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Marta Nabais na Semana do Aleitamento Materno.


Em Portugal, de 26 de Setembro a 6 de Outubro, estamos a viver a Semana do Aleitamento Materno*, neste contexto trazemos uma entrevista com a Marta Nabais uma designer de formação que, com o nascimento do seu primeiro filho criou o OVO, um local onde, de início, partilhava a experiência fascinante da maternidade e onde actualmente, entre outros pontos de interesse, se destaca uma loja com uma cuidada selecção de artigos de puericultura.

Neste percurso teve formação na área da massagem infantil na Associação Portuguesa de Massagem Infantil, de Doula  e consultoria em babywearing.
Sempre inspirada pela experiência real da maternidade, Marta cria, com o nascimento do segundo filho, o AMAmenta!, um grupo de apoio à amamentação em Almada, local onde reside.

A sua simpatia e capacidade empática, foco na relação e interesse genuíno pelo outro, fazem de Marta um elemento chave para o percurso inicial de muitas recém-mães tal como uma consultora muito valiosa para os assuntos ligados à amamentação.


Fotografias Vitorino Coragem

A comemoração desta *Semana do Aleitamento Materno tem como objectivos: Informar as pessoas sobre as novas metas de Desenvolvimento Sustentável e como elas se relacionam com a amamentação e a alimentação complementar.
Ancorar firmemente a amamentação como um componente-chave do desenvolvimento sustentável. Dinamizar uma variedade de acções sobre a amamentação e alimentação complementar saudável. Envolver e colaborar com uma ampla gama de actores, em torno da promoção, protecção e apoio ao aleitamento materno.
Em Agosto assinalou-se a Semana Mundial da Amamentação e, nessa altura a Marta lançou uma campanha de sensibilização e divulgação composta por fotografias provocatórias que interligam a amamentação com outros assuntos bem actuais e controversos.
É um prazer tê-la connosco.


Nheko: Como é que, quem te conhece bem, te descreve? 
Marta: Pergunta difícil... preferia que fosse esse alguém a responder por mim. 
Se começar pelos meus defeitos defino-me como uma pessoa um pouco impaciente e insegura. Quanto a qualidades, não sei bem como explicar, mas coloco-me com facilidade no lugar do outro,  sou boa a analisar a realidade e tenho a particularidade de conseguir a arranjar emprego para os meus amigos. 
Depois, embora não consiga todos os dias, acho que sou, na sua maioria uma pessoa bem disposta. 

Nheko: Nasceste para ser mãe ou foi tudo uma descoberta surpreendente? 
Marta: Sabia que queria ter uma família, não pensava muito nisso de SER mãe... depois chegou a altura em que senti que era isso que faltava na minha vida, na nossa vida. A maternidade transformou-me, sinto que me superei enquanto mulher. 

Nheko: Dois filhos, duas experiências absolutamente distintas? 
Marta: Sem dúvida. O primeiro vai ter sempre essa magia. A descoberta, a culpa, o desespero, a dúvida, a contemplação... ainda hoje olho para ele e suspiro. Foi tudo muito forte! 
Depois veio ela fazer magia de novo. A doçura, a descontracção, a surpresa. 
Tanto eu como o pai somos filhos únicos e ambos sentimos que um irmão é o melhor presente que se pode dar a um filho. 

Nheko: Em miúda não viveste rodeada por bebés e mãe que amamentavam, qual foi a razão por criares esta disponibilidade e sensibilidade face à amamentação? 
Marta: Simples, senti na pele a solidão e a falta de apoio no pós-parto. Apesar de a minha mãe me ter amamentado durante alguns meses (poucos), ela não sabia como me ajudar. 
Nos anos 80 viveu-se a cultura do leite em pó. O que era dito às mulheres é que o leite artificial era mais forte e deixava os bebés nutricionalmente mais completos. 
Hoje sabe-se que isto é uma tremenda mentira mas ainda encontramos quem ouse preconizar esta mensagem com a célebre frase: o teu leite é fraco, ele tem fome, não vês?? 
A amamentação é algo natural, mas por vezes não surge naturalmente, não se pode contar só com o instinto! Existem começos difíceis e outros que nem damos por eles. 
E se havia coisa que eu queria muito era amamentar. Nunca coloquei a hipótese de ser de outra maneira. E esse foi o primeiro choque com o meu bebé real. E talvez a primeira vez em que me superei. Eu nunca tinha sido submetida a tamanho desafio. Foi muito duro, mas conseguimos. Com várias ajudas importantes, profissional, do pai dos meus filhos e também com muita persistência minha; O Gaspar mamou até aos 3 anos. 


Nheko: O projecto OVO surgiu quando o teu filho mais crescido nasceu, qual era o objectivo e o que é que mudou entretanto? 
Marta: O Ovo surgiu como resposta à transformação que estava a acontecer na minha vida. 
Era mãe, designer, mulher, profissional... já o disse, a maternidade transformou-me, as prioridades alteraram-se e o blog surgiu para tentar criar conteúdos/respostas para esta minha nova condição - ser mãe. Unir mulheres e famílias em torno da maternidade. 
Depois o bichinho foi crescendo e a vontade de mudar de vida e principalmente estar mais perto dos meus filhos foi aumentando. Quando soube novamente que estava grávida disse para comigo: é agora! e pronto, comecei a trabalhar na ideia de transformar o Ovo numa ideia de negócio. 

Nheko: És designer de formação, como foi o teu percurso profissional e quando é que percebeste que esse trabalho já não te preenchia? 
Marta: O Design foi um acaso na minha vida, nunca quis ser designer... (risos) como não entrei em artes plásticas nas Caldas da Rainha que era a minha escolha, arrisquei para não ficar um ano parada... gostei e fiquei! 
Depois do curso ainda fui para Itália, mas aquilo que era para ser um estágio foi antes uma grande lição de vida. Trabalhei sempre em pequenas agências/ateliers, foi sempre onde pensei que me iria sentir melhor. Muitos designers trabalham em condições péssimas e depois de ser mãe a situação agravou-se. 
Sentia uma pressão enorme para não falhar, para não desiludir... uma frustração enorme por não estar com o meu filho. Regressei ao trabalho ele tinha 5 meses e meio. Custou-me horrores. Foi neste sentimento crescente de insatisfação que sonhava um dia sair. Foram 10 anos a trabalhar para a causa.

Nheko: Arriscar um projecto teu foi então uma necessidade, mais do que uma oportunidade? 
Marta: As duas coisas. Quando o Gaspar nasceu, fiz algumas formações e o interesse por temas como a amamentação, parto natural, babywearing, foram crescendo consoante eu experimentava/vivia na primeira pessoa. 
Em vez de tirar formações relacionadas com a minha área, e apostar nessa minha faceta eu dava por mim a pensar e estudar temas relacionado com a maternidade. 
Fui construindo esta ideia de que este podia ser um caminho. 
Entretanto foi-me apresentado um acordo para eu sair e eu vim-me embora. 


Nheko: Como é um dia normal da tua vida?
Marta: Dia sim dia não levo o Gaspar a pé para a escola, adoro. Algumas vezes paramos no café, pãozinho fresco com manteiga para ele e café cheio para mim. Um mimo bom.
Quando não vamos a pé, levo os dois de carro e sigo com a Carolina para casa dos avós. 
Levo computador para optimizar o tempo que perderia em viagens e trabalho por lá. 
Trabalhar em casa é para mim muito saturante, mas admito que é muito cómodo. 
Este ano prometi a mim mesma que conseguiria ir duas vezes por semana ao ginásio durante a hora de almoço, mas quando vou fico quase sem conseguir andar no dia seguinte e isso têm-me retirado a motivação... 
À tarde, a recolha da miudagem fica a meu cargo. 
Nunca vou buscar o Gaspar depois das 17h30. E quando chego perto dessa hora fico com azia, custa-me imenso.
Depois de chegarmos a casa é o período mais difícil: Aguentar as feras até o pai regressar.
Ele chega tarde e normalmente nunca jantamos juntos. 
A altura dos banhos e jantar para mim é a mais stressante, estou sempre sozinha. Esforço-me para não gritar, reclamar, protestar, mas é um é um desafio diário! 
Jantamos e depois é: xixi, cocó, lavar os dentes e cama
Faço muitas vezes o turno da noite, vou preparar encomendas e responder e-mails. 

Nheko: Quais as maiores dificuldades com que te depararas hoje em dia na conciliação entre a vida familiar e profissional? 
Marta:  Gestão de tempo! Precisava de mais 24h! Tenho de ser muito realista nos meus objectivos caso contrário sou abafada pelos sentimentos de frustração... o cansaço da rotina, e muito importante... o não ter tempo para mim.

Nheko: Que medidas achas fundamentais existirem/serem criadas para que as mães se sintam mais apoiadas nesta jornada complexa que é a maternidade? 
Marta: Inicialmente haver uma licença de maternidade de pelo menos 1 ano paga a 100%. Possibilidade de flexibilidade e/ou redução de horário laboral no regresso ao trabalho, se assim a mãe o desejar. Igualdade salarial em relação aos homens. Se a mãe tiver de regressar ao trabalho antes da introdução da alimentação complementar (6 meses) criar condições para que mãe e filho não fiquem muito longe um do outro. Era importante criar condições para a proximidade em vez de apostar no alargamento das respostas dadas pelas escolas e creches.


Nheko: A campanha que recentemente criaste de incentivo à amamentação tem um forte sentido de humor, porquê esta opção? 
Marta: Não foi bem uma opção, foi assim que me veio à cabeça e foi assim que a concretizei. Mas o humor faz parte de mim, é uma forma provocadora de fazer pensar. 

Nheko: O que é que te move e o que procuras alcançar num futuro próximo? 
Marta: Move-me a procura da qualidade, de consistência, de foco e a criatividade. 
Gostava de conseguir, num futuro próximo, alguma estabilidade financeira, arranjar um ninho para o Ovo, e conseguir jantar em família mais vezes.

Fotografias Patrícia Ferreira p/ OVO


Podem acompanhar o trabalho da Marta Nabais através do Site, Facebook ou Instagram.
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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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