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Observatório de afectos


Os últimos tempos foram bem cheios, com projectos e iniciativas que me proporcionaram uma observação intensiva das relações entre familiares: adultos e crianças.
Desde a Casa Nheko no Organii Eco Market que tenho vindo a reunir estas observações e depois do final da segunda edição da Brincoteca para famílias (no âmbito do Mercado Amigo da Terra, promovido pela Câmara Municipal de Almada), até precisei de me afastar um bocado de tudo e mergulhar na minha própria família, de forma a chegar a algumas considerações sobre este percurso que foi um verdadeiro observatório de afectos.

Foi extraordinária a experiência da Brincoteca, já no ano passado o tinha sido mas desta vez conseguimos de uma forma ainda mais especial criar uma bolha onde o tempo parava e as pessoas se ligavam de forma verdadeira e simples.
E era mesmo simples a nossa proposta, simples mas também provocatória.

Brincoteca para famílias. Um casulo cheio de pequenas propostas para, em conjunto, usufruir; Jogos, livros, casinha, pistas de comboios, animais, restaurantes de faz de conta, caixas de canetas e lápis para desenhar a várias mãos, e tudo sem interrupções, sem distracções.
À entrada eram dadas as boas vindas e apresentadas as regras da casa. Nada complexo: Um espaço para estar e brincar em conjunto. Era entregue um saco onde deveriam ser deixados todos os pertences dos vários elementos da família. Todos. Sim, os telemóveis também... 
Em casa saco, uma sebenta para nos deixarem as suas considerações, uma placa onde deviam escrever o nome da família ou outro que os identificasse e um conta minutos que se revelou um objecto muito útil em dois tipos de situação: 
Se a família vinha com o tempo contado bastava marcar os minutos que queria, guardá-lo no bolso e entregar-se à brincadeira até o ouvir tocar, sem entretanto pensar mais nisso!
A outra utilidade era à saída, quando os mais pequenos insistiam em prolongar a sua estadia na bolha, aí propúnhamos que entrassem em negociação sobre os minutos que dispunham, fazer os miúdos assumir o compromisso de marcar no temporizador e, ao seu toque, aceitar que tinham mesmo de ir embora. E foi muito bom de ver como esta solução funcionava bem.
Foi fantástico ter tanta gente verdadeiramente ligada entre si. Feliz.




Há muitas verdades absolutas, frases feitas e considerações banais sobre este assunto das famílias. Eu observei muitíssimas nestes últimos eventos, fui tentando julgar o mínimo possível, evitei conclusões precipitadas e procurei centrar-me apenas no que observava. 
Depois olhei para a minha.
É sempre bom olharmos para dentro, neste caso, para dentro de casa. Para dentro de nós.

Do que observei fui registando algumas considerações.
Faço agora este exercício de as reler e partilhar aqui, para mim são pontos de partida para uma reflexão sobre a Vida em Família, a nossa e tantas outras.


Algumas notas soltas...

Quando brincam (a sério), os adultos e as crianças despem-se da capa que normalmente usam e deixam de ter idade.
As crianças, muitas vezes, assumem o comando da brincadeira e são quem dita as regras.
As crianças aprendem por imitação e é interessante vê-las reproduzir comportamentos dos crescidos que as rodeiam.
As crianças são curiosas por natureza. Têm muita opinião e querem muito expressá-la. 

Os adultos, por vezes, encaixam a presença das crianças nas suas vidas ocupadas como quem enfia uma garrafa de água numa mochila já cheia. 
Há muitos adultos cansados.

Alguns adultos preocupam-se muito com os outros adultos, mesmo que não os conheçam, retirando atenção às crianças que conhecem bem mas que ainda podiam conhecer melhor se tivessem menos preocupados com os outros adultos... os que não conhecem.

Algumas crianças não sabem como podem ser ouvidas e experimentam várias estratégias até conseguir atenção.
Alguns adultos também não conseguem fazer-se ouvir pelas crianças.
Existem muitos problemas de comunicação entre os adultos e as crianças.
As crianças que não estão habituadas a ouvir e a ser ouvidas em casa deixam de tentar que isso aconteça fora dela. É como se desistissem.

Há muitas crianças que já se habituaram a brincar sozinhas e há adultos que a sua melhor performance no acto de brincar, é observar e sorrir.
Algumas famílias revelam pouco hábito de brincar em conjunto, outras mostram bem como isso faz parte das suas vidas. Esta diferença é visível a olho nu.

Alguns adultos conseguem falar durante muito tempo com outros adultos sem ouvir as crianças que os chamam mas não admitem não ser ouvidos quando chamam as crianças.
Há adultos muito intolerantes e ríspidos. Há outros extremamente tolerantes e afectuosos.
Há miúdos que fazem dos graúdos gato sapato.
Há adultos que têm receio do comportamento dos mais pequenos e aguentam situações bastante desagradáveis.

As crianças fazem chantagem com os adultos.
Os adultos fazem chantagem com as crianças.
Não assisti a chantagem entre adultos ou entre crianças, mas também deve haver.

As gargalhadas - de crianças ou de adultos - têm um efeito imediato nas pessoas em volta. Fazem todos sorrir.
Há abraços que emocionam quem os vê.

A maior parte das crianças prefere brincar com os seus adultos mesmo quando tem outras crianças por perto.
Há adultos que policiam as brincadeiras das crianças e intervêm de forma autoritária de cada vez que não concordam a 100% com as suas opções. Estes adultos, muitas vezes, têm opiniões muito firmes em relação a coisas simples como a decoração da casa das bonecas ou o que se pode ou não usar quando se faz uma sopa mesmo de faz de conta.

Ainda há muita gente a achar que as cozinhas são para as meninas e os carrinhos para os meninos. 
Raramente vi uma criança a rectificar um desenho de um adulto mas observei muitas vezes o contrário.

Algumas crianças não têm como hábito arrumar o que desarrumam. Alguns adultos também.
Há quem use de forma abusiva o que não lhes pertence e tenha pouco respeito pelos objectos.
Alguns adultos optam por arrumar o que as crianças desarrumam, reclamando com as mesmas mas não permitindo que estas o façam por demorarem mais tempo.
O tempo é muito importante para os adultos.

Há adultos e crianças que gostam de ler, em silêncio, lado a lado e partilham de uma forma muito bonita um mesmo sorriso cúmplice.

Algumas crianças têm muito mau perder.
Existem adultos que deixam as crianças ganhar.
Muita gente faz batota.
Há adultos que escondem o telemóvel no bolso quando acham que ninguém está a ver.

Os bebés adoram ver as crianças mais crescidas a brincar, os adultos adoram ver os bebés a ver as crianças mais crescidas a brincar.

Muitos avós gostam de ver brincar mas só alguns se sentam a brincar.
Muitos irmãos disputam com agressividade a atenção dos pais.
Muitas crianças mais velhas assumem a responsabilidade pelo comportamento dos mais novos perdendo assim a própria disponibilidade para brincar.

Um espaço organizado, bonito e pouco cheio promove a concentração, o respeito e o ambiente tranquilo.
Desarrumação gera desarrumação, da mesma forma que gentileza gera gentileza.
A simpatia é sempre um bom cartão de visita.



Promover um espaço como esta Brincoteca para famílias, assistir a tantos momentos bonitos, ver brincar e testemunhar tanta felicidade faz-me imensamente feliz.
Terminei com a certeza reforçada de que uma das coisas mais importantes na Vida em família é a partilha de tempo, é a atenção direccionada, é o foco uns nos outros e por isso decidi que iria também eu reforçar estes momentos sempre que possível e que esse seria um dos meus objectivos para cada dia que passa.
Tem sido assim.

Desejamos a todos uma excelente entrada em 2018.





Fotografias Nuno Fontinha

O meu enorme agradecimento à Câmara Municipal de Almada pela confiança e por acreditarem, pelo segundo ano consecutivo, que a Brincoteca para Famílias é um projecto merecedor de integrar o Mercado de Natal Amigo da Terra. Almada é um local muito especial e isso deve-se em grande parte a uma actuação do município sempre focada nas pessoas e na sua valorização. Obrigada.
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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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