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Margem. De ponto de partida a ponto de chegada.


Margem é a nova criação do muito talentoso Victor Hugo Pontes, um espectáculo que tem como ponto de partida o livro Capitães da Areia de Jorge Amado, o romance de 1937 que retrata um grupo de crianças e adolescentes que vivem nas ruas de São Salvador da Baía no Brasil.
É daqui o coreografo parte numa procura de cruzar esta longínqua história com a actualidade vivida hoje por crianças que vivem institucionalizadas, privadas de uma família e marcadas à partida com um rotulo que as distancia dos sonhos que (nos) comandam a vida.

Em palco, dez miúdos dos 14 aos 20 anos, um bailarino e um actor profissionais, apropriam-se de histórias que não são suas tornando-as pele, energia, emoção, ritmo, união, entrega, sentimento e amor.
O texto, da Joana Craveiro, é de uma subtileza e inteligência que nos provoca margem para muitas dúvidas, que nos leva a viver momentos sem data, a personagens sem tempo e vidas que se cruzam em histórias que se repetem numa apropriação que se torna também nossa.



Há espectáculos dos quais assim que saio trago uma urgência imensa em escrever sobre o que vi, o que senti e vivi. 
Com este isso não aconteceu, à saída deste trazia várias ideias que se misturavam na minha cabeça.
Escrevi palavras soltas na esperança de as conseguir depois ligar:
Margem das margens, camadas. 
A experiência nos interpretes, as apropriações, as alterações irreversíveis. 
Autores, a autoria do interprete. 
O livro, a ficção, a realidade, o palco e a rua. 
Corpo, liberdade, dança. 
Leituras. 
Alienação, compreensão. 
Liberdade/Responsabilidade, educação e intenção. 
A pessoa. 
As pessoas.
Foi isto que escrevi nas notas do telemóvel. 
Depois sentei-me em frente ao caderno e recuei no tempo.

Quando entrei na sala do pequeno auditório do CCB eu levava comigo já alguma (bastante) informação sobre o que ia ver. Tinha lido entrevistas e vários textos sobre esta criação.
Levava também comigo duas adolescentes que não sabiam nada do que iam ver. Foi uma decisão de última hora e não houve tempo para preparações ou troca de informações. 
Também não conheciam o livro Capitães da Areia que servia de ponto de partida para a criação deste espectáculo.
A sala estava cheia, grande parte do público eram também adolescentes, eu não sei se eles sabiam ou não o que iam ver, nem tão pouco se o livro lhes tinha sido apresentado anteriormente. E é sobre isto que quero escrever.


Sempre que vou ver um espectáculo eu interrogo-me sobre a importância e a consequência desta informação prévia sobre o que vamos ver.
Trabalhei muitos anos na mediação com públicos, tanto escolar como famíliar, reconheço o impacto que um objecto artístico tem para quem já trabalhou dentro de si a disponibilidade para o receber, mas pergunto-me sempre, que leituras fazem aqueles que nada sabiam, como é que descodificam a mensagem e de que forma acolhem a surpreendente informação que recebem ali, assim, sem nenhuma preparação?
Por outro lado, qual é o papel dos educadores - professores ou pais - que acompanham os mais novos? Há responsabilidade da instituição que acolhe os espectáculos em provocar este trabalho prévio? E o depois? O que se faz com a preciosa energia que se provoca dentro de cada espectador? Como potenciar este poder modificador da arte?

Penso que todos ganhamos com a preparação e o prolongamento da vivência que é ir a um espectáculo, aumentamos a significância do que foi vivido e atribuímos-lhe um lugar dentro de cada um de nós. 
Se a arte vive (não só, mas também) na interpretação de cada espectador, este também se alimenta do seu significado e cresce em cada consumo consciente.

Defendo que todas as vivências podem ser alvo de um olhar atento e de uma intencionalidade, que tudo o que fazemos, neste caso com os nossos filhos, pode ser vivido de uma forma mais profunda e que isso provoca alterações importantes na forma como os mais novos vão construindo a sua capacidade de olhar o mundo e de o consumir. 

Fazer menos coisas mas dedicar a cada uma toda a nossa atenção e empenho ajuda a dar à vida o tão procurado ritmo mais lento mas conferindo-lhe mais sabor. 
Acredito cada vez mais nisto e vejo em cada espectáculo de dança ou teatro, exposição, concerto ou até aventura gastronómica, um mundo de aprendizagens a fazer em conjunto. 
Quando nos disponibilizamos a viver com os mais novos uma experiência e o fazemos partindo juntos, com a mesma vontade de aprender, estamos a reforçar a cumplicidade, estamos a construir pilares sólidos, estamos a crescer e a viver de forma plena.

Partindo desta margem atravessamos juntos o fascinante mundo da experiência consciente, damo-nos ao que vivemos de uma forma generosa e ganhamos uma sensibilidade maior para reconhecer no objecto artístico um sabor divinal, um manjar dos deuses preparado por gente que dedica a vida a alimentar-nos a alma.

Fotografias Bruno Simão

Margem, segue agora para o Porto, Braga, Torres Novas e Ovar, sigam a página de facebook para saber mais pormenores.
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