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Marcas que ficam para sempre


Há vivências que nos ficam cravadas na pele.
Experiências que nos transformam, que deixam marcas, que nos vão acompanhar para sempre e fazer parte do que somos.
São momentos que nos alteram a percepção da vida, que nos despertam para algo que até então estava adormecido, que nos acendem luzes interiores que nos vão guiar daí para a frente.
As viagens, quando vividas de certa forma, podem ter este efeito.
Viajar com crianças é, na minha opinião, uma oportunidade de ver, ouvir, sentir e experienciar tudo, como se fosse a primeira vez. Porque na verdade, é sempre uma primeira vez.




Depois de uns dias muito intensos, não só de trabalho como de contacto com muitas pessoas na nossa passagem pelo Organii Eco Market, fomos fazer umas pequenas férias na ilha Terceira, nos Açores.
Esta ilha é de uma beleza natural incrível, a natureza domina grande parte do espaço e nós sentimo-nos bem pequeninos face à sua imponência.
Estivemos cinco dias e optámos por passar grande parte do tempo nas zonas mais selvagens e menos intervencionadas pelo Homem. 
Passámos muitas horas e quilómetros sem nos cruzar com vivalma.

Viajar assim com uma criança de quatro anos pode parecer difícil, mas fomos surpreendidos pela capacidade demonstrada pelo nosso mini rapaz de apreciar a paisagem e respeitar o silêncio que a natureza, de forma subtil, nos impunha.
O tempo tem uma dimensão diferente neste local, o ar entra em nós de uma forma tão intensa que nos faz sentir cada inspiração. As pessoas olham-nos nos olhos e dão-nos que têm em si. A vida é diferente aqui. É simples, sem camadas.
Assistimos ao nascimento de um cabrito na beira de uma estrada.
Conhecemos um pastor que nem tinha 20 anos mas cujo olhar tinha a força de uma vida inteira.
Vimos um bosque onde a noite vivia durante o dia.
Andámos às voltas na ilha, a perseguir o sol.
Recebemos de presente o mais bonito arco-íris de sempre.


Por vezes, duvidamos das crianças em coisas que somos nós próprios que já não estamos aptos a fazer, e uma delas é esta capacidade de parar, escutar e sentir de forma tão activa e disponível.
Nesta viagem sentimos que nada era mais natural para o BoNheko, como se esta realidade fosse habitual na sua vida. Era como se ali vivesse, como quem está a compreender tanto mais que nós.
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As crianças têm uma curiosidade honesta e esse motor leva-as pelo caminho certo, parece-me que apenas têm de ser ajudadas a perceber o contexto em que se encontram para depois seguirem livres e assertivas.

Uma viagem, tal como qualquer outra experiência pode ser vivida de várias formas. 
Nós, nestes dias, resolvemos desacelerar, fomo-nos esvaziando de expectativas,  relacionamo-nos com o que nos rodeava criando uma ligação muito forte com cada momento vivido e acabámos marcados na pele, com tatuagens feitas de memórias que jamais nos vão abandonar.



Quando partilhámos esta experiência com as manas crescidas, que não nos puderam acompanhar desta vez, elas questionaram a durabilidade destas mesmas marcas. 
Trouxeram para a mesa a discussão d'o que é que afinal nos fica assim tão cravado na pele? 
Há tantas coisas que elas viveram e já nem se lembram... ou será que não é bem assim?

Começamos então uma conversa muito interessante onde fomos focando alguns marcos que consideramos importantes e checando a sua presença consciente na memória das três. 
Recuámos no tempo e recordámos, não só viagens feitas, mas experiências significativas, maior parte delas relacionadas com a arte e linguagens criativas.

As manas passaram grande parte da sua infância atrás de palcos, fossem eles dos concertos do pai ou dos espectáculos de dança e teatro promovidos por mim, a mãe, no Centro Cultural de Cascais.
Participaram em inúmeros ateliers, workshops e percursos/visitas a exposições, tocaram, pintaram, dançaram, isto durante anos e de uma forma lúdica, em experiências cujo único objectivo era dar-lhes prazer e alimentar-lhes a alma.
Nesta conversa questionámos o que é que afinal ficou?
E a conclusão é delas: Ficou muito. Ficou lá tudo!
Nenhuma seria o que é hoje sem estas experiências. 
A forma como olham a vida, cada uma à sua maneira, é resultado directo do que viveram e da forma como viveram.
O que as marcou foi o que sentiram, a forma como se emocionaram, o que viram e adoraram, o que detestaram, tudo o que viveram e tudo ao que não foram indiferentes.

Dar significado à vida é qualquer coisa que se aprende desde cedo.
Aprender a sentir, a valorizar e atribuir significado às vivências, é um caminho lento e muitas vezes tão discreto que, levianamente, num primeiro olhar, até podemos achar que não nos marcou, que já nem nos lembramos. 
Mas depois, se olharmos com o tempo necessário para escutar, se repararmos como a atenção certa, conseguimos ouvir cada marca deixada no nosso corpo: Por dentro, arrumada no sítio certo. 
Aí, paramos e re-paramos em nós.
São marcas que ficam para sempre.

Fotografias Nuno Fontinha / Produção Nheko / Colaboração: Cherrypapaya & InKBlack Tattoos



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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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