/ 30.12.16 / 1 Comment / , , , , ,

A loucura da normalidade


Ultimamente tenho dado por mim a pensar que, se estivesse mais ausente, muitas das necessidades que reconheço como básicas e que se manifestam nas minhas filhas adolescentes me passariam verdadeiramente ao lado e que a vida aconteceria na mesma, dentro de um mesmo esquema e aparentemente normal. 
Penso que isso até pode acontecer em várias fases do crescimento dos filhos, mas nesta é mais habitual porque tem exigências muito especificas, talvez mais subtis que requerem da nossa parte muito mais atenção, tempo e paciência. 
Esta é uma fase de um normal distanciamento mas isso não implica necessariamente um enfraquecimento da relação.




Quando eram pequenas eu sentia constantemente o retorno da relação, sentia que realmente a minha presença era fundamental, o que seria delas sem mim??? mas depois de crescerem esta necessidade deixa de ser assim tão evidente.
Nesta fase da adolescência eu sinto que preciso de ter uma presença sombra, que o estar junto passa muitas vezes apenas por partilhar o mesmo espaço, por contribuir com opiniões, com sugestões, ajudar a ver mais longe, abrir o leque de opções que a vida tem e deixar acontecer.
É uma altura em que não está sempre a haver interacção mas que para que ela aconteça é necessário normalizar a nossa presença, não dá para ser do tipo: Vamos lá agora conversar que a mãe tem 20 minutos para ti... Com as minhas adolescentes a relação exige tempo, tanto tempo... fico impressionada com isso, e fico feliz por ter esse tempo, por ser uma privilegiada e poder dar às minhas filhas esta minha presença. 


Quando deixei de trabalhar fora de casa fui assaltada por muitas dúvidas e uma delas era a de que modelo poderia eu ser para estas pequenas mulheres? Passados dois anos encontrei resposta para esta questão. Trabalhar em casa permite-me estar perto mas criar regras de respeito pelo espaço de cada um, isto faz-lhes muito sentido, especialmente nesta idade. 
Ver criar um projecto de raiz permite-lhes também perceber os esforços que são necessários e faz com que se sintam parte, integrá-las no meu trabalho fá-las sentir-me parte de um todo e tenho percebido o quão isso reforça os nossos laços.
Acho que há muitas formas de alcançar este reforço, esta é apenas a nossa experiência e sei que tenho ainda um longo caminho a percorrer, que esta fase inicial tem servido acima de tudo para recolocar as coisas nos locais onde estejam confortáveis e onde todos consigamos crescer juntos.
Sei também que esta fórmula não tem ainda resultados cientificamente comprovados, que o improviso, o susto, a queda e o erro fazem parte e que o medo que provocam tem de servir como combustível para avançar e não como bloqueio e travão.



Como mãe tenho muitas dúvidas e auto regulo a minha actuação constantemente, mas sei que isso não é revelador de fraqueza.
Nesta fase também elas se debatem com muitas questões, algumas delas decisivas em relação a um futuro próximo. As dúvidas delas fazem-me a mim gelar, provocam-me angústias enormes, revejo-me nelas e triplico a dor do crescimento. 
Penso que deve ser assim com todas as mães e acho até que é este medo que faz com que muitas vezes nos queiramos esconder atrás das fórmulas cientificamente comprovadas, verdades absolutas ou pensamentos ditos conservadores. Tantas vezes tenho vontade de descansar dentro de um redondo NÃO, ou de um Porque sim! Tantas vezes acho que as minhas forças não vão ser suficientes para aguentar anos e anos de conflitos, de debates, de concessões, de frente-a-frentes, de líder da oposição ou advogada do diabo
Esta fase é tão intensa e tão cheia de emoção que é uma oportunidade fantástica de questionarmos a nossa própria existência o que, por si só, já é suficientemente assustador e pode provocar uma valente vontade de fugir. 
E fugir muitas vezes é só fingir que estamos, é permitir o afastamento que muitos consideram normal, é estar mas de forma ausente e vazia, é deixar de receber para não ter de dar.


Mas é neste estar que me vejo constantemente obrigada a aceitar as minhas limitações tal como todas as consequências inerentes.
Viver todos os dias cansa, é um título que eu adoro e uma frase onde me encontro muitas vezes, mesmo sem querer que seja de outra forma.
E a vida é mesmo isto; a nossa vida em família é uma constante sequência de acontecimentos que se sucedem uns aos outros a um ritmo frenético sem nos dar tempo para grandes pausas ou (i)merecido descanso.
E nestas alturas de paragem escolar sobe vertiginosamente a velocidade interna no nosso seio famíliar e os acidentes, mesmo que pequenos e sem consequências de maior, acontecem uns atrás dos outros, é necessário estar de prevenção e pôr em marcha um género de operação boas festas.
Há pouco tempo perguntaram-me como era ter quatro filhos e eu não soube muito bem responder, mas talvez seja isto, pelo menos quando três são raparigas em plena adolescência: É a loucura da normalidade (outro título fantástico!).

Que se mantenha em 2017. Boas entradas.

Fotografias de Vitorino Coragem no estúdio do artista plástico Paulo Arraiano em Abril de 2016

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1 comentário:

  1. Vou guardar o teu texto Alexandra. Vou precisar de o voltar a ler daqui a uns tempos. Para me sentir normal. Uma 'louca normal'. ;)
    Obrigada!
    CláudiaB

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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