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Escola da Floresta - Forest School em Portugal


Promoção da interacção e espírito de inter-ajuda e de grupo; melhoria da relação com o outro; auto-avaliação das próprias capacidades e valorização da auto-confiança; uso e desenvolvimento da criatividade; tomada de consciência da relação homem-natureza; respeito pelos outros e pelo meio ambiente; aumento da resistência física e do sistema imunitário; maior alegria e bem estar.
Estas são algumas das consequências directas que a Escola da Floresta tem em quem a frequenta.

Numa altura em que é urgente reaproximarmo-nos da natureza e devolver às nossas crianças uma forma de vida mais harmoniosa e em contacto com o mundo que as rodeia, surge em Portugal a Associação Escola da Floresta - Forest School Portugal, uma escola que é, acima de tudo, uma forma de estar e uma filosofia de vida.
Este movimento, que data dos anos 50 e se tem vindo a desenvolver nos Estados Unidos e na Europa, chega agora a Portugal onde está a acontecer a primeira formação certificada de assistentes e líderes Forest School.
Genérica e resumidamente podemos dizer que a Forest School é um programa de educação ao ar livre, onde as crianças (e adultos) têm um contacto directo com o exterior e as aprendizagens são feitas num contexto de bosque ou floresta. Aprendem através de experiências práticas e interações sociais com seus pares, juntamente com a orientação de um líder, cuidadosamente formado e acompanhado.

Joana Barroso e a Mónica Franco fazem parte dos orgãos sociais da Associação, são duas das formandas deste primeiro grupo português e contaram-nos o que andam a fazer e o que podemos esperar deste movimento no nosso pais.



Nheko: Qual é a vossa formação e de como é que se cruzaram com esta Associação e movimento?
Joana: Vivi em França entre os 7 e os 9 anos. No ensino público Francês, às quartas-feiras todas as escolas fecham e as crianças e jovens, normalmente, vão para centros de tempos livres onde há uma equipa de monitores e espaços ligados às artes em geral, o desporto e a natureza. 
No centro de tempos livres que eu frequentava havia uma grande floresta onde construíamos abrigos, casas com ramos, raízes, musgo, pedras… transportávamo-nos para uma vida no bosque e eu gostava muito disso!
Mais tarde licenciei-me em Engenharia do Ambiente, sempre mais centrada na vertente da educação e formação Ambiental, tive várias experiências de ensino mais e menos formal, sempre gostei das ciências e experiências. Em paralelo formei-me em Animação Sócio Cultural, e durante muitos anos dinamizei campos de férias nacionais e internacionais, e fui complementando a minha formação e acção nas áreas da expressão plástica, dramática e dança. 
Desde 2006 que o meu caminho profissional se firma na relação com escolas, instituições e famílias, na relação com adultos, jovens, crianças e bebés, explorando de forma lúdica e criativa os territórios da Arte/Educação e agora cada vez mais a aprofundar os territórios da Natureza e da Arte – como meios privilegiados para o desenvolvimento pleno de cada um de nós. 
Já andava fisgada nesta formação de há uns 3 anos para cá, e estive quase para viajar até ao Reino Unido para frequentar um curso certificado. Felizmente que tudo se encaixou e reuniu-se um belo grupo para se avançar com o curso em Portugal, mal soube nem hesitei, porque tenho cada vez mais presente qual o foco do meu caminho.

Mónica: Sou formada em Relações Públicas e Publicidade área onde trabalhei durante 6 anos. Em 2000 fiz uma missão humanitária em Moçambique com a APOIAR na qual dei aulas numa escola primária e regressei com a decisão de sair da publicidade e trabalhar com crianças. 
Investi num curso de educação Waldorf que me relembrou a importância da natureza e dos contos de fadas. Fui uma das fundadoras do grupo Fadas e Fios – teatro amador de marionetas, que ao fim de dez anos me fez levantar voo e sair das salas de teatro para a floresta criando em 2010 a Associação Movimento Bloom- associação ambiental, sem fins lucrativos, que tem como objectivo re-ligar as crianças à Natureza. 
Enquanto oradora convidada na conferência “Children and Nature network International conference” em Austin, Texas em 2015, tomei conhecimento da filosofia Forest School e decidi, sem dúvida, que esse seria um caminho de crescimento e uma nova oferta do Movimento Bloom que já desenvolvia programas para escolas. Foi assim que decidi investir e trilhar este novo caminho!


Nheko: De momento ambas frequentam a primeira formação Forest School que está a ser dada em Portugal, esta é uma formação muito exigente?
Joana/Mónica: A formação é dada pelo formador Patrick Harrison da Greenbow UK e tem uma metodologia teórico-prática. É qualificada pela Forest School Association , entidade responsável pela promoção, regulamentação e formação a nível das Forest Schools no Reino Unido. Esta associação estabelece critérios para a certificação de profissionais que desenvolvam a sua actividade no âmbito das Forest Schools. Assim a nossa formação contempla actividades que seguem um critério que confere a certificação de Assistente ou Líder Forest School
O Curso tem uma grande vertente prática desenvolvida em contexto de floresta, numa primeira fase o grupo de participantes está com o formador a vivenciar sessões práticas nas quais são utilizadas diversas dinâmicas e jogos fundamentais no processo de aprendizagem, desta forma aprendemos a aplicar técnicas de utilização e construção de ferramentas, introdução à utilização de lonas e nós, construção de abrigos e objectos com materiais naturais, introdução à realização de fogo, avaliação de risco e impacto ambiental, processos de avaliação e monitorização utilizando uma metodologia enquadrada na Forest School
A formação implica a realização de 6 sessões de Forest School num local em ambiente natural (mata ou floresta) com crianças, sendo cada participante responsável pela sua organização e implementação. Cada pessoa deverá realizar também um portefólio que será posteriormente avaliado e certificado pelas entidades competentes no Reino Unido.


Nheko: A questão da segurança é fundamental, também vos é exigida uma formação em primeiros socorros, isso dá-vos a segurança necessária para enfrentar a Floresta com um bando de miúdos? Quais são os vossos principais cuidados e receios? 
Joana / Mónica: Dá-nos segurança e é um requisito obrigatório da formação. Uma certificação em primeiros socorros ou SBV (Suporte básico de vida) e também um curso de Socorrismo em Locais remotos para quem pretende ser Líder da Floresta.
Esta formação dá-nos acima de tudo consciência do que são pequenos e grandes perigos e como actuar. O que trazer num estojo de primeiros socorros, acções preventivas quando vamos para o mato com um grupo de crianças/jovens, quais as principais situações que ocorrem com crianças nestes locais remotos. Assim como prevenir que coisas simples se tornem complicadas. 
Os nossos principais cuidados são realizar um reconhecimento prévio do local onde vamos fazer as sessões avaliando os potenciais riscos e os níveis de implicação que podem ter para as crianças. 
Ao estarmos conscientes do terreno onde actuamos - caracterização da fauna, flora, limites espaciais, conversa com a comunidade ou proprietário do terreno etc - preparamos as nossas sessões de acordo com isso. 
Isto é uma ferramenta essencial para nos prepararmos e organizarmos e excelente também para avaliarmos os benefícios, pois os riscos implicam, na sua grande maioria, grandes benefícios para as criança, onde há riscos físicos, há sempre uma aprendizagem ao nível da coordenação, balanço, equilíbrio. 
Ao avaliarmos o local e os riscos sabemos sempre o que estamos a proporcionar às crianças em termos de oportunidades de desenvolvimento.
Claro que iremos sempre ter em conta os níveis de risco na escolha do local, mas também sabemos que um caminho que tenha uma pequena ponte sobre um riacho, para chegar ao nosso local, é sempre mais estimulante para a criança. E aí avaliamos a segurança dessa ponte, tendo em conta também a época do ano, construção etc. 
Os receios prendem-se com o o facto de não podemos prever ou controlar tudo…mas talvez o nosso maior receio seja mesmo que os pais ou educadores não entendam a importância e benefícios deste contacto regular com a Natureza. 


Nheko: Os pais portugueses são na sua maioria bastante protectores, como conseguem que a comunidade aceite e entenda a necessidade que existe da criança correr riscos e de como isso é tão importante no seu crescimento? 
Sendo que este é um dos princípios basilares da Escola da Floresta, certo? 
Joana / Mónica:  Os riscos trazem sempre benefícios e nós olhamos para eles nessa perspectiva. 
A nossa formação é bastante exigente no sentido de entendermos, observarmos e registarmos os riscos possíveis, o seu grau (de baixo a elevado) e quais os benefícios associados a cada um. 
Esta é uma poderosa ferramenta de trabalho e de comunicação com os pais e toda a comunidade educativa. Depois, estes devem ser assumidos e partilhados de uma forma lúdica mas consciente, com o grupo de crianças, e até encontrar estratégias em conjunto de minimizar alguns. 
Por exemplo: se há um buraco grande no caminho que percorremos até ao nosso local, como podemos chamar a atenção para o mesmo? Sinalizar com pedras, folhas.. fazer desenhos indicativos com paus etc. 
É preciso ter sempre em conta a especificidade de cada criança – não tem a ver com a idade, a capacidade de correr mais ou menos riscos, mas sim com todo o seu desenvolvimento numa perspectiva global, também se já está habituada a brincar no meio natural, ou a lidar com ferramentas etc. 
Por isso é tão fundamental e basilar neste movimento, a longevidade do programa, para se ir passo a passo acompanhando as pequenas / grandes conquistas e introduzindo novos desafios. 
Os pais acabam por aceitar bastante bem e relaxar após as primeiras sessões pois é bastante visível o efeito que tem nas crianças. A alegria e brilho nos olhos com que relatam o dia, as curiosidades que gostam de partilhar seja pela aventura seja pela conquista. 
São visíveis os benefícios que tem em termos de auto estima e confiança na exploração do mundo com todos os riscos inerentes à própria vida. 


Nheko: Sentem que este tipo de movimento se dirige para uma elite de pais e famílias mais informados e sensibilizados que vive nas cidades (com o sentimento de falta na sua relação com o meio ambiente) ou é nas pequenas comunidades, fora das cidades, que encontram mais acolhimento? 
Joana / Mónica: Em Portugal, a grande maioria das pessoas ainda não tem a percepção das consequências da falta de contacto com o meio natural. Uma enorme percentagem das nossas crianças tem actividades organizadas, dando pouca margem a brincadeira livre e não estruturada, que sabemos serem grandes potenciadores da criatividade e imaginação. 
Estas actividades de carácter mais regular e permanente em contacto com a natureza, fazem ainda parte de uma necessidade de diversificar a participação dos filhos em actividades de vários estilos. Embora já exista uma grande explosão no nascimento de comunidades que procuram um estilo de vida mais sustentável e em harmonia com o meio natural onde as crianças crescem ao ar livre - e aí a consciência já é outra, mais desperta para outras pedagogias. 
O movimento Forest School tem potencial para ser acolhido nos dois tipos de ambiente, mais urbano ou mais rural. E é entusiasmante começarmos a ver pais e educadores em busca de um novo paradigma de aprendizagem. Já existem alguns projectos por aí a nascer!
É uma inspiração o nível dos programa de aprendizagem e educação no norte da Europa quando comparamos estatísticas de resultados de aprendizagem e sucessos académicos. Nestes países é dada grande importância ao contacto com a natureza, e é um exemplo de que o clima não é barreira ou impedimento!


Nheko: A Escola da Floresta pretende vir a ser, em Portugal, uma forma de trabalhar com as escolas e instituições ou directamente com as famílias e comunidades locais? 
Joana/Mónica: Um dos requisitos deste movimento, é que as sessões sejam espaçadas com uma semana, e durante um longo período de tempo ( que pode ir de seis meses a mais de um ano). Os líderes escolhem um local, e esse será preferencialmente sempre o mesmo durante as sessões, de forma a criar um vínculo das crianças e jovens com o território.
As parcerias podem - e no âmbito da nossa formação, já estão a ser feitas - com escolas e instituições, em programas de sessões semanais com cada turma, durante um período de tempo alargado e incluído no tempo lectivo. Outro modelo utilizado é o trabalho com projectos de reinserção social, por exemplo de jovens e adolescentes. Com público familiar, ao fim de semana, num registo de continuidade é outra possibilidade.


Nheko: Esta metodologia pode substituir a escola formal ou visa complementá-la? 
Joana/Mónica: É um complemento quando se fala do 1.º e 2.º ciclo apesar de qualquer líder da floresta saber que todas as áreas do currículo podem ser cobertas nas actividades Forest school
Em termos de pré-escolar é, sem duvida, uma oferta alternativa e que pode substituir os jardins de infância tradicionais.
Forest school é uma filosofia, não é um local. 


Nheko: Há um ditado Norueguês que diz Não há mau tempo, só há má roupa, sentem resistência e este tipo de atitude? 
Evita-se que os miúdos se sujem, se molhem, apanhem sol na cabeça, frio... esta atitude quase cultural pode condicionar a expansão da Escola da Floresta em Portugal? 
Joana/Mónica: É uma questão de percepção e também de hábitos. Podemos sempre lembrar-nos que há uns anos atrás, em Portugal, também só se vendiam e comiam gelados no Verão e isso mudou com um esforço de comunicação e marketing. 
Neste caso o trabalho a fazer passa também por comunicação, acima de tudo no esclarecimento e difusão dos benefícios do contacto regular com a Natureza, no dar também consciência aos pais e educadores acerca de estudos que alertam para as consequências graves que as crianças correm pela falta de vitamina N (natureza).
O Ser Humano é antes de mais um ser “natural”, dependemos da vida e da morte, de água potável, de ar para respirar, energia e nutrientes, homo in et intra Natura.
Claro que é importante desmistificar a questão de que andar à chuva constipa, de facto a roupa aqui faz a diferença! 


Nheko: Esta corrente vem contrariar a tendência vigente de vivermos isolados, fechados, num mundo virtual onde as relações são pouco verdadeiras e o contacto directo escasso. Qual a reacção das crianças às experiências que lhes propõem? Há resistência inicial, tipo primeiro estranha-se e depois entranha-se? E as professoras e educadoras? E os pais? 
Joana/Mónica: Depende um pouco das crianças e das idades…de facto quanto mais citadinas e mais crescidas mais se aplica esse conceito de primeiro estranha-se e depois entranha-se
É impressionante como algumas crianças tem um total desconhecimento, e por vezes medo, do mundo natural que as rodeia. Têm medo de bichos, medo de se sujar, medo de cair… a verdade é que ocorrem mais acidentes dentro de 4 paredes por falta de destreza motora do que em contexto de actividade regular na Natureza. 
De facto esta filosofia contraria o isolamento do mundo virtual em que tantas crianças vivem hoje em dia. Nós somos animais sociais e gostamos de falar de nós e do que fazemos. As nossas sessões pretendem que cada criança se desenhe, se expresse se descubra, cada um ao seu ritmo e respeitando a sua própria natureza. 
Há um contacto directo e experiencial interligando-nos com tudo o que nos rodeia. 
Para nós o maior desafio são os adultos, não as crianças… 


Nheko: Promoção da interacção e espírito de inter-ajuda e de grupo; melhoria da relação com o outro; auto-avaliação das próprias capacidades e valorização da auto-confiança; uso e desenvolvimento da criatividade; tomada de consciência da relação homem-natureza; respeito pelos outros e pelo meio ambiente; aumento da resistência física e do sistema imunitário; maior alegria e bem estar. Tudo isto são consequências directas da Escola da Floresta nos que a frequentam. Será esta a (uma das) resposta para tornar as novas gerações mais felizes e devolver alguma harmonia ao planeta, ou esta afirmação é demasiado ambiciosa? Esta é a escola do futuro? 
Joana/Mónica: Para mim sim! (Joana) Não há dúvida que, quando começas a estar mais tempo em contacto com o meio natural envolvente, há como que uma espécie de “reconexão”, a compreensão sobre ti próprio e sobre o mundo expande-se e clarifica-se, a paisagem exterior é um reflexo da tua paisagem interior, tudo pode ser simbólico e metafórico, mas também muito concreto e real, físico, químico, matemático.. tudo faz parte da vida. 
Quanto melhor compreendermos, convivermos e nos relacionarmos com o meio natural, melhor é a nossa compreensão, clarividência e acção sustentável sobre o mundo cultural. 
Ontem, face aos cinco terramotos com escalas elevadas em menos de 36 horas em vários pontos do Planeta, surgiu a pergunta: Será que a Terra Mãe nos está a querer dizer alguma coisa?  
Só quem não quer ouvir, ver e mudar.. Entrámos numa roda-viva alienada da origem, da essência, do alimento que ingerimos, da medicina que nos cura, do sistema natural que somos. 
E esta reconexão é basilar, essencial para recordar quem somos. 
Eu sinto que nos falta gratidão, reconhecimentos e uma educação viva e consciente. 

Nheko: Que projectos gostariam de ver desenvolvidos no âmbito da Associação com o objectivo de implementar consistentemente a Escola da Floresta em Portugal?
Joana/Mónica: Há ainda um grande caminho a percorrer e a Associação começa agora a dar os seus primeiros passos.
Em consonância com a abordagem pedagógica Forest School, a Associação pretende: 
- Promover a formação e certificação de Assistentes e Lideres da Floresta;
- Apoiar e validar a implementação e desenvolvimento de projectos nas áreas de educação, ensino e formação, em escolas e outras entidades que queiram implementar a abordagem Forest School
- Estabelecer parcerias, protocolos e redes de trabalho nacionais e internacionais com entidades públicas e privadas, singulares e colectivas; 
- Promover e realizar encontros, workshops, conferências, congressos, eventos que abordam temáticas tais como educação, ambiente, natureza;
- Promover e participar em iniciativas de defesa, preservação e conservação do ambiente; 
- Criar centros de estudo e investigação para o desenvolvimento de estudos científicos para o impacto da acção dos projectos da Associação;

Fotografias - Associação Escola da Floresta - Forest School Portugal

Para mais informações sigam a página de facebook da Associação Escola da Floresta - Forest School Portugal.
Existem também alguns vídeos disponíveis sobre Forest School, espreitem este.
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