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Magda Dias, Mum's The Boss


No mês passado rumámos a norte para encontros há muito desejados, estivemos à conversa com a Magda Gomes Dias, e percebemos que nesta casa de ferreiro, não há espeto de pau.

Magda é coach e formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais há mais de uma década, autora dos livros "Crianças felizes" e "Berra-me baixo" escreve regularmente para várias plataformas ligadas à educação e parentalidade.
Mãe de Carmen com 7 anos e Gaspar com 3, Magda encontra na família o território ideal para exercitar a sua necessidade de constante questionamento, procurando viver de forma presente e consciente a aventura da parentalidade. 
Magda é a autora do blogue Mum’s the boss e do site Parentalidade Positiva.


Nheko: Qual a tua formação e percurso profissional até aqui chegares?
Magda: Eu sou licenciada em estudos europeus e comecei por trabalhar num gabinete da comissão europeia ligado a missões empresariais. Depois fui para a área da formação, em 2001 e trabalhei com várias empresas, conheci muita gente e fiz formação em tudo e mais alguma coisa: liderança, assertividade, a clássica formação de formadores etc aproveitei as oportunidades de formação que tinha, na altura não tinha filhos, nem horários, nem qualquer tipo de obrigações.
Em 2005 fiz formação em inteligência emocional, foram 5 dias intensos e foi espectacular! Depois disso entrei numa rede internacional e comecei a criar uma relação forte com pessoas muito experientes e que ainda hoje estão presentes na minha vida e no meu trabalho.
Ainda trabalhei na área comercial onde fui profundamente infeliz porque não me sentia realizada, teve coisas muito boas mas não me preenchia, em paralelo sempre fui dando formação e foi nessa altura que fui tomando consciência da quantidade imensa de pessoas, adultas, que revelavam graves problemas relacionais e até comportamentais. No contexto da formação consegue-se perceber muita coisa. 


Nheko: A parentalidade positiva, o coaching e este teu trabalho não entrou na tua vida na consequência da experiência da maternidade?
Magda: Foi anterior, lembro-me de que a dado momento, num contexto de formação numa empresa com a qual eu já trabalhava há algum tempo, eu ter sentido claramente que aqueles adultos estavam completamente baralhados e com problemas graves, eu pensei: Mas o que é que lhes aconteceu? onde é que estas pessoas perderam a capacidade de sonhar, quando é que se perderam completamente de si próprias? Eu estava perante adultos que viviam em total vitimização e desresponsabilização, com a necessidade de bodes expiatórios e o recurso a mecanismos de defesa constantes. Senti que precisavam de ajuda.
Depois procurei na rede da inteligência emocional onde me tinha certificado a vertente que ligava a educação à inteligência emocional para crianças, professores, pais, e comecei a interessar-me por esta área, devia ter uns 27 anos nessa altura.



Nheko: Seria o relógio biológico disfarçado de interesse profissional?
Magda: Eu questionei-me muitas vezes sobre se devia ou não ter filhos, entretanto já tinha acontecido o 11 de Setembro e o mundo parecia-me um lugar tão estranho. Mas tudo isto me levou a querer saber cada vez mais, a interessar-me a tirar vários cursos e a ficar cada vez mais entusiasmada. E entretanto nasceu a Carmen, essa experiência mais o que já tinha estudado fizeram com que eu começasse a partilhar pensamentos e textos e assim surgiu o Mum's the boss.


Nheko: E qual é a história por de trás desse nome?
Magda: Lembro-me perfeitamente do dia em que surgiu o nome, era feriado, 25 de Abril e estávamos em casa, na sala e o Guillaume numa brincadeira perguntou à Cármen "C'est qui le chef?" (nós em casa falamos em francês) e eu pensei: encontrei o nome para o meu blogue: Mum's the boss. É uma provocação, é esse o sentido, tal como a intenção do blogue de provocar reflexão e pensamento. Mas também é verdade que quem manda em casa são os pais e disso não podemos ter dúvidas.

Nheko: Em casa falam sempre em francês?
Magda: É a língua da família sim, em casal sempre falámos francês, são 18 anos de relação em francês e não me faz sentido falar outra língua com o Guillaume, quando estamos os quatro às vezes misturamos mas falamos acima de tudo em francês, se estou sozinha com os miúdos falamos português. É assim a nossa dinâmica!

Nheko: Voltando ao blogue, há no "Mum's the boss" um tom de humor que se mistura com uma atitude claramente questionadora, é essa a receita para chegar à pessoas e provocar alterações nos comportamentos?
Magda: Acho o humor fundamental e é bom porque nos liberta, é também importante nunca julgarmos os outros, só conseguimos chegar às pessoas se estas não se sentirem apontadas. O tom deve ser leve e as soluções de mudança devem ser facilitadoras, uma mais valia e nunca um peso suplementar, só assim conseguimos promover a mudança.


Nheko: A procura da mudança e a necessidade de questionar vem de onde? Como foi a Magda filha?
Magda: Filha mais velha, muito certinha. Sempre fui assim e gosto de o ser, no entanto tenho desde sempre a necessidade de subverter e desconstruir as coisas, de as questionar, dentro da norma eu criava as minhas regras e procurava viver segundo aquelas que eram as minhas convicções.
Na relação com os meus pais houve uma altura que era especialmente desafiadora com o meu pai mas não dei problemas de maior, sempre tivemos uma boa relação mas no outro dia ouvi a minha mãe dizer a uma amiga que gostava de ter lido o "Berra-me baixo" quando tinha os filhos pequenos, ela fervia em pouca água. É engraçado ouvir estas coisas agora.


Nheko: Ouves a tua mãe nas tuas palavras?
Magda: Nós temos um tom de voz muito parecido mas é só isso, eu sou muito mais calma com os meus filhos, temos uma visão da educação muito diferente, embora os dois livros tenham aberto uma forma nova de olhar para a questão e já falámos sobre isso até!
Eu faço muita auto regulação, controlo o meu comportamento em função das minhas convicções seja na relação com os meus filhos seja com as outras pessoas que me rodeiam.
Eu e o Guillaume temos uma visão sobre a educação muito semelhante, acabamos por não ir buscar aos nossos pais grandes influências, a não ser o que queremos trazer para nós. Criamos juntos o nosso modelo, partilhamos os mesmos valores e procuramos as mesmas coisas para a nossa vida em família. A forma como, por exemplo, nós organizamos a nossa casa, a desarrumação natural e a constante presença das crianças na decoração é uma opção nossa, seria impensável no padrão dos meus pais. Nós conseguimos libertar-nos de muitas coisas e criar a nossa forma de estar de acordo com as nossas convicções. Nós começámos a namorar eu tinha 19 anos, fomos pais pela primeira vez quando eu tinha 31, foram muitos anos de construção comum, estamos muito alinhados, cada vez mais!


Nheko: Pensas que essa libertação dos padrões pré estabelecidos acontece por vocês serem de culturas diferentes? Como se a vossa intercepção fosse território neutro onde cada um trás o seu contributo mas onde constroem algo novo?
Magda: Talvez sim e juntando a isso esta nossa característica comum de questionar tudo sem parar... Eu tenho uma preocupação grande em ter presente a cultura francesa, faz parte da herança dos miúdos, parte da família é de lá, e acho mesmo importante que haja muita referência à cultura francesa na nossa vida do dia a dia para isso acontecer nós criamos um modelo novo que é o nosso. Por exemplo comemoramos o dia dos crepes, vimos filmes e desenhos animados franceses mas também procuramos a origem dos feriados portugueses e vivemos activamente a cultura dos dois países, é esta a forma que encontrámos de viver de forma consciente a nossa vida.


Nheko: E é isso o que mais te fascina no exercício da maternidade?
Magda: Tudo o que recebem agora é o que vão ter dentro deles no futuro. Se eu quiser que respeitem a natureza tenho de viver a natureza com eles. Nós vivemos intensamente as experiências que temos como família, isso fascina-me.

Nheko: E o que é que mais te preocupa?
Magda: Preocupa-me muito ter a percepção de que muitas crianças não tenham nada disto, que vivam sem acesso a estas experiências que são fundamentais para a sua formação como pessoas, preocupa-me que haja tanta falta de intenção na forma como se educam as crianças. Tudo isso vai ter grande repercussão no seu futuro.


Nheko: Quais são os programas que mais privilegiam enquanto família?
Magda: Tudo o que implique um contacto com a natureza, caminhadas, piqueniques na floresta, passeios de bicicleta, adoramos!
Também gostamos de cruzar as aprendizagens que fazem na escola com experiências que possam ter fora dela, no outro dia fomos ver um Menir porque a Carmen estava a ler o Asterix e a adorar e achámos uma boa ideia.

Nheko: E o que é que mais valorizas numa escola?
Magda: Sem dúvida que as pessoas, os métodos são importantes mas são as pessoas que fazem as escolas. Na escola dos meus filhos os directores estão todos os dias ao portão da escola, às 8h da manhã, a receber os alunos e dar os bons dias aos pais, acho que isto diz muito da escola e do valor dado à relação com as pessoas.


Nheko: Achas que a forma como educas os teus filhos pode minorar o impacto da adolescência na tua relação com eles?
Magda: Eu tenho realmente essa esperança e até tenho o feedback de pessoas com quem trabalho que dizem  que sim mas também tenho consciência que muitas coisa acontece no caminho e que a sorte tem um lugar grande nas escolhas que fazem. Na verdade eu acredito muito na retaguarda que estou a construir agora mas isso não me tranquiliza totalmente, não me descansa. Para já não quero dar demasiada importância, estou concentrada no que se passa agora e sinceramente isso é mesmo o mais importante. E todas as experiências são importantes. No meu caso, todas as conquistas, todos os confrontos e desafios tornaram-me em quem eu sou hoje e estou mesmo feliz por isso porque me fizeram ficar mais forte na minha capacidade de lutar e de questionar a vida, essa parte também é importante.



Nheko: A tua família é o tubo de ensaio onde experimentas as formulas que utilizas no teu trabalho, isso tem um reverso da medalha? Como é que os outros te olham no papel de mãe?
Magda: Eu vivo tudo de forma muito intensa e sou exactamente aquilo que defendo.
Já passei por diferentes fases, a de que os meus amigos evitavam falar comigo sobre os filhos e também a fase contrária em que me procuravam para eu "julgar" o comportamento que tinham. Eu própria tive uma altura em que me incomodava com o facto de os meus filhos terem certos comportamentos em público, sentia-me posta em causa, precisei de arrumar uma série de coisas comigo mesma para ultrapassar essa fase.
Hoje sou muito descontraída com isso e esqueço-me do olhar do outro - são os meus filhos que vêm comigo para casa e não quem eu acho que está a olhar. Se calhar nem está a olhar!
Eu não controlo nem tenho a presunção de querer controlar o comportamento dos meus filhos, o que eu posso é controlar o meu comportamento e essa é a minha responsabilidade.

Fotografias Pau Storch

Magda Gomes Dias é Directora, Coach e Formadora da Escola da Parentalidade e Educação Positivas, para seguir o seu trabalho:
Site: Parentalidade Positiva | Blogue:  Mum's the boss | FacebookMum's the boss |Instagram: Mum's the boss | Newsletterassinar aqui | Youtube: Mum's the boss
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2 comentários:

  1. Adorei a entrevista Alexandra e Madga
    Caiu-me uma lágrima :-)
    Beijos às duas

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  2. Gostei da entrevista, já conhecia o blogue "Mum's the boss", mas gostei deste registo mais intimista acerca do trabalho da autora, da sua visão sobre a educação, as suas crenças, as suas dúvidas e as suas preocupações. É uma área que me é querida e concordo com muitas das ideias que a autora defende (se bem que nem sempre consigo pô-las em prática nas fases mais críticas, mas é precisamente nessas fases que a autoavaliação ganha força por estas bandas).
    Alexandra, parabéns, mais uma vez, pelo seu trabalho. E parabéns à "Mum's the boss" pelo seu percurso e pelo seu trabalho.

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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