/ 23.1.17 / 2 Comments / , , , , ,

Não é matemática mas a regra é adicionar e não subtrair, é dar mais em vez de (re)tirar


Nos últimos tempos tenho-me debatido com uma questão nova, o meu filho pequeno e os jogos digitais.
O Bonheko adora jogar a toda a hora: no carro pergunta se temos internet no telemóvel e em casa preocupa-se se o tablet tem bateria. Joga jogos de futebol e de construções da lego. 
Eu detesto! Eu reajo, eu esperneio, eu pasmo. Luto, resisto e paro. 
Paro para pensar e reflectir sobre o porquê de isto acontecer e acima de tudo a razão porque me incomoda tanto. E ando para trás no tempo, recuo 10 anos. 
Quando as manas tinham esta idade não havia a vivência que há hoje destes aparelhos, os telemóveis eram para telefonar e nem hábito de ver televisão havia em nossa casa. Elas eram três e mesmo os jogos que são para uma só pessoa como o solitário ou as paciências de cartas, elas arranjavam forma de fazer em conjunto.
Eu tinha um horário de trabalho e findo o mesmo o meu tempo era delas. Em casa fazíamos grandes sessões de pintura, de dança, de teatro, havia uma sala só para brincar e um terraço com baloiço.


Mudaram-se os tempos, as vontades e o cenário.
Hoje vivemos num sítio que tem um exterior fantástico mas que acaba por ser pouco atractivo para uma criança pequenina estar a brincar sozinha, precisa de companhia, precisa de alguém que brinque com ele e na verdade nem sempre há quem o faça. 
Hoje os telemóveis são a extensão dos nossos braços, estamos sempre contactáveis, precisamos de ver as redes sociais com grande frequência e respondemos quase sempre de imediato a SMS's, e-mail's e Whatsapps que recebemos constantemente. Os nossos telefones perpetuam as nossas vivências, utilizamos para captar os momentos que estamos a viver e assim torná-los mais fortes.
Entrámos num frenesim tal que ficámos dormentes, vamos arrastados pela corrente e a velocidade é tal que não há tempo para questionamentos.
E neste caudal vamos descendo o rio e levando a reboque os que já nasceram nestes tempos.
O Bonheko vive com 5 pessoas que têm telemóvel e que o utilizam a toda a hora.
Além disso o Bonheko é hoje, em grande parte do tempo, filho único. 
O Raúl aos 4 anos sabe melhor mexer nestes aparelhos que muitos adultos e gosta, claro que gosta.


Nestes últimos meses em que me senti a ficar encurralada e a precisar de tomar consciência desta realidade, enquanto esperneava e procurava fora de mim respostas para esta questão, caí na tentação mais banal: criar a regra, O Bonheko só pode jogar ao fim de semana, e esta é chamada a regra de ouro. Partilhei nas redes sociais esta minha epifania e a comunidade aplaudiu! Eu senti-me pessimamente e este desconforto foi-se apoderando de mim até me tirar totalmente o sono.
Primeiro achei que era porque tinha receio que o fruto proibido se tornasse verdadeiramente o mais apetecido e me saísse o tiro pela culatra, mas rapidamente percebi que era bem mais do que isso, era uma questão de estar a contrariar os meus princípios básicos. 
Na nossa casa, embora haja regras, não há propriamente proibições deste género para ninguém, as meninas gerem as suas coisas e responsabilidades e fazem-no com um bom senso que foram construindo com o tempo. A nossa função aqui é balizar, ajudar a compreender e mostrar as consequências das suas opções, dou um exemplo: Estudar com o telemóvel ligado ao lado é contraproducente, o raciocínio e a concentração estão sempre a ser interrompidos e desviados e isso faz com que tenham de estar mais tempo a estudar e com piores resultados práticos. Perante isto, elas, por iniciativa própria deixam os telefones fora do quarto quando estão a estudar, mas isto não acontece sempre, são elas que decidem quando é que isso é necessário. Nunca proibimos nem ditámos nenhuma regra de sentido obrigatório nestas situações. Acreditamos que é assim que se tornam pessoas autónomas e capazes de tomar decisões em consciência, achamos que todas as realidades têm variantes e que ninguém melhor que os implicados nelas podem decidir da forma mais assertiva.
Perante este contexto estava-me a ser particularmente desconfortável a forma como estava a lidar com esta situação do Bonheko com os jogos digitais.
Claro que, aos 4 anos não podemos exigir que ele decida em conformidade, que tenha o bom senso de não utilizar excessivamente os aparelhos e que seja autónomo e capaz de tomar as suas decisões. Não era isso que queria e não sabia como fazer.
Precisei então de ir mais longe, de perceber que havia mais do que isto, que esta era apenas uma consequência de outra coisa mas que não era O problema.
Saí de mim, olhei de fora, parei e então percebi claramente o que estava a acontecer.
O Bonheko estava, como todas as crianças da sua idade a imitar os que o rodeiam. Estava a querer pertencer de forma equitativa a esta família que utiliza os seus smartphones em grande parte do tempo útil das suas vidas.
Era só isso.


Detectado o problema restava encontrar a direcção certa, para mim a proibição nunca foi nem caminho nem solução, nem tão pouco acho que os fins justificam os meios. 
Assim sendo vou optar pela transformação do habitat para alterar a espécie.
Não vou criar nem ditar novas regras para as manas mas vou certamente reforçar a mensagem que o comportamento delas é fortemente influenciador na vida deste pequenino Ser que tanto amamos e acredito que isso será o suficiente para que reconsiderem o assunto.
Eu própria vou criar novos hábitos, além de colocar o telefone no silêncio desde que chego a casa vou depositá-lo num local longe da vista e longe do coração e assim viver, dificilmente contactável, entre as 18h e as 21h.
Vou duplicar a oferta de programas alternativos e fazê-lo participar em tudo mais do que nunca, vou estar disponível, focada e oferecer a minha companhia de forma generosa e alegre, vou aproveitar este tempo ao minuto que, por experiência própria, sei que passa num segundo.
À mão vou tentar ter a máquina fotográfica para poder continuar a perpetuar momentos maravilhosos que merecem ser registados e partilhados.


Mesmo tendo noção da necessidade que temos de ter atenção plena uns dos outros, que o fim do dia é um momento rico de partilhas e de vivências em família, mesmo estando lá sempre, eu precisei que o meu filho me mostrasse que temos constantemente de remar contra a maré e que, se não nos contentamos com fazer parte do rebanho, temos de estar atentos e conseguir reformular a equação, sempre à procura de melhores resultados.
Não é matemática mas a regra é adiciona e não subtrair, é dar mais em vez de (re)tirar.
E eu acredito que esta mudança vá resultar rapidamente numa diminuição na frequência em que o Bonheko vai pedir para jogar.
Eu acredito que ele também vai querer estar off.

Fotografias Pau Storch

Uma vez mais me sinto grata pelo que os meus filhos me fazem ver. O exercício da paternidade é sem dúvida uma oportunidade incrível para viver melhor a nossa própria vida.
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2 comentários:

  1. É isso mesmo, Xana, eles estão "cá" para nos ajudar a sermos melhores a cada dia e para atingirmos a plenitude para a qual fomos criados. E nós Pais achávamos que éramos nós que os tínhamos de educar!!! A nossa função por excelência é dar-lhes as bases e proporcionar-lhes as ferramentas para eles crescerem e se adaptarem a este mundo...mas quem nos educa são eles!!!
    ADOREI a tua reflexão e decisão, claro!
    Continua.....

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  2. Gostei muito desta reflexão acerca da era digital e da partilha das decisões tomadas. Ainda a semana passada escrevi um texto pequeno e muito simples sobre este assunto, com uma ilustração que encontrei muito adequada, mas de uma outra perspectiva. Sou uma defensora da brincadeira na rua e da brincadeira espontânea, faço questão de lhe proporcionar este tipo de experiências regularmente - sei que para alguns pareço exagerada, mas sinto que é importante fazê-lo desta forma. Talvez por isto, consegui mantê-lo afastado dos jogos digitais até à data (de vez em quando vê filmes no youtube, a animação “os três porquinhos”, por exemplo, é uma perdição; mas não passa disto).
    No entanto penso, sendo ele uma criança desta era em que a tecnológica reina, é correto privá-lo de ter esta experiência? Por um lado não tenho vontade nenhuma de lhe dar um telemóvel ou I'pad para a mão nem vê-lo agarrado a uma máquina; por outro, penso que talvez seja importante ser eu a proporcionar-lhe esta experiência. Para já, para já vou protelar a decisão de lhe mostrar os jogos digitais; mais tarde, quando lhe proporcionar esta experiência, espero conseguir definir regras desde o início e dosear a sua utilização...
    Temos sempre muitas teorias e ideias feitas em relação à educação que queremos dar, mas o exercício da parentalidade no dia a dia é que acaba por ditar muitas das decisões que tomamos. E sim, aprendemos muito com eles. Todos os dias. :) Obrigada pela partilha.

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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