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Quanto custa o dinheiro?

Fotografia analógica de Pietro Costa

Esta publicação surge na sequência da apresentação do Guia prático para a educação financeira, resolvi voltar ao tema agora com uma abordagem diferente, numa perspectiva de tomada de consciência e de integração no processo educativo dos miúdos na vida em família.

Seja qual for a condição económica de cada família, faz parte das responsabilidades dos pais ajudar os filhos a tomar consciência do valor das coisas.
Em certas comunidades é muito visível a falta de noção que alguns pré adolescentes - e não só -  têm, adivinhando-se já as consequências que isso vai ter nas suas vidas. 
Vivemos com três adolescentes e uma criança em acelerado crescimento e este assunto, é uma preocupação na nossa vida.


As características pessoais de cada um são muito importantes neste tema e tal como referi anteriormente, As minhas três filhas crescidas têm uma forma muito diferente entre si de se relacionar com o dinheiro, há quem tenha a capacidade incrível de o fazer crescer e quem, ao contrário o faça desaparecer como por artes mágicas. Há quem o ache fundamental e quem o despreze, quem saiba bem o que faz ao que tem e quem o derreta na primeira oportunidade que aparece. (ler mais aqui)

Mesmo perante uma apetência para uma boa gestão ou na sua total ausência, a partir de uma certa idade é importante partilhar com as crianças assuntos relacionados com o dinheiro, passar-lhes a noção de que as coisas têm um valor e que o dinheiro não nasce das árvores.

Independentemente da situação da família é importante que, desde cedo, as crianças percebam que há uma relação directa entre o ganhar dinheiro e gastar dinheiro, o nosso filho mais pequeno um dia perguntou porque é que as pessoas que vivem na rua não arranjam um daqueles cartões que dão dinheiro.

Há diferenças abismais nas vidas e no dinheiro que cada um tem.
É importante passar conceitos como o de que o dinheiro não é o responsável pela felicidade mas que é fundamental para uma vida em sociedade, ou pelo menos na sociedade onde nós vivemos.
Aproveitar para falar sobre os exageros e a ganância, os desequilíbrios e da falta de igualdade.
Introduzir conceitos como a corrupção e a falta respeito. 
É importante adaptar a linguagem à capacidade de entendimento, à idade, mas não devemos evitar nem achar que estes não são assuntos para miúdos. Falar e mostrar o mundo também é isto.

Para os nossos filhos é normal viver numa casa cómoda, com acesso à internet, televisão e smartphones, mas não é assim em todas as casas e muito menos em todo o mundo.
Um IPhone novo de um modelo recente custa mais do que um ordenado mínimo, há muitas pessoas que trabalham um mês inteiro e recebem menos do que o que outros gastam num telefone. 
Independentemente de fazermos parte de um ou do outro grupo, de pudermos ou não ter este tipo de opções, é fundamental que as crianças percebam o valor das coisas. O valor material e o valor que cada um atribui a cada coisa. 
Nunca esquecendo de lhes (tentar) explicar o complexo conceito de que tempo, também é dinheiro.

Uma família funciona mais ou menos como uma empresa, todos devem contribuir para o sucesso do negócio e cada um tem as suas tarefas, o administrador é quem define o ordenado dos outros. Cá em casa somos dois sócios mas eu, sou a gerente.

Achamos que atribuir uma mesada pode ser uma boa forma de incutir a responsabilidade e ajudar a ter noção do dinheiro, começámos esta prática perto dos 10 anos altura em que passaram a andar numa escola com bar e a possibilidade de sair para comprar coisas como gomas, revistas, cromos, etc.

Quando se dá uma mesada convém deixar bem claro o que é que deixa de ser do nosso pelouro, ou seja, deve ser esclarecido o que é que vamos deixar de lhes comprar e o que é que continuamos a bancar.
Uma das nossas filhas achava que tinha de ser ela a comprar a sua roupa quando passou a receber 10€ por mês; parece ridículo mas na verdade os miúdos nem sempre compreendem logo isto dos valores e convém mesmo deixar tudo esclarecido, nós como temos os extremos achamos este ponto mesmo fundamental. 
Uma outra das nossas filhas acha sempre que devemos ser nós a pagar e que tudo é extra à sua mesada "eu não vou gastar o meu dinheiro nisso, acham???"

O nosso mini filho gosta de ver o dinheiro que tem, arranjámos um frasco de vidro para colocar o dinheiro que lhe vão dando e ele está convencido que pode salvar o mundo com aquele seu tesouro, sempre que percebe que há no ar alguma questão relacionada com dinheiro, lá vem ele com o seu frasco!

Cada uma das nossas adolescentes tem, actualmente, um cartão multibanco que está ligado a uma conta minha e que eu carrego directamente, isso facilita e não implica despesas de manutenção de mais uma série de contas.

Usamos o serviço Uber com uma verba mensal fixa que vamos gerindo, esta aplicação é fantástica para quem tem filhos adolescentes, é funcional, segura e bem mais barata que o clássico Táxi. 
A nossa filha mais crescida tem passe, já estuda em Lisboa e desloca-se maior parte das vezes de forma completamente autónoma.
As manas do meio têm uma mota eléctrica que é muito económica, amiga do ambiente e lenta. 
Usam para ir para a escola quando não chove e para sair sempre que querem excepto saídas nocturnas.

Tal como a maioria dos assuntos, o mais importante é a comunicação, o esclarecimento. 
Conversar com os miúdos de forma clara sobre as nossas opções, prioridades ou restrições.
Neste assunto do dinheiro não estamos de acordo na hierarquia das prioridades, falamos sobre isso e ajudamos. 
Nós nunca oferecemos telemóveis caros mas tentamos que elas encontrem as melhores soluções para este assunto que, claramente para elas, é uma prioridade.

As nossas filhas começaram cedo a ter iniciativas para ganhar algum dinheiro, lembro-me de uma vez nas férias de Verão, que criaram uma banca onde vendiam limonada às pessoas que estavam na fila para o barco, isto na praia da Fábrica, Cacela Velha, no Algarve. Deviam ter 8 e 6 anos.
Num Natal também foram tocar e cantar músicas tradicionais de porta em porta e fizeram uma bela quantia.
Além disto, na família, já tentaram ganhar algum a engraxar os sapatos do avô, a organizar as fotografias no computador da mãe, a lavar o carro dos tios, a tomar conta dos filhos dos amigos nas festas.
Fora de casa, começaram com amigos e vizinhos, a fazer babysitting, vender bolos por encomenda e chegaram a organizar umas festas de aniversário para crianças; fizemos uns folhetos de divulgação e tudo.
Num grupo de mães eu arranjei, a uma delas, um trabalho como passeadora de cães que ainda durou uns meses.
Todos eles já fizeram anúncios publicitários e uma das meninas deu voz a uns desenhos animados.
A mais crescida já trabalhou num restaurante de um amigo, fez serviços de catering e esteve durante três meses numa loja de roupa, num horário complementar à escola.
Sempre que tenho um evento maior no âmbito da NhekoShop são as minhas filhas que me ajudam e se o trabalho delas for mais do que uma ajuda pontual, eu pago-lhes.

Somos da opinião que estas experiências são muito importantes a vários níveis e que ter capacidade de fazer acontecer é uma mais valia nos tempos que correm.

Num mundo onde há muitos valores invertidos é fundamental ajudar os mais novos a assumir responsabilidades, a respeitar o trabalho dos outros e a fazerem-se respeitar na mesma medida.

Ter iniciativa, ser pró-activo, saber-se valorizar, trabalhar com empenho e ter brio, vai fazer toda a diferença na sua conduta, venham eles a ser presidentes, jardineiros, chefs, artesãos ou artistas de rua.

Neste momento na escola, uma das manas do meio, está a dar, na disciplina de MACS - Matemática Aplicada às Ciências Sociais, uma matéria relacionada com estas questões, estão a falar sobre impostos como o IVA, o IRS e o IMI, ela comentou comigo que esta é, talvez, a matéria mais interessante e útil que já deu este ano lectivo.
Ligar as aprendizagens à vida de todos os dias é meio caminho andado para uma maior motivação.

Ensinar o valor do dinheiro não é fundamentar o materialismo, é contribuir para uma educação plena, é criar seres livres e responsáveis, conscientes e mais capazes.
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