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Pessoas que mudam vidas de pessoas


Pessoas que mudam vidas de outras pessoas. 
Todos nós tivemos, no nosso percurso de vida, alguém - um professor, dentro da escola ou em alguma actividade paralela, um tio, um mestre, uma paixão absolutamente marcante - que fez efectivamente a diferença, que foi fundamental para aquilo em que nos tornámos. 

Eu tive um professor de Filosofia no 10.º ano que me apresentou à arte contemporânea, que me levou a ver teatro experimental, que me fez criar textos meus e perder o medo de expor as minhas ideias. Tive na Madalena Victorino uma referência, admirei profundamente a Natália Pais, bebi sofregamente as experiências que a minha vida profissional me proporcionava na área da arte educação. 
Admirei o amor dos meus pais e transformei-o num ideal, cresci ao lado de uma das pessoas mais inspiradoras que conheço, o meu namorado de sempre e pai dos meus filhos. Encontrei na maternidade uma força maior que me serve de foco e me inspira diariamente.
Sinto uma necessidade absoluta de ter referências inspiradoras na minha vida e procuro-as nos detalhes de cada pessoa com quem me ligo.

Aqui reuni um grupo de amigos muitíssimo especiais, pessoas muito diferentes entre si, que hoje, inspiram e influenciam muitas outras e que também foram um dia e são permanentemente inspiradas e influenciadas por alguém.
Deliciem-se.


Fotografias retiradas da internet/perfis facebook dos protagonistas

As referências que se acumulam como um papel dobrado muitas vezes.
No início de tudo seria uma matéria parecida a um papel em branco. Uma folha simples, talvez até um pouco transparente, na qual se foram apontando umas notas que correspondiam a coisas como as regras, os sonhos, e também os ideais . SÓ TEORIA. Mas a folha dobrou-se uma primeira vez sem surpresa. E depois muitas outras vezes, encontrando mais e mais formas de se dobrar em perguntas e inquietações , até que descobriu forma de se desdobrar revelando alguma evolução na minha alma. Já nessa altura, sabia que por detrás de cada dobra, ou (des)dobra estava uma ideia, e que por detrás dessa ideia estaria uma pessoa, que não eu. Poderia enumerar-vos as pessoas que as provocaram por ordem cronológica, mas essas pessoas conseguiram também elas repetir a proeza mais do que uma vez.
Lembro-me do meu professor de filosofia no 10ºano no Liceu Camões, baixote, redondo como a sua cabeça careca, luzidio e cheiroso, o primeiro a revelar uma paciência inesgotável para nos pôr a pensar por nós próprios. Dois anos depois apareceu no meu campo de visão o actor e encenador Luis Miguel Cintra que fez a dobra até aqui mais vincada, sem dó nem remorso. Dobro e desdobro muitas vezes essa linha. O mesmo acontece com os vincos feitos pelos meus pais, já quase todos (des)dobrados, que é como quem diz: evoluídos, compreendidos, desenvolvidos. Depois vieram muitos outros na sequência dos primeiros, os amorosos, uns próximos e íntimos, outros íntimos nas linhas da leitura, outros próximos no cinema.  
Beatriz Batarda, Actriz|encenadora



O meu pai e a minha mãe foram as figuras que mais marcaram e influenciaram aquilo que sou. Mas fora de casa recordo a minha professora de Sociologia de 12.º ano. A professora de sociologia não era simpática, não sorria muito, mas era uma mulher justa, constante e sabia cativar quase três dezenas de adolescentes ensonados. A professora de sociologia era a minha professora preferida, por me ensinar as coisas que mais gostei de aprender e porque, num momento difícil dos meus 17 anos, teve um papel importantíssimo na minha vida. A professora de sociologia foi fundamental no processo de libertação de uma relação abusiva. Não precisei de falar, ela percebeu. E eu percebi que algo não estava bem no primeiro dia que faltou sem avisar. Suicidou-se. E eu ainda hoje sinto a dor de não ter sido importante para ela como foi para mim.
Catarina Beato, Jornalista|blogger



Ora, vou começar por dizer uma coisa - escrevi e re-escrevi este texto, porque não é um assunto fácil. Quando se cresce a ver filmes onde o herói tem mentores como o Yoda ou o Mr. Miyagi, sobe a parada. Fica-se à espera que apareça alguém que nos ensine a lidar com as adversidades, e nos ensine os mistérios da vida. Demorei algum tempo a perceber que a coisa não ia ser bem assim. Percebi que temos de encontrar o nosso próprio caminho, e não estar a contar com alguém que magicamente resolva os nossos problemas.
Sem querer correr o risco de tirar a positividade deste artigo, acho que também é muito importante cuidar os sonhos dos outros - lembro-me que, por causa de uma professora de teatro no liceu, tornei-me incapaz de representar, porque fiquei traumatizado. Isto é terrível. Se estamos na posição de inspirar alguém, temos, pelo menos, a obrigação de não deitar as ilusões dos demais por terra.
Da mesma forma que isso acontece, há, de facto, pessoas que nos fazem uma grande diferença (para melhor) no nosso percurso, e a quem devemos a nossa gratidão. Essas fui encontrando ao longo dos anos, nos diversos projectos em que me ia metendo, ou pelas confusões da vida. Músicos, cineastas, desenhadores ou pessoas que diziam adeus na rua. É sempre muito ingrato destacar algumas, mas vou fazê-lo. Houve um músico que, de facto, mudou a minha forma de pensar em música - não é tão conhecido como devia ser - chama-se João Moreira e toca trompete. É um tipo muito generoso, e foi-me ensinando várias formas de ouvir e de entender melhor a música: fez-me gostar mais de tocar, talvez por nunca me julgar - fazia-me sentir bem com o pouco que sabia tocar e sempre me fez sentir seu par, apesar de saber infinitamente mais do que eu.
Houve também um grupo de pessoas que deram origem a um projecto musical chamado ”Deixem o Pimba em Paz”. De uma insólita premissa musical surgiu um grupo de amigos muito especial. Cada concerto era mais do que um concerto, e com eles aprendi a gostar de estar num palco outra vez.
Filipe Melo, Músico|Realizador de cinema|Autor BD



António Henrique Godinho Conde. Já passaram 30 anos e ainda sei o nome de cor . 
O professor Conde, que me ensinou a amar o teatro, que o mundo é feito de histórias, bons textos e palavras que nos fazem viajar. Que me ensinou quem era o Brecht, tinha eu 11 anos. 
Um dos culpados por eu fazer aquilo que faço.
Isabel Abreu, Actriz




Há uma frase profética que diz que as coisas que não nos acontecem, são tão importantes como as coisas que nos acontecem. 
Podia dourar a pílula e dizer que foi o meu avô, o homem que me levou ao altar, mas quando me perguntam acerca da pessoa que mais me influenciou, tenho que falar sobre o meu pai. E foi na sua ausência voluntária e muitas vezes dolorosa que me fiz pessoa. Foi quase tudo o que ele não foi, que fez de mim tudo o que sou. Foi essa cadeira vazia que fez da minha mãe uma poltrona. Foi por ele não ter querido existir que o meu avô se fez pai pela segunda vez. Foi nesse espaço por preencher que se fez oxigénio, dor, revolta e depois carácter. 
É difícil entender que a não existência de uma pessoa seja tão brutal como a sua permanência. Chega a ser quase injusto para quem permanece. Mas nós somos tanto de permanência, como de intermitência. Sou uma pessoa feliz, de rancor nem verbo, nem memória. 
De quem não está não reza a história. Mas quando crescemos damo-nos conta que a vida não é, nem nunca foi, uma narrativa cronológica linear, que corre sem guião, que não tem plano de cena ou personagens definidas. E quando as há, elas podem bem revoltar-se: A árvore que quer ser duque, o pano quer ser cenário, a princesa que quer ser espadachim, o pai que não quer ser pai. 
Há medida que o tempo vai encorpando a nossa existência vamos discernindo a importância que a ausência teve, as notas onde se entornou, os acórdãos que influenciou, as decisões que empurrou consigo. 
Mentiria se não dissesse, que a pessoa que mais me influenciou foi a que não se dando a conhecer, me levou à orfandade de mim. E que foi esse vazio, que fez com que outros se enchessem de coragem de ser. Enriquecendo os seus papéis, duplicando as suas funções, majorando a sua importância. 
Não sou maluca para lhe agradecer a ausência, mas já sou crescida que chegue para lhe tirar proveito. Pai.
Isabel Saldanha, Fotógrafa





Tenho duas referências na minha vida que por razões diferentes não conseguiram realizar o seu sonho de viver da música como queriam. 
A minha mãe, professora de piano e cantora. Ela tinha as aulas do 5.º ano de conservatório comigo na barriga, e mal nasci ela tocava órgão na igreja com uma mão e com a outra embalava o carrinho onde eu dormia. Sempre foi a minha referência porque para ela a música era um meio de transmitir sensações boas as pessoas, e nisso dedica todo o seu esforço. Ainda hoje me emociono quando toca ou canta. 
A minha 2.ª referência é o meu tio Jordi. Músico de talento incrível, pianista , compositor, produtor, maestro e cantor. Devido à doença maldita, chamada esclerose múltipla, teve de deixar esse sonho. Mas continua a fazer coisas de forma que só um génio consegue com as limitações tremendas que lhe tem. Sinto-me a seguir o sonho deles! A responsabilidade de utilizar a herança que eles me deixaram no sangue. 
Cada vez que subo a um palco lembro-me deles e penso: por vocês os dois vou dar o meu melhor! Sem duvida, minhas maiores referências que até hoje continuam a dar-me a força que preciso em cada momento! Apesar de estarem longe, conto-lhes tudo o que faço, e às vezes entre lágrimas e sorrisos eles se sentem orgulhosos. E para mim isso é o principal na minha carreira, que eles estejam orgulhosos e nunca os defraudar!

Jaume Pradas, Músico




Há pessoas que cruzam as nossas vidas e deixam marcas indeléveis, alimento para horas de maior solidão. Mesmo que já não estejam connosco, acordamos palavras que parecem continuar a indicar-nos o caminho, a fazer-nos sorrir. E que, por vezes, só fazem sentido depois, muito depois de terem sido ditas. 

Conheci o Alberto num café, eu de mão dada com o meu pai, criança ainda. Aquele rapaz magro, de brincos nas orelhas, dedos longos e olhos gigantes como faróis tinha algo diferente de todas as outras pessoas que havia conhecido. Esta imagem que tenho dele é muito forte e curiosa, estranha até. Tenho a sensação – ainda – de estar dentro de uma bolha e escutar o tom grave da sua voz, uma gargalhada imensa que invadia a sala, e que só ele estava ali, ele e o meu pai. Dois homens magros num lugar cheio de gente, mas onde só eles existiam. Da minha perspectiva de criança, pareciam-me gigantes e fora, tão fora daquele mundo. 
Não sabia que mais tarde se tornaria um dos meus amigos mais íntimos e viéssemos a trabalhar na mesma equipa. Tornou-se uma das pessoas mais importantes na minha vida, fazendo parte da minha estrutura como ser humano, inextinguível da minha história, do meu caminho. 
Um dos meus mestres, como costumo dizer. Ensinou-me a escutar, a entender a minha sensibilidade e a usá-la, a não ter medo. A aceitar a fragilidade e fazer dela uma força, um motor. Educou-me a não fechar o olhar e a ver as coisas de tantas perspectivas, ampliando o meu mundo. Trouxe-me os poetas, os livros, o cinema, a fotografia. 
Era extremamente rigoroso. No trabalho, mandava-me repetir tudo inúmeras vezes, obrigando-me a uma maior observação dos detalhes, sem me dizer os passos a dar. A exigência de rigor, de repetição, de não desistir, de confiar em mim própria e me superar são, talvez, dos maiores ensinamentos que me deixou e me pautam até hoje. 
Paralelamente, o Alberto fazia parte do meu círculo mais íntimo de amigos. Festejámos a vida, tanto, tanto. Havia sempre razão para celebrar, dançar horas infinitas até nascer a luz lá fora, nas ruas desertas, e seguirmos juntos para casa, fazendo o caminho do mar, recomeçando, sempre. 
Para muitos, ele é o poeta. Al Berto. Para mim é o meu Alberto. 
“No corredor de espelhos sem tempo…deixo-te o sonho”, escreveu. 
Herdei dele a crença profunda na nossa capacidade de resistência, de persistir. Permanecem em mim tantas das suas palavras. Continuam a pautar o meu caminho, a comover-me e fazer-me sorrir. A memória é sobretudo um alimento para o coração. E um coração que se alimenta, vive.
Julieta Aurora Santos, Encenadora |Direcção artística e de criação do Teatro do Mar



Manoel de Oliveira foi para mim aquele que tudo me ensinou sobre cinema,ver cinema, estar no cinema, fazer cinema, aprender a ler cinema.
Foi uma vida. Iniciei este companheirismo desde a minha adolescência ate hoje. Através da palavra aprendi muito e abriu portas da curiosidade e da vontade de ir mais alem.
A minha família. Toda .Avós, pais, irmão, tios e primos. Um núcleo muito forte , muito unido com tempo para estar juntos. A sorte de existir um espaço que possibilitou que todos pudéssemos ouvir os mais velhos e como consequência brincar ,crescer , aprender sempre em liberdade.
Todos tínhamos ideias, todos podíamos desenhar, cantar, dançar, andar, nadar etc, sem nunca nos sentirmos menos ou mais dos que os restantes. Desde as artes ao desporto, passando pelos estudo dos livros, foram tempos marcantes cujas memorias me acompanham e servem de exemplo prático para a educação dos meus filhos nos dias que correm.



As influências aparecem de todo o lado. No que se vê, no que se ouve. 
Tenho dois irmãos mais velhos e a música que ouviam influenciou-me grandemente. O meu pai também foi uma figura importante desde sempre, é um homem muito activo e dedicado a tudo o que faz. Ele ouvia muita música clássica e tocou numa banda filarmónica vários instrumentos de sopro, o meu irmão Tó tocou numa banda nos anos 70 e 80. 
Em criança, ainda na primária, lembro-me de ter participado nuns workshops na escola dados pela Lena d'Água e outros músicos, é uma referência importante. Nessa altura eu ouvia repetidamente, centenas de vezes, durante horas e horas os vinís do Raúl Solnado, ele foi claramente uma grande influência para mim. 
Mais tarde tive nos meus amigos grandes influenciadores: o João Leitão e o Zé Vilão, o João San Payo que sempre foi uma grande referência, mas há muitos outros, o Gui, claro que o grande Sérgio Godinho, os meus grandes parceiros Sérgio Nascimento e João Cardoso. 
Sou influenciado por várias bandas, por discos específicos, essas influências ajudam-me no meu trabalho, inspiram-me. Tenho tido o privilégio de trabalhar com pessoas fantásticas e todas elas me influenciam sempre, se as enumera-se a todas ficava aqui umas largas horas a escrever; O Hélder e a Manuela, a Beatriz Batarda e o elenco da peça "Todo o mundo é um palco" com quem tive o privilégio de me cruzar, o Bruno Nogueira, o Filipe Melo. São muitos. E claro que a minha família, os meus filhos que além de me influenciarem diariamente motivam-me a ser e fazer sempre melhor.
Nuno Rafael, Músico



Nada levava a crer que um dia fosse trabalhar como ilustradora (ou ainda, numa editora). 
Um dos meus brinquedos preferidos era um laboratório de química experimental e adorava as aulas de química e de biologia. 
Talvez o meu pai, com a sua mania da leitura, me tenha influenciado de alguma forma. E ler, que de início era um martírio, passou a ser um momento de bel-prazer. Dos livros ilustrados (em japonês e português), passei a devorar os juvenis e num piscar de olhos estava a ler o 1984, que uma tia emprestou. 
Muitos livros depois, os livros ilustrados vieram à tona e hoje vivo rodeada deles.
Yara Kono, Ilustradora



A todos MUITO OBRIGADA pela generosidade, este projecto enriquece a cada publicação que é feita, assim, com tanto amor.
Alexandra
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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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