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Cátia e Rita Curica, as manas Organii


São irmãs, têm uma cumplicidade única, complementam-se verdadeiramente e, a trabalhar, são umas belas máquinas!
Cátia e Rita Curica são as manas Organii, uma marca de cosmética biológica pioneira em Portugal, que se ramifica em várias frentes e que defende acima de tudo a vida saudável e o respeito pela natureza.
A Organii tem de momento lojas em Lisboa, no Porto e em Madrid, entre elas a recente ORGANII Concept Store – a primeira Eco Concept Store do país, espaço a visitar na Lx Factory, local onde têm também a funcionar a Academia Organii, um espaço para workshops, showcookings e talks.
Em Novembro passado protagonizaram o Organii Eco Market, o primeiro evento de lifestyle que reuniu única e exclusivamente marcas, projectos e produtos que se regem por princípios e práticas ecológicas e onde tivemos uma participação muito especial com a concretização da Casa Nheko.

Conversámos numa bonita manhã, no Parque Marechal Carmona, em Cascais, ao som das brincadeiras dos seus filhos, Benjamim, Vitória - da Cátia, e Xavier - da Rita.


Nheko: Como é o vosso percurso famíliar, de onde vêm?
Cátia: A minha avó era professora e tinha um colégio em África, quando regressaram a Portugal montaram uma escola na Amadora, posteriormente os meus pais - que estavam ambos ligados a essa escola, encontraram um edifício fantástico na Rinchoa, o antigo casino que estava abandonado e que tinha um espaço envolvente óptimo. Conseguiram alugá-lo e criaram o Colégio Os Plátanos. O meu pai dava aulas de inglês na Academia da Força Aérea mas envolveu-se neste projecto com a minha mãe logo desde o início.
Rita: A minha mãe tinha uma regra de ouro: Não devíamos viver a mais de 5 minutos do trabalho, por isso mudámos para a Rinchoa para perto do colégio e foi aí que crescemos.

Nheko: Guardam grandes recordações desse espaço?
Cátia: Sim, muitas, do colégio e do espaço que o envolve, uma jardim maravilhoso.
Rita: Crescemos no colégio, aliás o Colégio é que cresceu connosco, foi crescendo e alargando a resposta à medida que a minha irmã crescia, tem desde o pré escolar até ao 9.º ano.
Cátia: Começou logo até ao 6.º ano e depois quando eu atingi esse nível de escolaridade o meu pai abriu até ao 9.º ano.

Nheko: Podemos encontrar aqui algum paralelismo com a história da Organii, a Organii Bebé também surge em sequência do nascimento do Benjamim, o 1.º filho da Cátia, há, na vossa família, uma forma de viver os negócios muito ligada à Vida em Família?
Cátia: É uma forma de responder às necessidades, viver aberto às mudanças e sim, ligar sempre os projectos à família, é uma boa herança esta forma de trabalhar e de viver em geral.


Nheko: Vocês também estão envolvidas no projecto do colégio? Como é trabalhar com a família?
Cátia: O meu pai é agora o responsável pela parte pedagógica e eu apoio-o na gestão. Eu trabalho sempre com a família, às vezes brinco a dizer que não sei em que área será o meu próximo negócio mas terá de ser sem a família!
Rita: Trabalhar com a família não é fácil, temos de ter muito em conta a compatibilidade dos feitios, eu por exemplo, com o meu pai bastaria uma semana para andarmos às turras... mas na verdade eu não quero outra coisa senão trabalhar com a família, não quero mais fusões e investimentos com ninguém, mas isto tem a ver com as experiências que vamos vivendo.
Cátia: Gerir as emoções com a família num negócio não é de todo fácil, é um processo mesmo muito complexo mas com a família tens sempre confiança máxima e isso é inigualável. Eu até posso achar que a minha irmã está a fazer uma coisa mal mas nunca duvido da intenção dela, sei que estava a tentar fazer bem. Este é o ponto que faz toda a diferença. É como na vida em casa, na família, pode haver opiniões e formas de fazer diferentes mas o objectivo é comum, há total partilha de valores, é património!


Nheko: Depois do ambiente protegido vivido no colégio como foi o vosso crescimento, fizeram o liceu na escola pública?
Cátia: Sim, andámos no liceu público. A mim o que mais me ajudou e influenciou foi ter andado nos escuteiros. Eu ia à escola e assim que saia apanhava o comboio para Sintra para os escuteiros, este foi um grupo fundamental para mim, decisivo mesmo. Adorei tudo o que envolvia, o contacto com a natureza, o sentir-me útil, o serviço cívico.

Nheko: Faziam programas em família onde esse contacto com a natureza era privilegiado?
Cátia: Fazíamos piqueniques, acampávamos mas nada de especial nem com grande consciência nesse sentido.
Rita: Os meus pais eram mais apreciadores de cinema, durante toda a infância tivemos as 6.ªs feiras de cinema. Tínhamos também uma casa em São Pedro de Moel e aí vivíamos em liberdade quase absoluta, criámos lá um grande grupo de amigos que foram muito importantes nas nossas vidas, conheci lá o Marco, o meu grande companheiro de vida e pai do meu filho.
Cátia: Os escuteiros moldaram-me muito, eram não católicos e tinham uma pessoa muito carismática à frente, um professor de ciências que posteriormente tirou um doutoramento, uma especialização em salamandras, só para perceberem o tipo de pessoa que era, passava horas a explicar-nos tudo, ensinava coisas incríveis como por exemplo lavar a loiça com terra, coisas que só mais tarde entendi a verdadeira dimensão. Eu passou-nos a noção de como é possível viver em harmonia com a natureza.

Nheko: Nessa altura já tinhas esse espírito de missão, levavas esses ensinamentos para outros contextos, para casa?
Cátia: Não tinha muita consciência mas era muito ambientalista, era uma hippie. Lembro-me que toda a gente me dizia que isso ia passar com a idade, essa frase perseguiu-me durante anos, eu dizia à minha mãe que queria ter 40 anos para deixar de ouvir isso, cresci com a vontade de ficar velha, queria chegar aos 70 anos e perceber se ainda conseguia manter esta característica de ser idealista.
Rita: Eu vivi isto um bocado na sombra, sem ser propriamente activista mas concordando com a minha irmã. Sempre fomos muito chegadas, tínhamos os mesmos amigos, chegámos a viver juntas em Coimbra quando a minha irmã foi para a universidade e eu consegui convencer o meu pai a ir para lá fazer o 12.º ano.


Nheko: Mas como é que surgiu a ideia de ir estudar para Coimbra?
Cátia: Eu primeiro entrei em Lisboa mas detestei a experiência, achei tudo muito impessoal, fiquei muito desiludida com a experiência.
O meu pai tinha estudado em Coimbra e a casa de família da parte da minha mãe é de Soure que é relativamente perto, acabei por concorrer para Coimbra e entrei em farmácia. Adorei tudo, o ambiente, as aulas, até a praxe de que hoje tanto se fala, acho que uma praxe bem feita, onde se respeitem as pessoas, pode ser uma prática que promove a integração, és obrigada a interagir com os outros e crias laços que são importantes naquele processo.
Rita: Eu nessa altura estava a ter uma má experiência no liceu, tinha professores péssimos e achei que ir com a minha irmã para Coimbra era a solução perfeita, até porque ficava mais perto do Marco, com quem já namorava na altura.

Nheko: A liberdade sempre fez parte da vossa educação?
Rita: Cá era mais complicado, havia mais condicionantes e perigos reais, quando saíamos à noite para Lisboa tínhamos de ir de comboio, o último comboio da noite, ou o primeiro da manhã, eram uma selva autêntica.
Cátia: Isso ajudou na decisão da nossa ida, em Coimbra era tudo mais calmo e seguro.
Rita: Houve sempre uma ligação directa entre o cumprir das nossas responsabilidades e o usufruir da nossa liberdade.

Nheko: E qual foi a reacção dos vossos pais à vossa saída de casa?
Rita: Foi uma altura em que estavam muito entretidos com a nossa irmã Beatriz que era pequenina, ela tem menos 15 anos que eu e 18 que a Cátia.
Cátia: Mas o meu pai era e sempre será muito pai galinha, eu lembro-me de que na véspera de eu ir ele foi ter comigo ao quarto e me disse que se eu não quisesse ir não precisava, podíamos fazer outra coisa, ficar em Lisboa. Disse-me várias vezes "tu não precisas de ir."


Nheko: Quem das duas é mais pai e mais mãe?
Rita: Eu sou mais pai.
Cátia: Sim, sou fisicamente mais parecida com a minha mãe mas se há pessoa com quem me comparam é com a minha avó.

Nheko: E ouvem as vozes dos vossos pais nas palavras com os vossos filhos?
Cátia: Em algumas coisas sim, mas tenho a noção de que há coisas que não são para repetir. Tenho muito presente em mim as sensações provocadas pelas palavras e pelas acções dos adultos, isso é uma coisa que não me desligo e que quero manter para bem dos meus filhos.
Rita: A geração dos nossos pais não viveram a vida que queriam, as pessoas não tinham percepção nem oportunidade de escolher, era tudo muito duro, a preocupação estava em viver e sobreviver, não se parava para pensar e isso refectia-se muito na relação que criavam com os filhos. Os nossos pais tinham pouca disponibilidade, pouco tempo, mas a vida era assim e ninguém questionava isso.
A nossa avó preenchia um espaço muito especial, tinha uma disponibilidade enorme e uma presença única. Foi uma pessoa muito especial no nosso crescimento.
Cátia: Ela era de uma grandiosidade incrível, tinha uma capacidade única de ouvir, punha tudo em perspectiva. Eu sempre tive uma relação muito forte com ela, era a pessoa mais próxima de mim sem dúvida.


Nheko: O vosso relacionamento como irmãs sempre foi assim tão próximo e harmonioso?
Rita: Eu fui muito desejada pela Cátia, a minha mãe conta que ela dizia: Se for um menino deitamos fora e mandamos vir uma menina. Sempre tivemos grande cumplicidade, a ideia que tenho é que sempre me senti apoiada pela Cátia, sempre estive muito junto dela. Nós agora até andamos a pensar em conseguir uma solução para morar mais próximas, no mesmo prédio ou rua, era muito bem poder contar com a ajuda uma da outra no dia a dia, com os miúdos era precioso.

Nheko: A maternidade foi um processo pacifico?
Cátia: Não, eu quando tive o Benjamim senti imensas dificuldades, não achei nada fácil. Talvez não estivesse bem preparada ou não sei bem mas vivi com dificuldade uma série de coisas, a perca da liberdade é muito difícil!
Rita: É tudo difícil... A gestão da vida pessoal com a profissional também. Eu esforço-me muito por ser e estar o mais presente possível, não quero nada que o Xavier venha a sentir que eu era uma mãe ausente e muito ocupada, mas para isso eu tenho muitas vezes de ficar a trabalhar até às 3h da madrugada, é muito cansativo.


Nheko: A presença efectiva, essa disponibilidade é para ambas fundamental no processo de educação dos filhos?
Cátia: A disponibilidade é um pilar básico para quase tudo, a maior parte das coisas que acontecem fora do nosso controlo e vontade são resultado de falta de atenção e disponibilidade real.

Nheko: São segundas mães dos vossos sobrinhos?
Cátia: Eles ainda são pequenos e por agora trata-se muito de gerir as necessidades, aí somos muito parecidas na resposta que damos, mas não somos tão disponíveis como gostaríamos, quando crescerem mais vai ser interessante construir uma relação especial com cada um deles.


Nheko: Como e quando é que surge a vontade de criar um negócio em conjunto, a Organii acontece como?
Cátia: Eu acabei o curso de farmácia onde o que gostei mesmo foi a investigação mas sou muito impaciente e acho o processo que os investigadores têm de fazer demasiado demorado, a demonstração e confirmação da teoria é um desperdício de tempo, não funciona comigo. Eu sempre achei que cada pessoa tem um lugar certo no mundo e tive de experimentar muitas coisas para encontrar o meu.
Resolvi tirar o curso de  Medicina Tradicional Chinesa e foi aí que encontrei a minha filosofia de vida, todos os princípio de orientação, foi tudo uma enorme descoberta. Também encontrei o Ricardo, o pai dos meus filhos!
Depois do curso comecei a dar consultas e foi depois de uma viagem pela Ásia que desafiei a minha irmã a criar uma loja, ela trabalhava num gabinete de arquitectura e achámos que era um complemento giro para ambas, assim uma coisa a meio tempo... essa era a ideia inicial.

Nheko: Que cresceu muito...
Rita: Eu nos primeiros 5 anos trabalhei todos os dias sem parar, foi uma bola de neve que foi crescendo sem parar.
Cátia: Na altura, sem filhos, era normal trabalharmos mais de 12 horas por dia, fazíamos isso sem grande esforço, dava-nos imenso gozo fazer acontecer.

Nheko: Qual foi o segredo para o crescimento e sucesso da Organii?
Cátia: Eu digo muitas vezes que acho mesmo importante que as pessoas tenham os seus valores e princípios bem definidos e se agarrem a eles com unhas e dentes. Depois é fundamental estar aberto ao mundo e ir recebendo as indicações e sinais que vão chegando, estar atento e, uma vez mais, verdadeiramente disponível.
Rita: As coisas foram acontecendo, por forças externas e por vontades internas. Temos construído assim o nosso caminho, mas não era nada disto que estava no plano de negócios inicial, era mesmo só uma pequena loja.


Nheko: Na Organii têm papeis definidos, como é a vossa relação a trabalhar?
Cátia: Sim temos, tentamos potenciar o que cada uma tem em função dos objectivos da empresa. Nós sabemos lindamente onde estão os nossos defeitos e as qualidades uma da outra. Temos muitas vezes que lidar com coisas que não nos servem assim tão bem mas tentamos fazê-lo da melhor forma tendo em conta o que a Organii necessita. Por enquanto ainda há muita coisa que não pudemos delegar mas claro que temos o objectivo de ter uma equipa de apoio cada vez maior e mais completa no sentido de nos podermos concentrar naquilo que mais gostamos e onde a nossa prestação é melhor.
Rita: De momento estamos e reestruturar, a repensar, a avaliar. Este é um momento fundamental para avançar na direcção certa. Trabalhar juntas é claro e certo e apostar em boas parcerias também.

Fotografias Pau Storch
Podem seguir o trabalho da Cátia e da Rita através do site, facebook e instagram.


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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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