/ 9.2.17 / 3 Comments / , , , ,

Fernando Alvim, o eterno adolescente


Nasceu em 1974 no Porto, faz rádio desde os 13 anos e sempre leu vários livros ao mesmo tempo. O pai chamava-o obstinado e ele transformou esse defeito na sua melhor qualidade.

Entrevistar o Fernando Alvim é mais delicado do que pode parecer à primeira vista; o que acontece é que este comunicador incrível, entusiasma-se tanto que, sem darmos conta, passamos de entrevistador a entrevistado e instala-se uma bela rebaldaria na conversa. Ele antecipa os assuntos como se conhecesse o guião e transforma a estrutura  pergunta / resposta numa amena cavaqueira sem interrupções onde os assuntos se vão seguindo uns aos outros num encadeado entusiasmante. 
Obrigada Fernando Alvim, foi uma bela conversa a nossa!


Casa
A minha casa é a casa mais normal do mundo, é a casa de um solteiro.
A parte mais moderna é a casa de banho onde fiz obras, eu até gostava de fazer mais obras mas o processo é horrível, eu fugi, durante 15 dias vivi num hotel.
Aqui há centenas de livros, é sempre natal porque a árvore está sempre montada, tenho uma máquina de preservativos, um espaldar no quarto para dar a pala que sou um desportista e em todas as divisões reina o caos.
Há uma parte da minha casa que eu gosto especialmente que é a minha dispensa, ela não tem nada de especial, tem a minha colecção de sapatos, tenho há anos o patrocínio da Adidas, mas é aqui que gravo o meu programa para a Antena 3, o A3.30, tenho imenso orgulho nisto, adoro! Tenho aqui o meu microfone, sento-me aqui e gravo quando quero, é fantástico.



Pronúncia do norte
Estou em Lisboa há 20 anos mas a verdadeira razão é outra. Eu comecei muito cedo a gravar publicidade e a ganhar dinheiro com isso e percebi que se tivesse pronúncia isso me ia impossibilitar de fazer este tipo de trabalho. Eu esforcei-me por deixar de ter pronúncia e é uma coisa difícil por que tu não te apercebes bem que tens, eu vejo a minha família, têm uma pronúncia bem carregada mas sem ter noção disso. Eu consegui "limpar" a minha porque isso me ia hipotecar possibilidades de trabalho, não renuncio as minhas origens de maneira nenhuma mas no trabalho que faço era prejudicial ter a tal pronúncia do norte.


Mota
A minha mota faz parte de mim, é mesmo uma coisa importante na minha vida. Eu trabalho imenso em casa e até à última, saio sempre directo para onde tenho de ir e o facto de ir de mota é o que me assegura que chego a tempo. Eu faço rádio, não posso chegar atrasado é uma condição do meu trabalho, faço a Prova Oral há 15 anos e se cheguei atrasado 2 ou 3 vezes é muito, só consigo isto por causa da mota.


Família
A minha vivência da família foi muito afectada com a minha vinda para Lisboa porque toda a família é e vive no Porto.
Eu acabei por me ir desligando ao longo destes anos todos, foi um processo progressivo e natural, embora eu goste muito da minha família eu não sou daquelas pessoas que não pode viver sem ela.
As minhas irmãs têm mais cinco e três anos que eu e são mais ligadas entre si, eu sou assim, gosto muito deles mas vivo meio isolado e sem vivência próxima e regular da família.
Visito-os sempre que vou ao Porto e nas épocas de festa como o natal.


Infância
A minha infância foi incrível, foi passada na Foz do Douro, as minhas memórias são fantásticas, era uma criança super feliz, muito eléctrico e a querer fazer muitas coisas, sempre fui assim.


Obstinado
O meu pai "acusava-me" de ser obstinado, dizia isto no sentido mais pejorativo do tema mas eu percebi que isso podia ser uma coisa boa. Eu não quero com isto parecer as noivas de Santo António a quem quando perguntam qual o seu maior defeito e elas respondem "Ai e tal, eu sou muito teimosa..." porque sabem que isso é um "não defeito". O obstinado aqui tem mesmo um lado mau que muitas vezes me afectou mas acima de tudo ajudou-me, porque eu dei um bom uso a esta minha característica. Eu também sou orgulhoso e isso já não me ajuda nada, só me prejudica.


Líder
Sempre fui muito activo e em miúdo comecei logo a envolver-me em muita coisa, era eu o delegado de turma, depois o presidente das associações de estudantes, sempre tive esta coisa de ser muito popular, tinha o poder da palavra e embora dissesse muitas "javardices" as pessoas gostavam que eu as representasse, que falasse pelo grupo. Eu comecei cedo a ser o líder dos grupos onde estava inserido e isso foi-se revelando uma coisa importante para mim.


Quando for grande quero ser...
Comecei a fazer rádio aos 13 anos, até essa idade eu só pensava em jogar à bola e andar atrás das miúdas que é exactamente o que se deve pensar nessa idade. Tinha dois amigos de infância que eram um bocadinho mais velhos e que começaram a fazer rádio, era aquela altura das rádios piratas, e eu comecei a ir com eles. Achava incrível e comecei a experimentar e de repente aos 13 anos eu estava a fazer rádio e a achar que era aquilo quer queria fazer para sempre. Até podia ter sido uma paixão passageira que se desvanecia com a idade mas não foi e aos 16 anos comecei a ganhar dinheiro e aos 17 ganhava muito dinheiro, uma enormidade para um miúdo daquela idade.
Isto rapidamente me levou a uma autonomia pessoal, nunca mais pedi dinheiro para nada e construí a minha total independência.


Educação
Os meus pais aceitaram esta inevitabilidade, nunca se opuseram mas não deve ter sido fácil, acho que foi mais ou menos tranquilo embora eu fosse visto sempre como o "cavalo selvagem" da casa, as minhas irmãs eram super certinhas e conservadoras nas suas opções, elas eram óptimas alunas, eu nem o curso terminei.


Trabalho
Estou com muito trabalho é uma expressão que me acompanha há anos, está o caos! é outra. Sempre me envolvi em muita coisa, não me lembro de viver de outra forma, trabalhar muito e de forma intensa é a minha forma de viver. Lembro-me de há uns quatro anos, na altura em que rebentou a crise eu fiquei com menos coisas, em vez de estar em oito projectos fiquei só com três ou quatro e senti-me altamente deprimido. Para mim é impensável por exemplo fazer só rádio. Eu não me lembro de um dia em que não tivesse nada que fazer, sem compromissos e trabalhos e várias coisas. Acordar e pensar: Não tenho nada que fazer! para mim é humanamente impossível, não dá! Mesmo quando vou de férias, a partir do quinto dia começo a entrar num estado meio frenético, as ideias acumulam-se e eu tenho de lhes dar vazão, é terrível.


Síndrome Alvim
Falaram-me há pouco tempo disso, sofrer do síndrome Alvim, alguém que tem de estar sempre envolvido em milhentas coisas ao mesmo tempo.
Na verdade eu preciso mesmo desta diversidade de funções para não me entediar de nenhuma delas. É assim como se só comêssemos um só prato, mesmo que gostássemos muito íamos acabar por nos fartar, mas se alternarmos entre vários sabem-nos sempre bem. Daqui a chegar ao conceito da poligamia é um instantinho e é melhor não seguir por aí...


Amor
Embora não se conheçam grandes relacionamentos eu vou tendo alguns com o devido cuidado de não os expor.
Eu sou grande defensor da paixão em detrimento ao amor. As pessoas defendem muito o amor e acham que a paixão não merece grande atenção porque é fugaz, "isso vai passar", mas eu não sei gostar sem estar perdidamente apaixonado, eu nunca chego ao estado do amor porque se saio da paixão já não estou lá. Sempre namorei perdidamente apaixonado, sou tarado pela pessoa pela qual estou apaixonado, isso caracteriza-me e não é fácil viver com isto, é um estado febril quase.
Mas eu acho que as coisas estão a mudar e até nos relacionamentos pode estar a surgir aí algo novo que eu já pratico. Há um novo tipo de relacionamento entre as pessoas que implica envolvimento mas sem os padrões que a sociedade dita, não somos namorados mas fazemos coisas juntos, saímos, vamos ao teatro, dormimos juntos mas não temos 2 escovas de dentes juntas na casa de banho. Não sei se a nossa sociedade está pronta para isto mas eu, já lá estou!
Eu não consigo conceber a minha vida num casamento tradicional, com um emprego estável, filhos...


Filhos
Quero imenso ter filhos, não sei quando mas sei que vai acontecer.
Quando me perguntam eu falo sempre de dois exemplos, o Zé Pedro que se casou aos 55 anos e é um homem feliz, que adora estar casado e por outro lado o pai do Júlio Iglésias que foi pai aos 84 anos, tão tarde que nem chegou a conhecer esse filho, morreu antes da criança nascer. Eu não quero que isso me aconteça, é lamentável, não quero ter um filho aos 84 anos, até acho que esta minha idade agora era boa.
Eu gosto muito de crianças, crio grande empatia com elas. Sinto sempre que elas me compreendem, sinto-me muito próximo delas mas sem isto ser um tipo de síndrome Peter Pan, só não me vejo como um homem feito, não tenho mentalidade adulta.


O eterno adolescente
Eu nunca serei como alguns amigos meus que optaram por se tornar uns verdadeiros homenzinhos, eu sinto-me sempre como um puto crescido e as pessoas trata-me exactamente como isso. Mas não é um processo de crescimento em que estou a caminhar para ser um homem feito, o meu caminho é noutro sentido. Sou um puto com 42 anos e gosto disso.
A maior parte dos criativos que conheço são muito infantis, a infância está mais perto da essência, não há criança que não seja criativa.


Felicidade
"Feliz a 100% é 100% pateta feliz", dizem os Clã e eu concordo com isso.
Eu acho que nós atingimos a supremacia da felicidade quando somos crianças e também acho que muitos andam a vida toda à procura de voltar a sentir essa felicidade mas isso não é possível, é irrepetível.
Da mesma forma que é na adolescência que a paixão assume dimensões inimagináveis, eu, a única vez que me quis casar foi aos 13 anos com a minha primeira namorada, foi uma paixão quase doentia e parece que ando a vida toda à procura daquele estado de êxtase que ali vivi. 
Impossível, não existe mais.

Fotografias Pau Storch
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3 comentários:

  1. adorei! super interessante, este Alvim! não há ninguém como ele.

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  2. Olá,

    Penso que "alternar-mos", esteja errado e seja antes alternarmos.
    Gosto muito de passar por aqui!

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    Respostas
    1. Obrigada, já fiz a correcção.
      Gosto muito que passes por aqui.
      Abraço!

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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