/ 13.9.17 / No comments / , , ,

Carlota e Dengaz


A Carlota e o Dengaz têm duas filhas, a Caetana com quatro anos e a Noa com dois.
Ela é directora da Clínica Medicinas onde dá consultas de Medicina Chinesa e integra uma equipa de médicos e terapeutas, ele é músico, autor de grandes hits que enche Coliseus e nos põe a todos a cantar bem alto no carro.
Tanto a Medicina Chinesa como o Rap fazem deste casal uma dupla bem alternativa, mas na verdade, eles até levam uma vida normal.




Nheko: Como é que se conheceram, Carlota eras umas das fãs do Dengaz?
Dengaz: Nada disso, já nos conhecemos desde a altura de uma das primeiras bandas que eu tive, uma banda Regae, os InnaStereo.
Carlota: Sim... já sabia quem ele era, Cascais é minúsculo, mas não éramos exactamente amigos. Um dia, este Senhor cheio de lata, ligou-me a pedir um desconto para ir de férias para a pousada da minha mãe e depois de lá ir naturalmente ficámos um bocadinho mais próximos, mas ainda demorou muito tempo até sermos alguma coisa mais. Muuuuuito... só que uma vez que começámos a namorar, nunca mais nos largámos, nós damo-nos muito bem!


Nheko: Quando pensavam no futuro imaginavam-se assim? 
Dengaz: Eu sempre odiei rotinas, sempre as consegui subverter. Eu lembro-me de dizer ao meu pai que queria uma vida onde ao domingo eu não me sentisse angustiado com a chegada da segunda feira, e é essa vida que tenho. Somos uns privilegiados em muita coisa, trabalhamos muito para isso mas temos uma vida muito boa, fazemos o que gostamos, vivemos num sítio fantástico.
Carlota: Vamos ao mar quase todos os dias!



Nheko: Onde é que vão buscar as vossas referências na construção do vosso modelo como pais e família?
Carlota: Acho que isso não é uma coisa muito controlada. Vamos vivendo e tentando fazer o melhor, o melhor para nós, claro. As consultas ajudam-me muito, ou baralham... (risos) O facto de trabalhar com pessoas enriquece muito as minhas referências porque me dá várias formas possíveis de determinadas dinâmicas familiares e também os resultados clínicos disso. Eu fico hiper atenta aà forma como as coisas são sentidas pela Caetana e pela Noa.
Dengaz: Eu acho que estamos sempre a trazer referências de todo o lado, reproduzimos o que vivemos, falo por mim. 

Nheko: Ouves os teus pais nas tuas palavras?
Dengaz: Ainda não oiço mas é muito provável que isso aconteça. E acho que isso até acontece com coisas menos boas, é importante é ter consciência das coisas que não queremos reproduzir.
Todos os pais fazem o melhor que sabem, eu vou dar o meu melhor, um dia mais tarde cabe às minhas filhas olhar para isto e perceber o que devem ou não levar para as suas famílias, há sempre uma evolução, é um processo natural. Os pais não são os detentores da verdade absoluta, eu gosto quando encontro relacionamentos entre pais e filhos onde há espaço para o questionamento, onde há respeito pelas opiniões de cada um.
Também acontece haver uma alteração na forma como nos relacionamos com os nossos pais ao longo do tempo, os meus pais hoje são muito mais abertos comigo do que eram antes. Os netos também alteram muito esta relação.
Carlota: O Denga é filho único, a Caetana foi a primeira neta, temos vindo a construir um percurso em conjunto. Temos de nos ajudar, de nos educar uns aos outros, de nos adaptar e crescer juntos.
Eu sou uma mãe coruja, nunca deixei a Caetana em lado nenhum até ser ela a pedir, não gosto de separações não conseguia fazer isso com ela. Com a Noa já foi tudo diferente, mais tranquilo, com menos ansiedade também. Com o segundo filho é tudo muito diferente, mas ainda hoje deitei uma lagrimazinha ao deixar a Noa na escola.



Nheko: Quando nos tornamos mães conseguimos olhar e compreender as nossas mães de outra forma, há uma aproximação, isso também acontece com os pais? 
Dengaz: Talvez se ganhe uma maior noção de algumas coisas. Mas o que me acontece é, por exemplo, às vezes quando estou com as minhas filhas num momento muito bom, antes de as pôr a dormir e está tudo incrível, eu penso que elas vão crescer e não vão ter noção do tamanho do amor que sinto por elas, e penso nisso em relação aos meus pais, só ganhei esta consciência depois de ser pai, isto faz-me sentir mais próximo deles e do que eles sentem. 
Hoje filmamos imensa coisa e isso é óptimo para lhes irmos mostrando, para manter a memória viva. Sei que um dia elas vão adorar rever estes momentos. 
Carlota: Realmente quando olho para o teu Instagram estou a perder pontos... é só fotografias de momentos maravilhosos entre ti e as miúdas, na praia, na piscina, a andar de skate, de padel... e eu? eu também faço coisas giras com elas, um dia vão achar que o pai é que era o maior e eu vou dizer que era eu que estava a tirar as fotografias. (risos)


Nheko: As directrizes que seguem na educação das vossas filhas são pensadas e discutidas a dois?
Carlota: Eu sou muito intuitiva, o Denga deixa isso comigo, ele aceita e integra tudo com naturalidade, por exemplo, os partos foram na água, a vontade foi minha mas ele fez parte de tudo. É assim com a maioria das coisas, com o dormir connosco, com o colo, etc. Se está bem para mim, para ele também. Só há uma coisa... eu detesto que ele fale grosso com as meninas e quando o faz eu intrometo-te, o que ele detesta. Agora já não o faço, mas tenho de me segurar, naturalmente tenho aquela coisa instintiva de protecção das crias.



Nheko: Como pais, quais os vossos maiores medos ou angústias?
Dengaz: Eu penso que como pai deve ser muito difícil encontrar um equilíbrio entre o deixar viver o que têm de viver e saber proteger do que queremos evitar. Não sermos controlados pelo medo deve ser um grande desafio. Acredito que, na altura de fazerem os disparates, há coisas que contam e que vêm ao de cima como o bom relacionamento, a base e a estrutura da relação com os pais e isso faz toda a diferença. Assusta-me a adolescência. 
Eu tenho algum contacto e acompanho a malta mais nova através do twitter e fico assustado com a forma como os miúdos hoje em dia se tratam, a forma como se agridem gratuitamente. É muito diferente de quando eu tinha aquela idade. Há uma total banalização da agressividade mas também uma desresponsabilização. A par disto há também a ilusão do mundo virtual, nós sabemos que só se partilha o que quiser e que as vidas mostradas são apenas uma parte do que acontece, ninguém partilha cenas más que lhe acontecem. Isto leva os miúdos a achar que todos têm uma vida perfeita e a deles é uma merda. Eu tenho medo que estejamos a criar uma geração de deprimidos, estas coisas são perigosas na adolescência, acho que ainda não se avaliou bem as consequências que isto vai ter ou já está a ter na vida dos miúdos. Isto preocupa-me verdadeiramente.
Carlota: Eu acho que os mais novos vão contrariar isto tudo. Vai haver uma nova corrente de gente que nos vai trazer uma nova abordagem, uma maneira diferente de viver. 
Dengaz: Eu quero muito que tenhas razão. Também acho que a par disto tudo a internet veio trazer coisas maravilhosas, temos é de encontrar novos equilíbrios.



Nheko: No teu caso, a adolescência foi uma altura complicada? Os teus pais aceitaram com facilidade as tuas opções?
Dengaz: Foi complicada sim, os meus pais não aceitaram facilmente. Lembro-me de sair de casa para ir para o estúdio e a minha mãe me perguntar quando e que eu me deixava daquelas coisas, eu ficava profundamente chateado com isto, eu no fundo sabia que ia conseguir, pensava: Um dia vais ver...! Mas foi muito lixado até porque eu não tinha nenhum exemplo para apresentar, não havia cá ninguém a ganhar a vida a fazer Rap, só mais tarde o Boss AC, os Da Weasel, mas foi muito difícil fazê-los aceitar; Hoje são os meus maiores fãs e têm imenso orgulho em mim.
Carlota: Há outra coisa, que para os meus sogros foi muito importante e facilitou essa aceitação, que tem a ver com o facto de teres constituído família, teres uma casa, duas filhas, estar dentro do padrão em tudo o resto.
Ele ganha a vida de uma forma diferente da maioria mas és igual aos outros. Tens uma vida normal e estável, aceite socialmente.


Nheko: A vida de músico obriga-te a constantes ausências, como é que vocês vivem isso, é um problema ou uma mais valia para a vossa vida como casal e em família?
Dengaz: Assim de repente eu poderia dizer que é altamente e a Carlota dizia que é uma chatice mas na verdade não é assim tão preto no branco.
Carlota: Há sem dúvida dois prismas; Um é uma porcaria que me leva a não contar com ele durante todo o Verão, que não nos permite ir juntos a festas de amigos, casamentos, fins de semana fora, nada! Depois há o outro que, por consequência me fez desenvolver uma capacidade fantástica de fazer coisas sozinha, de reatar amizades, de fazer programas que a maioria das casadas deixou de fazer e é uma pena. 
Nós na verdade compensamos grandemente as ausências do Denga, vamos à praia com as miúdas a meio da semana, almoçamos juntos sempre, vamos ao mar os dois fazer padel surf, enfim... não nos podemos propriamente queixar mas eu sinto saudades e muitas vezes não me apetece nada que ele vá, sei que fico bem mas preferia que ele não fosse.
Dengaz: Estamos aqui a falar das ausências mas ainda bem que elas acontecem, pior era eu não ter concertos, não ter trabalho, isso é que dá cabo de um casamento num instante, dou graças por ter tantos espectáculos mas, há alturas em que não me apetece nada, às vezes falamos nisso na banda, estamos ali num hotel, longe de casa e dávamos tudo por estar deitados nos nossos sofás sem fazer rigorosamente NADA!
Carlota: Elas ainda são pequenas e eu muitas vezes sinto-me cansada, precisava que ele cá estivesse mas, ainda assim, há dias que me apetecia começar tudo de novo e ter mais um bebé.

Nheko: Há mais filhos no vosso projecto de vida?
Carlota: Por um lado sabe-me bem voltar a ter tempo, ter vida, mas sinto a falta de um rapaz... isto dos bebés é como um vicio.
Dengaz: Epá, não! Adoro as minhas princesas e estou muita bem assim. Se tiveres mais, fujo! (risos) 

Fotografias Pau Storch
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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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