é motivo para grande batalhas, é um campo minado.
Encontro muitos pais a querer detonar minas no lugar dos filhos e depois a acusá-los de serem uns irresponsáveis imaturos.
Há também uns quantos filhos que crescem a pensar que a responsabilidade dos pais passa por lhes preparar o terreno, por lhes retirar todas as pedras do caminho mas depois acham que, sozinhos vão conseguir edificar o seu castelo.
Existem muitos pais e filhos de costas voltadas, a percorrer um mesmo caminhos mas sem conseguir sentir o outro. Pais zangados e filhos revoltados.
A escola é tantas vezes o bode expiatório de uma relação que se perdeu algures num atalho.
Porque nisto da relação, já sabemos que quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos e trabalhos já bastam os de casa.

Cada casa tem a sua dinâmica, como cada cabeça sua sentença e nisto dos estudos é igual. O que por aqui funciona, ali não encaixa.
No fim de mais um ano importa é fazer um balanço, perceber o que correu bem e o que poderia ter sido melhor, afinal, para o ano há mais!

Fotografias Vitorino Coragem


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6 comentários:

  1. por aqui também nunca nos fez qualquer sentido castigar as más notas e premiar as boas!!! nem pensar! o mérito e a satisfação de uma boa nota deve ser deles e numa má nota podemos ajudar a avaliar o que correu menos bem. mas por aqui vamos muito longe desse caminho todo! há três meninos em casa mas na frente só ainda vai um de dez anos. desde pequenos que temos como máxima retirar prazer de qualquer matéria e se um trabalho de casa está a levar-nos a todos para a má disposição para-mo -lo imediatamente. também lhes repito muitas vezes que os poucos tpc que trazem são para fazerem em pouco tempo, digo-lhes que nenhum professor deseja um aluno sentado em frente a um exercício uma tarde inteira. nem sempre concordamos com alguns tpc mas acreditamos no balanço de não faltar aos compromissos. já tivemos dois filhos à prova com desafios gigantes quando mudamos de país por um ano e os atiramos para uma escola pública inglesa e aí fiz o mais velho trepar árvores para apanhar palavras em ingles muitas vezes, numa tentativa de o ajudar a absorver vocabulário. o mais velho usufrui mais vezes de apoio ao estudo que funciona muito bem com ele no banho porque nao se dispersa com a envolvente. o do meio absorve tudo mais rápido das aulas, é despachado, perspicaz. por isso cada criança será um caso único. acredito muito na combinação aprender/ brincar/prazer e por isso tento sempre que saiam da folha de papel e da caneta e da reprodução mimética. prefiro mnemónicas, contas com giz no chão lá fora, treino de tabuadas num comboio a caminho de um passeio qualquer com rimas disparatadas. também repetimos muito que os testes nem sempre traduzem o que sabem e que a nossa vida não se encerra em testes e que na escola às vezes todos se esquecem de premiar o menino que ajuda mais os outros ou o menino mais tranquilo que isso também é importante no nosso crescimento.

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    1. "...cada criança será um caso único. acredito muito na combinação aprender/ brincar/prazer..."
      Obrigada.

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  2. Adorei ler este texto. É mesmo isto que pretendo para os meus filhos...

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  3. Que reflexão extraordinária!
    Identifico-me em pleno com o que escreve.
    Muito obrigada pela partilha!!
    Pode sugerir-nos leituras para aprofundarmos esta forma "alternativa" de ensino-aprendizagem?
    Muito obrigada, uma vez mais.
    Elisabete Almeida

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    1. Olá Elisabete, pode-me enviar um email com este pedido para alexandra@nheko.pt
      vou tentar reunir algumas coisas.
      Obrigada

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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