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O dia em que és Pai

Nas últimas semanas enviei um pedido muito especial a uma série de pais que nos rodeiam, pedi-lhes que, tendo como inspiração esta imagem maravilhosa captada pelo fotógrafo Nuno Fontinha no momento exacto do nascimento da sua filha Julieta, se deixassem transportar numa viagem através do tempo recordando o que sentiram quando se tornaram pais.
Agradeço do fundo do coração a generosidade destes cinco homens que pararam as suas vidas e, num momento presente, voltaram ao passado para reviver o dia em que a vida mudou para sempre.
Especialmente a eles, mas também a todos os outros, desejamos um Dia do Pai bem vivido e desafiamos todos a experimentar este exercício de memória e reviver aquele momento único!

Fotografia Nuno Fontinha


"Nasceu o Nuno e a vida continuou. 
Como tem que ser, continuou mas trouxe-me uma alegria que não sei bem explicar. 
O maior fruto do meu casamento na minha mão, pequenino e dependente. 
Responsabilidade grande, alegria gigante. 
Quando peguei nele pela primeira vez, olhei-o fixamente. Só pensava: - Como é que fomos fazer uma coisa destas, tão bonita e tão perfeitinha. 
Passou uma semana e pouco e sempre que lhe pego ao colo, pergunto-me a mesma coisa outra vez. 
É realmente uma maravilha ser pai. "
João Só, Músico


"Quando a Alexandra me abordou para contribuir para esta reflexão sobre a paternidade, achei logo que sim. Que sim, porque ser Pai é extraordinário. 
Desde esse momento de ansiedade que nasce logo na cadeira da sala de espera junto ao bloco de partos até ao momento mágico da chegada da nossa bebé aos braços. E depois pela vida fora. No meu caso foi este o momento mais emotivo de todos. Como estava tudo marcado para ser uma cesariana, ficou desde logo posta de parte a hipótese de assistir ao parto e como eu nunca desmaiei na vida já antes tinha achado que mesmo que assim não fosse, nunca iria ser aquela a primeira vez que aconteceria. 
Eu sou a última pessoa que alguém quer ter numa sala de partos a “oferecer apoio, força ou a tentar acalmar…”. Pobre da mãe. Jamais. 
Eram 11h26 da manhã de uma terça-feira de Agosto em 2007 quando finalmente uma enfermeira com o ar mais displicente e sabido do mundo, se chegou junto a mim na antecâmara da sala de partos e me largou, literalmente, nos braços um “embrulho” feito de cobertores e pequenos lençóis e um bebé, enquanto dizia em tom jocoso com um ar matreiro “É o Pai? Então tome!”, como quem diz - Toma lá e aguenta-te à bronca. 
Olhei para Ela com o ar mais aparvalhado do mundo, sem perceber muito bem o que me estava acontecer e em segundos não existia mais nada. Só conseguia ouvir o seu choro e a voz da avó materna que ali estava ao meu lado igualmente emocionada à espera de poder segurar a neta ao colo pela primeira vez. Mas calma que Pai é Pai, já lá vai. Aquele era o meu momento, o de perceber que para além das lágrimas que me caiam pela cara abaixo e de alguma falta de força nos braços (porque vá lá perceber-se, jeito sempre tive), claramente provocada pela emoção da situação, acabava de perceber que o mais importante estava ali. Era Ela, a minha filha, a minha Eva, ainda mal tinha chegado ao mundo cruel dos seres humanos e já era o ser mais importante de toda a minha existência...E agora? Agora siga, não há como vacilar...passei o “embrulho” à avó que ali chorava baba e ranho, respirei fundo e perguntei quando podia ir ver a mãe. - “Daqui a pouco, ainda não pode ser!” E quando pôde fui. 
E o resto é a história da nossa vida nos últimos quase dez anos. Vê-la crescer e ganhar vida e personalidade e ensinar-me a ser muito melhor pessoa (porque não faz o menor sentido impor porque sim e não dar o exemplo) e a fazer de mim o Pai mais orgulhoso do mundo. 
Hoje e sempre porque ser Pai é maravilhoso. 
Viva a Eva!"


"Os nascimentos de minhas duas filhas foram cercados de ansiedade e nervosismo. 
A gravidez é um período mágico em que não temos controle de nada: se será menino ou menina, se terá olhos verdes, cabelo loiro, saúde perfeita. 
Nossa vida irá mudar naquele momento, é único e sublime. 
Segurar minhas filhas pela primeira vez no colo e acalma-las é o princípio da maior aventura que um homem pode experimentar."


"Estou num voo a caminho de São Miguel nos Açores e penso que pela 1ª vez não vou passar o dia do Pai com as minhas filhas, a verdade é que o dia do Pai é todos os dias e celebrar-se num dia não passa de uma convenção da sociedade (?). Isso seria o meu primeiro impulso mas de facto ter de escrever sobre a experiência de ser Pai faz-me pensar de outra forma. 
Ando a correr todos os dias, levar a Ema para a escola, a Camila já vai de autocarro, de vez em quando ir ao ginásio, do atelier para as aulas, da Parede para Cascais ou Lisboa, de Cascais para Lisboa, alguém tem que ir buscar as miúdas, quando dá para fazer uma surfada-vou, o banho da Ema, jantar, (agora a Camila não come carne, a Ema é esquisita a comer ), ou já vêem jantadas de casa dos avós, arrumar a cozinha, dormir. 
Quando a Alexandra / Nheko me pediu para contar o dia em que deixei de ser apenas filho e me tornei pai, nunca pensei que fosse tão profundo voltar a essa memória. 
Desacelerar, voltar 14 anos atrás e relembrar-me de tudo o que tinha acontecido... 
Tudo começa em casa em 2002, já tínhamos nome ( iria chamar-se Camila ), tinham passado 42 semanas e não havia maneira de começar o trabalho de parto, quando subitamente às 02:00 da manhã, a Inês começa a sentir um pequeno formigueiro ( agora sabemos que eram umas contracções muito leves) mas na altura ela disse-me "estou a sentir contracções", cronometramos e eram regulares mas esquecermo-nos de uma parte da teoria das aulas de preparação para o parto e dos muitos livros comprados (que deveriam ser dolorosas ou fortes). 
Lá nos metemos no Golf ( adorava aquele carro) todos contentes e ao mesmo tempo assustados, não porque íamos para o hospital de Cascais ( o antigo ) mas porque íamos ser pais. 
Subimos às urgências de obstetrícia, tocamos à campainha e esperamos, uma porta abre-se e de uma sala meio às escuras apareceu uma enfermeira, lá contamos os detalhes como bons entendedores da matéria e entramos para fazer um ctg ou uma coisa do género. 
Agora já não me lembro bem a que altura é que entra o médico acabado de acordar, conclusão ainda faltava muito tempo. " Então vou para casa e volto cá quando isto estiver mais avançado" disse a Inês - resposta do médico " não senhora, fica cá !" - a Inês insiste em vão, mas tinha que ficar, eu não pude ficar e vim para casa. 
Já em casa, passam-me milhares de coisas pela cabeça; Como é que vai ser? Como é que ela vai ser? Vai correr tudo bem? Vou poder assistir ao parto? E se começar agora a entrar em trabalho de parto e eu aqui em casa, vou conseguir registar o momento? Tenho a câmara e as cassetes mini dv prontas? Qual a câmara que vou usar e que filme p&b ou cor? 
Não conseguia dormir, então decido fazer limpezas para estar tudo impecável quando elas chegassem a casa, até começou bem; a aspirar ( não sei se os vizinhos apreciaram ), limpar e quase a chegar ao fim, mudar a água do aquário, pego no aquário redondo por cima com uma mão e claro, parte-se na minha mão com o peso da água. Salvo o peixe e tento secar tudo o que está molhado e principalmente apanhar muito bem todos os vidros, logo agora que vai haver uma bebé em casa... 
Lembro-me de fazer tempo na cama para aparecer a uma hora mais decente lá no hospital, pela manhã, bem cedo, estou eu em Cascais, entro na sala mas agora estava banhada por um sol radiosa que inundava o espaço e a Inês deitada de lado com ar cansada ligado a soro e monitorizada, já com ar que as contracções deveriam ser mais dolorosas, lembro-me naquele momento de sentir um amor infinito... Beijo-a e via nela que o momento estava próximo, sempre ao seu lado hidratando-lhe os lábios com um pano molhado, as contrações vinham cada vez mais dolorosas, a certa altura deram-lhe um sedativo um pouco mais forte e lembro-me de ela dizer algo e o enfermeiro riu-se. 
Havia equipes de médicos e enfermeiros que passavam para perceber como estava o trabalho de parto, a dilatação, etc... Até que um médico dá o veredicto o bebé está em sofrimento temos que fazer cesariana, despeço-me e levaram-na para o bloco e eu fiquei ali parado sem poder acompanhá-la num momento tão especial (estávamos num hospital público e nas cesarianas não deixavam assistir). 
Ainda hoje responsabilizo aquele médico por me ter privado deste momento, é óbvio que o que interessa é estar tudo bem e a minha filha nascer saudável. 
Felizmente 10 anos depois pude assistir ao nascimento da minha segunda filha... 
Lá estava eu sozinho num corredor pequeno, à porta do serviço de Obstetrícia do antigo hospital de Cascais, não ia poder apoiar e partilhar este momento com a Inês, não ia cortar o cordão umbilical, não ia fazer a tão famosa foto do nascimento do 1° filho, resumindo tudo o que tinha fantasiado não estava acontecer mas estava feliz, " à nora" mas feliz. 
Só me lembro de pensar como é que ia ser a partir de agora, o que era ser pai? Queria que corresse tudo bem, queria vê-las, beija-las, entretanto chegaram uns grandes amigos que estiveram ali comigo a apoiar-me, depois foi a vez da família e de repente estava rodeado de pessoas que eu amava e o tempo passava um pouco mais depressa... 
Lembro-me que o corredor era junto a uma escada e perto da porta do serviço havia um elevador. Foi precisamente neste elevador que eu vi a Camila pela primeira vez, estava de frente, as portas abriram-se e de repente saem de lá uns enfermeiros com um berço de acrílico transparente, já não me lembro quem disse que era a minha filha, mas de repente estava tudo em slow motion, o meu foco estava naquele pequeno ser cheio de cabelo preto, passaram por mim, eu só olhava e a acompanhava, os sons à volta estavam turvos, sentia uma plenitude e felicidade como nunca tinha experienciado, tinham sido os segundos mais longos da minha vida... Do elevador até à porta da maternidade. 
Umas horas depois a Inês sai do elevador beijo-a e sinto-me abençoado por ter, a partir daquele momento, uma família minha, ela pergunta-me pela Camila eu disse-lhe que estava tudo bem, que era linda e cabeluda, e que agora ia estar com ela, também entrou pela porta da maternidade. Eu e os outros todos ficamos cá fora à espera da hora da visita mas aqueles momentos de felicidade já ninguém mos tirava, eram meus. 
Tinha 28 anos quando a Camila nasceu e sei que foi um dos acontecimentos mais importantes da minha vida pela primeira vez tive que recentrar-me, deixei de ser o centro e passou ela a ocupar este espaço passaria a pensar primeiro nela e depois em mim portanto tornou-me numa pessoa melhor, mais altruísta e feliz. 
Ser pai de duas meninas fez de mim um homem mais compreensivo e mais completo, continuo a aprender a ser pai todos os dias e talvez para mim este dia do pai seja diferente, no meio do oceano relembrar-me e partilhar este momento faz-me estar com elas, sempre!
Açores, São Miguel- Pico de Refúgio, 2017"
João Paulo Serafim, Visual Artist


"A memória é uma construção, sempre. Falo de uma ideia que construí, que construí sobre aquele momento.
O dia não era para ser aquele, só estava programado para um mês depois o que condicionou bastante a forma como vivemos o momento. Nós íamos jantar fora e aconteceu a meio do caminho, rebentaram as águas e a partir daí entrou tudo num processo pragmático de necessidade-resposta. 
Eu tinha, acima de tudo, que ser eficiente. Ir ao hospital, deixar a Ana, ir a casa buscar a mala, preparar tudo o que não estava preparado por não ser a altura prevista.
Ia ser Pai, sim, mas eu já sabia disso há uns meses, tudo ia mudar, ok mas eu não sabia bem o que é que isso queria efectivamente dizer.
Foi passar de 2 a 4, houve a nítida consciência de que a partir dali seria responsável por aqueles dois novos seres.
Foi um parto de risco. Lembro-me de coisas como: 51cm, 49 cm, um quilo novecentos e cinquenta, dois quilos e cem. 
Eu não assisti e cheguei quando os estavam a fazer chorar, estavam ao contrário e a Maria não "arrancava", o que depois se revelou ser um "estilo próprio", ela, cada vez que chorava, demorava a emitir som. 
Tudo isto são fragmentos, são imagens, são informações que ficaram registadas.
Eu estou a trabalhar sobre a memória neste momento, sobre este processo de construção. Se nos pedirem aos dois para relatarmos um acontecimentos que ambos vivemos juntos há 10 anos atrás vamos referir coisas diferentes sem que nenhum de nós esteja a mentir, há uma interpretação e associação de factos que é pessoal e que nos leva ao que reconhecemos como a memórias de um acontecimento."
Júlio Alves, Film Director
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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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