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(des)Carga Mental


A Vida em família é o cerne da minha existência, é também o tema central deste projecto, que, não sendo um espelho da minha vida, espelha os meus princípios, preocupações e interesses.

Tal como em muitas casas, eu assumo uma grande parte da carga mental da nossa vida em família, vi há pouco tempo no facebook uma BD que ilustra bem este conceito, espreitem aqui.
Carga mental é o pensar sobre as coisas, é o gerir, levar o barco a bom porto...


Aliada às tarefas normais da casa que vou distribuindo pelos residentes mas que guardo a maioria para mim, há a missão de educar os filhos e eu vivo isto com muita intensidade.
Já aqui escrevi várias coisas sobre as nossas opções e relação com os filhos, esforçamo-nos por construir uma base que assenta na liberdade e na responsabilidade e acreditamos que o exemplo é a melhor forma de influenciar o comportamento dos nossos filhos.
Dificilmente conseguia fazer de outra forma porque acredito que esta é a melhor forma de nos relacionar-mos uns com os outros e assumo a responsabilidade maior de conduzir este processo, que é muito complexo e que muitas vezes me consome em absoluto.
A adolescência X3 está a ser um desafio gigante. O mini rapaz, por agora é o meu recreio.

Ser mãe é o papel que cumpro com mais afinco, é onde sinto o grande peso da carga mental, estou constantemente a questionar tudo, a debater, a lutar. Nunca falho uma batalha que sinto que vale a pena, sou insistente, agressiva, grito e esperneio, quero-me fazer ouvir, erro muito e peço desculpa, choro e apresento as minhas fragilidades com orgulho na tentativa de ajudar a criar gente sensível, atenta ao outro e a si próprio. 
Falo com os meus filhos com muita seriedade, exijo pensamento e amor. 
Sou o mais vulnerável dos seres, acredito na força da minha fragilidade, estou sempre a falhar e a recomeçar. 
Questiono tudo e especialmente questiono-me a mim.
Não faço só isto neste tema da educação, faço em relação a tudo.
E isto é muito cansativo, para mim e para os que me rodeiam. 
Há alturas que parece que estou a andar aos círculos sem conseguir sair do mesmo sitio. 
Mas cada vez mais preciso disto para avançar.
Sei que este meu ritmo é completamente incompreensível para a maioria.


Penso na vida como uma longa caminhada, é um lugar comum.
Nesta minha caminhada eu sinto que já larguei muito peso que carregava e que era desnecessário, não ambiciono nada voltar a encher os bolsos de coisas que não são essenciais para mim, não reconheço como necessidade o que a maioria anseia.
Tenho uma vida calma. Tenho tempo para os meus filhos, para a minha família. 
Para mim esta é a maior das ambições.
Atingi um ponto em que não consigo pensar na minha vida sem este tempo. Sei que essa é a maior riqueza que tenho e não quero perder o que tanto andei para conquistar.

Preciso agora de me reorganizar internamente e conseguir mais espaço para mim, sei que esse é um passo necessário.
Alimento-me muito do que recebo da minha família, é uma característica pessoal, não faz de mim melhor ou pior, mas sei que tenho de me procurar melhor e que me reforçar para continuar a poder dar.
Ainda me sinto à procura de uma nova ordem, mas talvez esta seja a minha nova forma de estar, cada vez mais insaciável na procura de respostas, um constante questionamento.


Li que em Portugal, actualmente 70 em cada 100 casamentos acaba em divórcio. 
Li na diagonal como faço tantas vezes em casos que me interessam mas não o suficiente para lhes dar o meu tempo. Não faço por isto ideia dos contornos desta constatação. 
Sei que poucos são os pais de amigas das minhas filhas adolescentes que permanecem juntos, os meus amigos também grande parte desistiu do até que a morte nos separe e procura a idílica felicidade ao lado de novos parceiros. 

Eu coabito com o meu namorado dos tempos da adolescência. 
Temos 4 filhos em comum e talvez o mesmo grau de exigência na nossa relação. 
Falo só por mim para não cometer excessos nem erros porque sei que por mais que conheçamos o outro o que verdadeiramente se passa na sua cabeça é do domínio exclusivo do próprio, felizmente.

Juntos desde 1995 vivemos em comunhão de sentimentos adquiridos e sabemos que nos complementamos tanto nos bens como nos males. 
À dependência dos dias úteis tento equilibrar com prazeres solitários e procuro nos pequenos gestos a compensação de algum tipo de tédio. 
Se há coisa em que me dedico afincadamente é à exigência que tenho comigo e com o meu compromisso de ser feliz. 
Sei que tudo o resto são flutuações que vão e voltam e dependem somente da minha própria capacidade para as encaixar. 
Há no entanto compromissos base, partilhas regulares de uma orientação de vida semelhante. 
Existem também regras preestabelecidas que me permitem autonomamente saber com o que conto.

Mas desenganem-se os que acham que numa vida partilhada vão encontrar o conforto do prazer solitário, não procurem o que jamais conseguiram dar. 
As relações fazem-se de aceitação e cedência, de troca e desordem. 
É no nosso interior, no nosso solitário eu que nos arrumamos de forma a receber com espaço o outro, sem essa relação consciente connosco jamais conseguiremos ter de nós para dar. 
Partilha melhor o prazer de um copo de vinho quem o sabe apreciar sozinho. 

A fuga da solidão é o maior erro na busca da felicidade. 
Uma é idílica, a outra é certa e acompanha-nos do principio ao fim.

Fotografias Nuno Fontinha
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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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