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Fala com Elas - Especial Mães


Fala com elas é um espaço de partilha sobre a adolescência que acontece habitualmente com um grupo de adolescentes.
Este Especial Mães tem outras protagonistas, mulheres que, não deixando de ser filhas, se tornaram mães e navegam agora nas águas agitadas da adolescência.

Com filhos de idades diferentes mas com pelo menos um a viver esta fase que cada vez começa mais cedo, cinco mulheres conversam e partilham as suas inquietações tendo a adolescência como tema central.

Juntámo-nos no restaurante Ao 26 - Vegan Food Project onde a Catarina Gonçalves nos recebeu de braços abertos e com uma mesa farta, cheia de coisas deliciosas que nos aconchegaram nesta partilha, que nos fez muitas vezes engolir em seco.

Foi uma experiência nova para mim porque estive numa posição de moderadora-participante conduzindo esta conversa que por tantas vezes se arriscou na emoção da partilha comum.

Fala com Elas - Especial Mães.





Alexandra/Nheko: Como é que as vossas mães vos lembram enquanto adolescentes? E como vos descrevem como mães?

Catarina Beato: Calma mas arrogante. Eu lembro-me de ser muito ácida com a minha mãe, de me sentir permanentemente em guerra com ela e de como era glorioso o facto de a conseguir fazer chorar. A minha mãe diz que eu era muito convencida, que tinha a mania que sabia tudo, no entanto sempre mantivemos uma relação próxima e aberta, conversávamos praticamente sobre tudo.
Como mãe acha-me um pouco galinha mas calma, eu consigo guardar a ansiedade para mim e não a manifestar com os miúdos.

Sónia: Eu fui uma adolescente terrível, tinha uma mãe muito austera, tipo general, é uma característica que aliás mantém ainda hoje e que a vai acompanhar até ao último suspiro. Até à adolescência a minha mãe tinha um controlo absoluto e um peso enorme sobre mim mas nessa fase eu descobri que podia virar a mesa e virei. Foi uma luta de Titãs mas que eu venci muitas das vezes porque fui mesmo horrível, cheguei a ir em coma para o hospital devido a uma bebedeira descomunal, fiz muitas coisas dessas e depois, claro arranjei um namorado que era o oposto do que ela tinha sonhado para mim, como a minha mãe lutou imenso contra esta relação ela durou 8 anos, podia talvez ter durado oito dias. Nunca falei com a minha mãe sobre a forma como ela me vê nem como a adolescente que fui nem como a mãe que sou mas, seguramente que me acha muito permissiva. Eu tento mesmo ser o contrário do que tive, tenho essa consciência. Eu sou pelo sim, ela sempre foi pelo não, era a sua resposta a tudo o que eu pedia.
Custou-me muito viver este regime militar e sei que não o quero para os meus filhos nem para a minha vida. Talvez para a minha mãe eu seja demasiado permissiva, até uma "babaca", mas eu seu que não sou.

Catarina Gonçalves: Eu revejo-me na história da Sónia, a minha mãe também sempre foi muito rígida e autoritária. Ela diz que ganhou os primeiros cabelos brancos com a minha adolescência. Eu não era assim tão rebelde mas era muito difícil e depressiva, achava que o mundo inteiro estava contra mim, sei que a minha mãe passou um mau bocado.

Isabel: Nós somos 5 irmãos, 4 irmãs muito seguidas o que dá para imaginar. Ainda para mais a minha mãe teve o meu irmão quando tinha 43 anos e nós estávamos todas em plena adolescência. Foi duro. Mas eu acho que a geração das nossas mães foi mais autoritária no geral, também não sabiam fazer de outra forma.
Eu acho que a minha mãe me acha muito permissiva e até acha que as minhas filhas são um bocado malcriadas. 
Eu lembro-me de coisas parvas que sempre me irritaram e até faço um género de vingançazinha, por exemplo a minha mãe nunca me deixou sentar com a perna dobrada debaixo do rabo e eu deixo as miúdas, e sei que ela fica irritada com isso.

Alexandra: Isto da maternidade acaba por ter uma parte de rebeldia, no meu caso foi o quarto filho, com uma diferença enorme das irmãs, decidir tê-lo foi o nosso acto punk!

Sónia: Se eu tivesse um quinto filho seria certamente o meu acto de rebeldia maior. A minha mãe que já não gostou que eu tivesse o terceiro, achou perfeitamente anormal que tivesse o quarto, se tivesse mais um tenho a certeza que me deixava de falar! Ela ficou sozinha comigo aos 3 anos e optou por jogar sempre pelo seguro, para ela tudo tem de ser garantido, vive cheia de medo, tem um medo imenso que eu fique sozinha com esta imensidão de filhos.

Catarina Beato: Os muitos medos da minha mãe dissiparam-se quando me casei com o Pedro, agora só tem um, tem medo que o Pedro se vá embora.

Alexandra: Eu vivi uma adolescência intensa e muito cheia de experiências, fui difícil a vários níveis, comecei muito cedo e quando aos 15 anos conheci o meu namorado, que se mantém ainda hoje e que é o pai dos meus filhos, para a minha mãe também foi um alivio. Ela diz que ele foi o melhor que me podia ter acontecido e já na altura ele era músico, tinha uma banda punk-rock "os Vómito" e depois começou a tocar profissionalmente com os "Peste&Sida", portanto não era propriamente um menino de coro mas face ao meu período anterior era muito calmo.
A minha mãe define-me como tendo sido uma adolescente muito difícil e eu encontro agora nas minhas filhas muitas das características que ela me aponta. Lembro-me muito bem dessa fase e uma das grandes diferenças que procuro é fazer parte da vida delas, estar próxima e ser muito compreensiva e atenta. Eu hoje sei muito mais da vida das minhas filhas do que os meus pais sabiam na altura.
Como mãe sei que me acha muito disponível e permissiva, especialmente com elas que estão crescidas. Eu sou o tipo de mãe que controla zero, seja os TPC's ou a arrumação do quarto, eu confio, acredito nisso e sei que a minha mãe não concorda mas respeita e esforça-se por intervir o mínimo.



Alexandra / Nheko: Os adolescentes sempre foram "seres misteriosos", o que se passa nas suas cabeças é um enigma para os pais?

Catarina Beato: As coisas com o meu filho sempre foram pacíficas, eu sabia que estávamos a entrar na tão temida adolescência mas tudo se vivia calmamente até que um episódio veio desmoronar por completo o meu mundo. Nós sempre tivemos uma relação próxima, falamos abertamente sobre tudo até sobre assuntos que muita gente contorna e tem dificuldade como a sexualidade, nós sempre falámos sobre tudo, era aparentemente uma adolescência calma, reservada mas nada indiciava a situação, como mãe senti-me a ruir com o meu mundo e depois a ter que me reerguer e reconstruir tudo. 
O cenário da depressão é assustador, a forma como a realidade é deturpada, as formas que se encontram para justificar o que se está a sentir, tudo isto e absolutamente terrível, eu passei muitas noites sem dormir.
Eu também fui uma adolescente depressiva mas nunca tinha pensado em viver isto como mãe, em sentir esta dor.
A fantasia é algo que por vezes toma conta de tudo nesta fase, os desejos de auto destruição têm de ser legitimados e isso leva a uma adulteração da realidade.
É muito difícil perceber os indícios mas é importante criar estratégias de aproximação. Eu fui uma adolescente muito depressiva mas conversava muito com a minha mãe, sobre tudo, o que estava bem e o que estava mal.


Alexandra / Nheko: Neste processo há uma altura em que percebemos que cresceram...

Sónia: Eu lembro-me DO dia. O dia em que percebi que ele já não era "meu". O meu filho é vizinho da namorada e nós estávamos a pensar em trocar de casa, ele teve um verdadeiro acesso de loucura perante a hipótese de sairmos dali,  eu lembro-me do olhar dele e percebi claramente naquele momento que eu já não era a mulher da vida dela e que esse momento era irreversível, o amor tinha mudado. Caiu-me a ficha.

Alexandra: Praticar o desapego é algo muito necessário nesta fase, temos de os largar para os deixar crescer mas também temos de redobrar a atenção para perceber os caminhos por onde estão a seguir, esta é mesmo uma altura exigente para as mães.

Isabel: A minha filha mais velha ainda só tem 11 anos mas eu lembro-me muito bem da minha adolescência e das minhas irmãs, vivíamos numa rua sem saída e aquilo era um correpio de rapazes a entrar e a sair, eram esquemas uns atrás dos outros, nós mentíamos, manipulávamos, dávamos a volta que queríamos. A minha mãe não tinha hipótese. E eu olho para mim e para as minhas irmãs e nós somos todas muito diferentes, cada uma a viver num ponto diferente do mundo com um percurso mais ou menos acidentado mas todas nos safámos e nos tornámos adultas mais ou menos equilibradas e integradas e isso acaba por ser reconfortante neste processo.

Catarina Beato: É uma fase em que 80% das coisas não se controlam, aprendi a aceitar isso.

Alexandra: Se nós pensarmos em nós nessa altura, os nossos pais não só não sabiam nada das nossas vidas e muito menos das nossas cabeças. Esta separação é difícil mas só para os pais, há quem não queira deixar crescer mas isso não é possível, isso só vai provocar um abismo maior. O desapego para os miúdos é um processo normal e natural, como qualquer outro animal eles querem crescer e ir à sua vida.

Catarina Gonçalves: Também penso no que a Isabel referiu, nós sobrevivemos. Melhor ou pior estamos aqui e somos adultos capazes.

Isabel: Vão haver sempre choques e diferenças na forma como se olha o mundo mas eu acho que a vida nos ajuda a ir serenando neste aspecto, vamos compreendendo e aceitando que a vida deles não depende (só) da nossa actuação, há muitos outros factores envolvidos.

Alexandra: O factor sorte é muito importante!?!!?

Sónia: Para tudo, eu acho que a sorte é um factor que nós muitas vezes desconsideramos mas que é super importante.

Alexandra: Acho que nos damos demasidada importância neste processo, colocamo-nos enquanto pais num tipo de pedestal como se a nossa actuação fosse resolver e determinar tudo na vida dos nossos filhos e isso é um perfeito disparate que nos pesa muito às costas e que nos faz viver cheios de culpa.

Isabel: A nossa actuação é central até por volta dos 6 anos, depois disso... há um mundo.



Alexandra/ Nheko: Os filhos, que não são obra nossa, podem até não corresponder às expectativas que criámos, como é que se lida com isso?

Sónia: O meu filho mais velho é muito menos aberto em termos de mentalidade do que nós, tem ideias nas quais eu não me reconheço minimamente, por exemplo achas que os tipos das artes são todos uns esquisitos, e eu fico incrédula, questiono-me de onde é que isto vem? Na verdade ele sempre foi assim desde pequeno, é a criatura mais "arrumadinha" que conheço não faz nada fora da caixa. Isto chateia-me bastante, também tem um lado tranquilizador no que respeita a saídas, copos etc ele nem gosta da minha mota. É assim. às vezes vejo o meu sogro nele.

Alexandra/Nheko: E ouvem a vossa mãe nas vossas palavras?

Catarina Gonçalves: Nada! Aliás eu sou o oposto e por causa disto até tenho um problema sério com a autoridade, eu tento fazer exactamente o contrário e levo isto ás vezes para situações disparatadas. Quero ser com os meus filhos o oposto do que a minha mãe foi comigo.
Por exemplo, eu adoro a forma criativa como brincam e é isso que eu vejo enquanto a minha mãe só vê uma sala desarrumada. Eu nunca vou ouvir as palavras dela na minha boca, esforço-me imenso para sair do padrão em que cresci. É libertador.
Mas hoje eu já não entro em confronto com a minha mãe, aprendi a aceitar e a conseguir retirar o melhor da nossa relação.

Catarina Beato: Nós fazemos as pazes com as nossas mães quando elas se tornam avós.

Sónia: Com as mães há sempre tanta coisa por resolver.

Isabel: É de facto assustador como as mães são um problema. E agora somos nós as mães que vamos deixar traumas nos nossos filhos, será que isto faz sempre parte???

Alexandra: Faças o que fizeres vais ser sempre apontada como a causadora de algo menos bom, a culpa é sempre da mãe!

Sónia: Às vezes penso no que é que, daqui a uns anos, os meus filhos vão estar a sentir e a partilhar, quais as acusações que me vão fazer. Isto perturba-me um bocado.

Isabel: E no entanto todas fazemos o melhor que podemos e sabemos, eu sou uma mãe do caraças e não preciso que as minhas filhas mo digam mas vejo a forma injusta e desigual com que me julgam e como me cobram.

Catarina Beato: Temos as melhores intenções mas por vezes estamos a cometer grandes erros que vão ter consequências. Exemplos: A minha mãe chorava muito quando eu era criança e isso marcou-me imenso, fez com que eu tenha não só muita dificuldade em chorar como nunca o faça ao pé dos miúdos. Ora uma das queixas do meu filho mais velho é precisamente essa, o facto de eu não chorar. Ele sente essa minha atitude como intimidatoria e inibidora na expressão dos seus sentimentos. Outra situação tem a ver com a tensão que a hora da refeição representava na casa dos meus pais, era terrível, consequentemente eu nunca tive o hábito de comer à mesa. Qual vai ser a leitura que os meus filhos vão fazer disto? Um dia vão obrigar os filhos a comer sempre à mesa para ultrapassar a falha que eu lhes provoquei. Será este um ciclo sem fim?

Alexandra: É nesta fase que nos confrontam com tudo isso, conseguem fragilizar as nossas certezas. É uma altura de conflito aberto, um medir forças constante, um reajuste e uma relação sempre em reconstrução. É o CAOS e a procura da nova ordem mesmo que muitas vezes demoremos quase uma vida inteira para reconstruir essa nova ordem.


Alexandra/Nheko: Sentem-se nesse processo de reajuste na relação com os vossos filhos? Quais as coisas das quais não abrem mão?

Catarina Beato: Sinto que tenho cada vez mais de seleccionar as guerras que compro, em função dos meus valores e das coisas em que acredito mas este processo começa muito antes da adolescência e varia muito de filho para filho. Eu não consigo mesmo viver no conflito, para mim é essencial escolher o que eu não abro mão, para mim as notas são importantes, o brio.

Sónia: Varia mesmo e cabe-nos a nós relativizar e ajustar a reacção que temos ao valor das coisas, o que é importante em minha casa pode não ser na tua.

Alexandra: Essa capacidade de sair de cena, de olhar o conflito de cima e avaliar o que representa na realidade é um exercício fundamental que tento sempre fazer, evito ao máximo entrar em conflitos "mano-a-mano", eu sou a adulta e tenho responsabilidade de estabelecer as regras. Os valores que me fazem entrar em guerra são sempre a confiança e a relação entre a responsabilidade e a liberdade, são também a minha luz guia.



Alexandra/Nheko: A adolescência é definida como uma fase egoísta, isso sente-se na pele?

Sónia: O meu filho um dia saiu-se com a acusação que eu e o pai só tínhamos tempo um para o outro. São bombas que largam e que sabem que nos atingem. Perfeitos disparates mas que nos magoam.

Isabel: As minhas tentam jogar com o ping-pong dos pais separados mas sem grande hipótese para já.

Catarina Beato: Percebem as nossas fragilidades e às vezes conseguem ser frios e calculistas ao atacá-las. Acho que todos fomos um pouco assim, uns mais outros menos, dependendo não só das características pessoais mas também do espaço que era dado para isso.

Alexandra: É também uma fase onde tudo é muito exaltado, atacam com unhas e dentes e depois arrependem-se como "Marias Madalenas".

Sónia: Claro que a conversa que se segue é muito importante, é bom que tenham consciência de que as palavras magoam.



Alexandra/Nheko: E quais são os ganhos que este processo de crescimento nos traz?

Catarina Beato: Há um lado fabuloso de independência e autonomia.

Sónia: Eu gosto muito de poder conversar com ele como adulto, de ouvir o que tem a dizer, vê-lo a ler o  mundo.

Alexandra: Fascina-me o olhar critico face ao mundo e a crença inabalável de que vão mudar o mundo.

Catarina Gonçalves: Até isto tem a ver com as expectativas em relação aos filhos. A minha ideia de juventude é essa: querer mudar o mundo e achar que se consegue. Eu pensava assim e tive de aceitar que a minha filha pensa de outra forma. Ela tem uma atitude de conformismo em relação às situações que não concorda, não reivindica, aceita e fica resolvida. Vive bem com isto. Tive de perceber que era assim e também eu aceitar, compreender o outro lado de se ser assim, ela vive de forma tranquila e serena, eu era muito revolucionária e vivia em permanente conflito com o mundo, ela não.

Isabel: É muito lixado quando encontramos nos nossos filhos características com as quais não nos identificamos e das quais não gostamos, a vaidade extrema, serem caprichosas... Pensamos: mas de onde é que isto vem? E agora?

Catarina Gonçalves: A mim uma das coisas que mais me incomoda é a superficialidade, eu nunca estruturei um pensamento que diga que não quero que os meus filhos sejam assim ou que sejam assado mas a expectativa cria-se para além da nossa vontade e o confronto acontece quando nos deparamos com um Ser que é bem mais do que aquilo que projectámos. Isto é um desafio enorme.

Catarina Beato: Mas há coisas que me questiona se aguentaria. Lembro-me de ser miúda e de pensar no que faria se os meus filhos fizessem alguma coisa que eu não tolerasse mesmo. Penso muito nisto.

Sónia: Eu sei que tenho de lutar e de trabalhar muito para que o meu filho não se transforme em alguma coisa que eu não gosto, num grunho quadrado que só fala do Sporting e de futebol. Eu não me oponho ao facto disso fazer parte da vida dele mas não posso aceitar que seja só isso, ele tem de se encher de mais coisas. Eu vejo isto e penso: Como, porquê? De onde veio isto? Sentes uma falta de controlo que te conduz a um certo desespero.


Alexandra/Nheko: Se os nossos filhos se tornassem mesmo em alguma coisa que nos incomodasse muito, isso afectaria e iria abalar o amor que sentimos por eles?

Sónia: Não sei se iria diminuir o amor mas haveria uma desilusão.

Catarina Beato: Retiraria o fascínio...

Alexandra: E será isso o nosso ego a reagir? É um atentado à nossa obra?

Sónia: Isto fez-me pensar numa coisa, imaginem que eu descobria que o meu filho era um tipo que maltratava a namorada, descobria que ele era violento. Dou por mim a pensar como é que o pai das pessoas que fazem esse tipo de coisas toleram e continuam a mar os seus filhos? O amor sobrevive a isto?

Catarina Gonçalves: São os mistérios do amor incondicional.

Isabel: Acho que continuamos a amar, num amor sofrido mas vamos amá-los sempre.

Alexandra: Será uma questão de conseguir ultrapassar o sentimento egoísta que vive no amor? o da expectativa e espelho, será que depois apenas fica o amor num estado mais puro, o amor sobrevivente?

Catarina Beato: Há casos em que eu penso que deve ser mesmo muito difícil, situações quase impossíveis de ultrapassar.

Catarina Gonçalves: O amor não pode estar dependente da expectativa que temos daquele individuo. A riqueza da maternidade também está aí, neste aceitar que são pessoas autónomas e livres com coisas boas e coisas más. No processo perde-se aquela coisa umbilical mas ganha-se o respeito pela pessoa.

Isabel: O fascínio que temos pelos nossos filhos e eles por nós, essa magia muda com o crescimento e muda de ambas as partes. Não é só a forma como nós olhamos para eles, é também o que eles vêem em nós. Ficamos chatas, menos luminosas, menos enérgicas. É um processo natural.


Alexandra/Nheko: A relação entre irmãos é algo muito valioso, como é que isso é vivido na adolescência?

Catarina Beato: O Gonçalo é absolutamente fascinado pelo irmão Afonso, também é apaixonado pela Maria Luiza mas o irmão do meio é mesmo o seu encanto. Este amor é vivido de forma muito intensa e é mesmo uma âncora nas fases depressivas.

Catarina Gonçalves: O meu filho Lourenço diz que a Amélia foi a melhor coisa que nos aconteceu na vida, é lindo!

Alexandra: O Raúl nasceu quando a Rita tinha 12 anos, a Eva e a Alice tinham 10. A Rita também teve essa verbalização, acho que a vivência do amor no seio de uma família com a entrada de um bebé é algo absolutamente mágico e único. É revigorante.
Mas eu vivo fascinada com a relação entre as minhas três raparigas, embora se peguem e discutam bastante por assuntos de nada eu sei que olham umas pelas outras e isso de certa forma tranquiliza-me e reforça-me.


Alexandra/Nheko: Nesta idade é incontornável abordar a temática da sexualidade?

Catarina Beato: Nós falamos abertamente, hoje em dia os miúdos têm muitas ideias erradas e é mesmo fundamental ajudar a esclarecer. Há muito acesso mas muita desinformação. É tudo muito rápido e promiscuo.

Alexandra: É tudo desprovido de afecto, tê acesso a pornografia reles e isso retita espaço à fantasia e à construção do imaginário. A internet veio trazer muita poluição à educação sexual dos miúdos. É importante intervir mas não é fácil quando há todo um mundo que não dominamos.


Alexandra/Nheko: Há situações que nos levam a um estado de preocupação extremo relativamente aos nossos filhos. Consideram que alguns fins justificam os meios? A invasão da privacidade dos nossos filhos pode ser justificada em certos casos?

Catarina Beato: Custa-me muito assumir que sim, acho que há situações que justificam essa invasão embora seja completamente contra um dos meus princípios básicos.

Isabel: Há coisas que ultrapassam o campo do respeito e da ética, são legítima defesa. Quando sabemos que é necessário é mesmo.

Sónia: Acho que ninguém se sente confortável numa situação dessas mas há coisas que têm mesmo de ser feitas em certas ocasiões. Não gostas de tomar a medicação mas tomas e pronto.

Catarina Gonçalves: A minha filha tem um diário que eu nunca abri. Eu também tive diários e odiaria que a minha mãe os tivesse lido mas mais do que isso eu acho que se ela tivesse lido teria ficado muito assustada. Nesta idade é tudo escrito de uma forma muito exaltada que não corresponde exactamente à realidade, um diário é um exercício de expressão, há que ter isso em conta. De qualquer forma eu não hesitaria se achasse que isso podia ajudar algum dos meus filhos.

Alexandra: Eu sinto uma grande partilha de responsabilidade nesse controlo, acho que as irmãs funcionam como uma brigada especial, são infiltradas que em caso de perigo vão dar o alerta. Não são nada queixinhas mas acho que num caso grave posso contar com elas, falamos nisso entre nós, partilhamos inquietações sobre umas e outras, sinto-as cúmplices nessa preocupação. Acho que só vivendo certas coisas podemos perceber como reagimos e o que é que se sobrepõe.


Alexandra/Nheko: Para finalizar pergunto, como é que lidam com a adolescente que ainda vive dentro da mãe que são?
Catarina Gonçalves: Eu trato-a com muito carinho, tenho uma certa admiração por ela, é talvez o meu lado mais interessante. Eu quando adolescente sentia-me capaz de tudo, tinha uma força criativa gigante, parecia que tinha coisas a crescer cá dentro que tinham de sair por algum lado. Eu era poeta. actriz, cantora. Era um turbilhão. Recordo-a e vivo-a com um imenso carinho.

Catarina Beato: Tenho saudades daquela mistura de angústia com expectativa. A sensação que o mundo está todo para acontecer. Em mim vive a adolescente, muito mais do que a criança que fui.

Isabel: Gosto de trazer para a idade adulta o sonho e a força do acreditar tão característicos da adolescência. Esse estar entalado no agora sem ter de olhar demais nem para trás nem para a frente.

Alexandra: Revivo com as minhas filhas a alegria e a leveza. Gosto de ir à praia e mergulhar como uma adolescente, sem sentir frio.


Eu,
Alexandra, Nheko
Mãe da Rita, 17 anos, Da Alice e da Eva com 14 e do Raúl com 4.

Elas,
Catarina Beato, Dias de uma Princesa
Mãe do Gonçalo com 14 anos, do Afonso, 5 e da Maria Luiza com 10 meses.

Catarina Gonçalves, Ao 26 - Vegan Food Project
Mãe da Luísa com 11 anos, do Lourenço com 8 e da Amélia com 7 meses.

Isabel Saldanha, Isabel Saldanha, Words&Photography
Mãe da Caetana com 11 e da Camila com 8 anos.

Sónia Morais Santos, Cocó na Fralda
Mãe do Manel com 15, o Martim com 11, a Madalena com 7 e o Mateus com 2 anos.

Este pode ter sido o primeiro de vários encontros ou o ponto de partida para um ciclo de conversas, gostava muito de dar continuidade a esta partilha com estas mulheres tão inspiradoras, a Elas o meu muito obrigada!
E um agradecimento especial à Catarina Gonçalves que nos recebeu no seu restaurante Ao 26 - Vegan Food Project com uma generosidade e simpatia imensa.

Fotografias Pau Storch
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4 comentários:

  1. Alexandra, Isabel e restantes que não conheço pessoalmente, adorei a vossa conversa e a forma como abordaram este assunto, que ainda não vivo, mas já sinto um pouco! Parabéns!

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  2. Gostei muito da conversa, parecia que também lá estava, vislumbrando já aagitação que se avizinha no meu beiral com uma pré-adolescente de 9 anos :)

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  3. Excelente conversa. Há sempre muitos blogues sobre bebés/crianças e quase nada sobre adolescentes. Adorei. Obrigada por esta lufada de ar fresco :)

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Sobre Nós

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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