/ 15.2.18 / 2 Comments / , , , ,

Um dedo de conversa | Os sonhos também morrem

Um dedo de conversa, uma série de publicações com partilhas feitas na primeira pessoa, relatos de experiências vividas na pele. 
A vida em família é o tema de fundo destas conversas, tal como o é de todo o projecto Nheko.

Este é o testemunho de Liliana, uma mulher sensível, lutadora e muito generosa que nos traz um assunto que, não sendo fácil de abordar, é tão necessário de desmistificar.
Na primeira pessoa, um sentir sobre a perda: Interrupção involuntária da gravidez.




"ensinam-nos a não contar nada antes de completarmos os três meses. 
pode haver problemas. risco de aborto. 
e o problema-aborto toma assim, um peso silencioso que ninguém nunca quer discutir, desenvolver, entender. 
não se fazem perguntas. 
ninguém nos ensinou a fazer perguntas. 
ou então não se quer perceber e sentir essa realidade: a da natureza ser como é,  haver embriões/fetos que não encontram condições para se desenvolverem, como uma flor que morre sem água e sol, uma semente sem terra fértil. 

quando me confirmaram a gravidez não evolutiva, nenhuma atividade cardíaca, a necessidade de provocar um aborto, estava eu com quase dois meses...desculpem-me, não cheguei a habituar-me, diz-se 7-8 semanas. 
fiquei sem chão. 
não foi desta. 
Lembrámo-nos então do que nos tinham ensinado e não tínhamos cumprido.
não devíamos contar aos outros antes de completados os três meses, perdão, as 12 semanas. 
mas que sentido tinha não contar o que nos enlouquece de felicidade? 
como o que nos destroça?
como se, com quem partilhamos abraços, não pudéssemos partilhar colo. 

dores de parto sem parto. silêncio. omissão. vergonha. culpa. dor. 
há quase três anos que tentamos. 
neste período somamos dois abortos; o primeiro teve de ser provocado, o outro foi espontâneo. um mais sofrido que outro, dores físicas e emocionais desmedidas, esperanças e fé desgovernadas. 

Para mim foi bom ter-me precipitado a dizer estou grávida.
aprendi também a reconhecer a natureza de que somos feitos. 
Aprendi a dizer abortei com naturalidade.
cada uma das pessoas com quem partilhei a minha história devolveu-me histórias iguais. 
entendi a forma anormal com que se tratava um assunto que é normal.
Percebi que isso nos deixa marcas ainda mais profundas.

A forma como tudo é abordado não ajuda, as estatísticas não são sérias, misturam as interrupções involuntárias com as voluntárias, não registam todos os casos, casos que até as próprias mulheres desconhecem porque confundem aborto espontâneo com menstruação atrasada. 
mas os médicos garantem que uma em cada sete gravidezes acabam em aborto espontâneo, o que representa mais de 25% delas.
25%... é uma em 4, 5 em 20, 25% são 25 em cada 100.
é uma complicação mais comum do que julgamos e, no entanto, ninguém nos prepara para ela.

entendi desde cedo que falar ajudava e, no entanto, sempre me fugiram-me as palavras
Diziam-me: tens de te resguardar. 
passei por uma depressão. 
caminhei sozinha, longamente, dentro de mim, para entender mais, conhecer-me melhor.
quando cá fora tudo me calava. 
restou-me descobrir sozinha e calada que este silêncio nos prende, constrange, bloqueia, e, acima de tudo, não faz sentido.

Não quero continuar a viver e ser cúmplice de uma sociedade que cala e que nos empurra para doenças, cria tabus à volta de tudo o que não é perfeito e romântico e nos enche de medo. 

sinto que tenho de falar. sim, temos de falar disto. 
de quem perdeu fetos, de quem perdeu bebés, de quem nunca os terá sequer ou nem sequer já os quer ter. 
porque esta é a natureza da mulher. 
e porque, mesmo que assim não se apaguem todas as dores, apagam-se silêncios, menosprezos, despeitos e solidões.

Precisamos de mais informação e acompanhamento nas consultas de planeamento familiar e nas intervenções que se seguem. 
diálogos mais abertos e bondosos na hora de discutirmos o conceito de família, de sucesso, de felicidade. 
Para que se acendam a esperança, a força e a coragem de voltarmos ao caminho. 

sofri dois abortos, são marcos que o meu coração-útero não apagam, e, todos os meses, deprimo a cada menstruação e a cada teste de gravidez falhado. 
mas cresci, vivi e hoje consigo dizer: está tudo bem! tenho saboreado cada aprendizagem, cada bênção escondida atrás deste processo, e basta estarmos bem presentes e atentos para que as encontremos.
um dia espero voltar a dizer: estou grávida
ou não, mas cá estarei para te dizer, mulher: somos uma só, caminhemos lado a lado, menos quilómetros, mais leves. "
Liliana
Autora do blogue A essência dos dias



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2 comentários:

  1. Também tive dois abortos, um espontâneo e outro provocado. Felizmente hoje tenho uma linda princesa e essas dores passaram. As coisas acontecem quando menos esperamos, a ansiedade no meu caso não ajudava. Um beijinho muito forte.

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  2. Era para ter nascido em Dezembro de 1999, contámos a toda a gente a 1ª gravidez e falhou. Depois era para ter nascido em Fevereiro de 2000, não contámos a ninguém e falhou também. Tudo resto assenta como uma luva, é isto tudo. Hoje depois de mais 2 gravidezes, estas felizes, uma com 17 e o outro com 14 anos, ainda olhamos para Dezembro com um aperto. Miguel O.

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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