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À Volta da Mesa com Catarina - Ao 26 - Vegan Food Project // 1


Esta é uma publicação sobre uma temática com grande peso na Vida em Família: a alimentação.
Todos trazemos da casa dos nossos pais alguns hábitos que nem questionamos e que reproduzimos com facilidade, perpetuando, por um lado erros mas também mantendo presentes e vivas algumas experiências interessantes e hoje menos prováveis.
Na casa dos meus pais bebíamos leite de vaca, comíamos açúcar branco e púnhamos chocolate em pó no leite, eu comi cerelac e nestum até sair de casa e o meu irmão não gostava de legumes.
No entanto, na casa dos meus pais sempre tivemos uma alimentação diversificada, a fruta fazia parte dos hábitos diários e a sopa era uma presença constante. 
Em criança tive o privilégio de viver próxima das dinâmicas da horta e da capoeira, dos produtos da estação, dos animais que um dia nos davam ovos e no outro estavam no forno a assar com batatas. Sempre fez parte, vi coelhos a serem mortos e esfolados com uma ligeireza que me impressionava. Os bichos faziam parte da cadeia alimentar. Foi essa a explicação que me deram quando perguntei porque é que os matavam.
Nunca gostei mas sempre comi.

Hoje, os meus filhos vivem longe desta realidade, impressionam-se muito mais do que eu quando imaginam uma galinha a ser depenada ou um cabrito a ser degolado, no entanto dificilmente fazem a relação directa entre esse momento e o bife que veem à venda no talho ou no supermercado. 
Há um distanciamento e um desconhecimento confortável entre o consumidor e a proveniência do alimento.
A própria origem da fruta e dos legumes é terreno meio nebuloso, sabem que crescem na terra mas pouco mais do que isso.
Vivemos assim esta ignorância que nos afasta totalmente da relação com o que comemos e que promove também uma enorme desresponsabilização face ao mundo onde vivemos.
Cá em casa andamos a querer contrariar esta realidade.



Hoje é fácil cair numa alimentação deficitária, sem ter grande noção disso, tal como o Homeopata Dr. Nuno Oliveira referiu em entrevista: " Acredito que a sociedade actual tem muitos problemas de sub nutrição, não por falta de alimentos, como infelizmente sabemos que acontece em muitos países no mundo, mas por falta de nutrientes. Comer muito, não é sinónimo de nutrir. Podemos comer em exagero e não estar a nutrir as nossas células e esta prática culmina em doença.".

No entanto nunca houve tanta informação como actualmente, tanta gente a falar sobre alimentação saudável, livros fantásticos com receitas deliciosas, tanta oferta e cada vez mais acessível, tanto ao nível da quantidade como dos preços e ainda assim este assunto é, para muitos, um verdadeiro bicho de sete cabeças.
As muitas questões como: Como mudar, por onde começar? o que ter em casa? receitas práticas com ingredientes que eu conheça e saiba onde comprar? preços?, e acima de tudo: Como fazer com que os miúdos gostem? São as que mais encravam o processo e nos dificultam a acção.
Cá em casa estamos aos poucos a introduzir alterações num caminho de tomada de consciência e de vontade de mudar e é esse processo que aqui queremos partilhar.

Comemos peixe e carne, embora cada vez menos e de proveniência conhecida, não seguimos nenhum tipo de alimentação especial e não somos mais do que curiosos neste assunto. 
O nosso objectivo é apenas o de contribuir de forma prática para algumas alterações nas nossas casa, com a apresentação de soluções e estratégias simples e exequíveis, preferencialmente que incluam toda a família.
Acreditamos que sozinho não vamos longe mas que a família é uma equipa fantástica para se unir e, juntos, alcançar bons resultados nesta forma de ser mais saudável e feliz.
Se a ideia é mudar para uma atitude mais consciente é um bom princípio que todos tenham consciência da intenção da mudança!



Esta é a primeira de várias publicações dentro desta temática e vamos contar com a colaboração de alguns experts na matéria que aqui partilham receitas.
Eu vou complementar com informações práticas que podem ajudar a tornar estas mudanças de hábitos mais eficazes na vida em família numa lógica "grão a grão, enche a galinha o papo" ou ainda melhor " Roma e Pavia, não se fizeram num dia".

Integrar os miúdos no processo todo é uma forma de os fazer sentir parte, criar essa noção de pertença faz com que mais facilmente colaborem e se envolvam.
Levá-los às compras, explicar o porquê das nossas escolhas, adaptando obviamente à sua capacidade de compreensão, é uma estratégia simples de aproximação.
Por exemplo falar da importância de comprar produtos nacionais, do impacto que isso tem na economia nacional, o consumo de combustível que envolve importar fruta e legumes com consequente impacto ambiental.
Estes assuntos são facilmente entendíeis e fazem todo o sentido para as crianças, levar estes assuntos para a escola pode ter excelentes repercussões e dar um protagonismo bom aos nossos filhos no contexto escolar. Se um dos pais tiver disponibilidade para ir falar disto à turma ou lançar um tema para um trabalho, ainda melhor!
Fazer da cozinha um espaço acolhedor, divertido e partilhado é meio caminho para conseguir bons aliados na introdução de novidades.
Cá em casa são sempre os filhos que arrumam as compras, essa é também uma forma de os colocar em campo e os tornar parte integrante.
A cozinha deve ser um espaço criativo, eu tento não me fixar na desarrumação que fazem quando estão a participar, vou dando conselhos para que não fique um caos absoluto mas não me preocupo demasiado com a desarrumação.
No fim limpamos e essa tarefa faz parte, sempre.

Na vida em geral a organização e o planeamento são chaves para o sucesso. Neste campo da alimentação é mesmo basilar. Cá em casa todas as vezes que comemos mal tem a ver com falta de organização.
Mas isto não implica passar por ter um menu semanal feito pontualmente ao domingo, ou saber com a antecedência de 3 dias o que vamos comer ao jantar, trata-se acima de tudo de ter uma dinâmica funcional na gestão da despensa e frigorífico e antecipar as situações.


Apresentamos também alguns Problemas & Soluções que temos vindo a encontrar neste caminho.
Estas são as nossas primeiras ideias deste género, se tiverem para a troca mandem daí!

Problema
Vou demasiadas vezes ao supermercado o que me faz comprar coisas a mais e muitas vezes esquecer-me do que realmente fazia falta.
Aqui está uma coisa que me acontece muitas vezes! Falta-me azeite, vou ao supermercado de propósito mas, entusiasmo-me com o cheirinho do pão acabado de fazer e pronto, trago azeitonas, uma garrafa de vinho... já agora um mimo para os miúdos, e tostas, e queijo fresco que acabou de chegar, guardanapos, porque acho que estão quase a acabar e... esparguete, que dá sempre jeito.
Chego a casa: Bolas! esqueci-me do azeite.
E pronto lá arrumo o 6.º pacote de esparguete, arrependida de ter gasto 18€ em coisas que não faziam propriamente falta.
Solução
Um caderno, uma ardósia, um bloco pendurado no frigorífico. Qualquer coisa onde TODOS os elementos da família possam escrever o nome do produto que está a acabar. 
Regra de ouro: ao abrir o último escrever logo na lista.
Cá em casa funciona e até o BoNheko já se lembra de apontar quando é ele a tirar o último pacote.
Outra dica mundialmente conhecida é o nunca ir às compras esfomeado ou sem saber bem o que se vai comprar. A barriga cheia e as listas são boas amigas.

Problema
Gosto das alfaces do mercado e da horta, as que vêm cheias de terra e (felizmente) de lesmas e mosquitos.
As minhas filhas preferem que eu compre salada já lavada e arranjada, aqueles sacos que há nos supermercados e que chamam por nós de forma sedutora e quase irresistível.
Eu não compro. É mais caro, aquelas alfaces estragam-se num instante e para mim são demasiado assépticas.
Solução
Todas as crianças gostam de brincar com água! Uma bacia grande na mesa do terraço e o mini rapaz lava delicadamente cada folha de alface enquanto solta em liberdade as lesmas que a acompanham.
No inverno fazemos isso no lava louça. Depois de sacudidas e limpas as folhas são guardadas com folhas de papel absorvente em caixas ou em sacos perfurados (há uns fantásticos tipo os do pão, com milhares de furinhos que deixam os legumes respirar e assim duram muito mais). Há uns instrumentos de cozinha, tipo secadores de legumes que rodam a grande velocidade e secam as folhas, são giros e funcionais mas nós não temos.
As adolescentes preguiçosas agradecem a dedicação da mãe e do mano caçula.

Problema
O leite. Cá em casa havia o hábito de beber leite, muito leite, dois litros no mínimo por dia. Quisemos deixar de beber leite de vaca e depois fizemos as contas. Ficámos com um problema.
Solução
Temos uma Bimby, fazemos diariamente sumos enquanto o diabo esfrega um olho.
Também fazemos leite: leite de amêndoa, de cajú, de soja, de aveia. Não é rápido, exige tempo e disponibilidade mas o processo é lindo, parece alquimia. Viver o processo faz com que valorizemos o resultado - uma verdade de La Palice, este leite que fazemos com rigor é usado com muito critério e saboreado como um verdadeiro mel.
Depois ainda podemos secar a amêndoa, o cajú ou lá o que for no forno, misturar com outros frutos secos, aveia, sementes e mel e fazer um género de barrinhas caseiras. Isto são receitas que se obtêm com muita facilidade na internet ou livros de cozinha.
São coisas para fazer nas férias, fins de semana ou quando estão doentes e têm de ficar em casa. Também pode ser um programa a fazer entre amigos num domingo à tarde. A maioria dos amigos acha estranhissimo mas gosta.


Problema
Não tenho tempo nem vontade de fazer jantar! - As razões podem ser muitas, agora que os dias estão enormes e que só apetece estar na rua isto acontece com muita regularidade cá em casa.
Solução
Criar na dispensa uma zona de produtos chave para receitas rápidas mas equilibradas. Tomate seco, cogumelos desidratados, frascos de azeitonas e conservas variadas: espargos, alcachofra, milho, ervilhas, beterraba. Para nós é fundamental também ter ovos.
Receitas como alho francês e couve coração salteados em azeite no Wook com uns belos ovos escalfados. É de comer e chorar por mais.
Nota: Vivemos numa zona onde é fácil ter acesso a ovos caseiros, é uma actividade que todos os miúdos gostam, ir buscar ovos.
Há um livro girissimo do Planeta Tangerina que lemos muitas vezes e que repetimos de cor e salteado cada vez que vamos aos ovos: "Mas como é que uma galinha..."


Fotografias Vitorino Coragem

A nossa primeira convidada deste À Volta da Mesa é a Catarina Gonçalves, uma Engenheira Civil com grande paixão pela cozinha que ganhou coragem e arriscou acreditar nesse seu grande amor. 
Hoje é dona do fantástico Restaurante Ao 26 - Vegan Food Project e a responsável pela carta inegualável de sobremesas que aí encontram.
As receitas que se seguem são das favoritas dos seus dois filhos mais crescidos, a Luísa e o Lourenço.

Barritas
Ingredientes: 
100g de flocos de quinoa
85g de amêndoas palitadas
125g de pistachios cortados grosseiramente
50g de caju cortado grosseiramente
20g de sementes de abóbora
80g de passas
20g de coco ralado
55g de sementes de linhaça
240g de manteiga de amêndoa
80g de geleia de arroz
Preparação: 
Juntar todos os ingredientes secos numa taça e seguidamente envolver com a geleia e a manteiga de amêndoa.
Forrar um tabuleiro quadrado com papel vegetal e espalhar a mistura.
Colocar no congelador por 2 horas.
Retirar e cortar em forma de barritas.
Guardar no frio.

Panquecas com Nutella Vegan
Ingredientes:
2 colheres de sopa de açucar de cana integral
1 cup de farinha
1 colher de sopa de fermento
pitada de sal
2 colheres de sopa de óleo vegetal
1 cup de leite vegetal
Preparação:
Juntar os ingredientes secos numa taça e noutra taça o leite e o óleo vegetal.
Juntar os secos e os líquidos mexendo muito bem.
Untar uma frigideira com óleo vegetal e colocar uma colherada de massa.
Deixar cozinhar e virar do outro lado. repetir até terminar a massa.
Servir com Nutella Vegan.

Nutella Vegan
Ingredientes:
3 cups de avelãs tostadas
2/3 cup de chocolate vegan
pitada de baunilha
pitada de sal
1 colher de geleia de arroz (opcional)
Preparação:
Triturar num processador de alta velocidade as avelãs até obter uma manteiga (cerca de 10 minutos). Derreter o chocolate em banho-maria e juntar à manteiga de avelã.
Provar, se precisar de ser adoçada juntar 1 colher de sopa de geleia de arroz.

Informações complementares:
Cup é uma medida que equivale a 250 ml.
Estes produtos estão na sua maioria disponíveis em supermercados como o Brio ou Celeiro embora já haja muitos acessíveis nas grandes superfícies.

Muito obrigada Catarina!

Fotografia Pau Storch
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10 comentários:

  1. AMEI!!
    Obrigada 😊
    E quero mais sff

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  2. Obrigada pela partilha, gostei imenso! Beijinho

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  3. Adorei !!! Tudo tão mas tão verdade mesmo . Um beijinho

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  4. Que partilha tão franca e tão real!! Adorei, Alexandra! Somos 4 cá em casa, temos dois filhos, dois rapazes, e este é para mim um tema central e muito presente. Nunca tomei, infelizmente, grandes medidas, nem tão organizadas, como aqui propões, mas faço regularmente e de forma insistente aquilo que chamo uma espécie de "pedagogia" sobre comer bem, comer melhor e mais saudável. Tento dar eu própria alguns exemplos, conforme lhes mostro o que como, as escolhas que faço e aquilo a que dou preferência. Quando estou mais animada e motivada tendo a acreditar que "água mole em pedra dura...", mas confesso que os resultados são muito poucos e, nos outros dias, fico um pouco desalentada. Nessas alturas penso que estes ensinamentos ficam e que talvez um dia se lembrem e comecem a pô-los em prática.
    Muito obrigada por esta partilha e a aguardar as seguintes.
    Beijinho

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    Respostas
    1. Susana, eu acredito muito que ficam, pode não parecer mas vai lá ficando. A consciência que os miúdos vão tendo do mundo que os rodeia vai ser decisiva na tomada das suas opções no futuro. Sejamos insistentes :-)

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  5. Que boa partilha.... parecido aqui ....

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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