/ 20.10.16 / 8 Comments / , , , ,

Joana e a Violeta Cor de Rosa


Dona de um imenso bom gosto que se espalha por todos os cantos da sua vida, Joana Soares é mãe de duas filhas e de uma marca carinhosamente chamada Violeta Cor de Rosa.
Arquitecta de formação, teve como primeiro projecto assinado a sua própria casa onde nos recebeu de uma forma tão generosa como as fotografias demonstram.
Esta nossa conversa deveria terminar como todas as publicações que a Joana faz: Com Amor
É Amor que a Joana coloca em tudo o que faz.




Nheko: Fala-me um bocadinho de ti e da tua infância.
Joana: Toda a minha família é de Lisboa, tenho uma irmã mais velha 5 anos, vivíamos no centro da cidade e isso facilitava a nossa autonomia e mobilidade, os nossos amigos eram dali perto e ainda hoje muitos deles permanecem na minha vida. Tive uma vida tranquila.




Nheko: Escolheste cedo o que querias ser quando "fosses grande"?
Joana: Tirei arquitectura, eu desde pequena sempre desenhei casas, o meu avô fez-me uma casa de bonecas e lembro-me de ter ficado fascinada com a escala, as dimensões das coisas, foi a partir daí que comecei a fazer as minhas casas. Tenho o meu primeiro projecto de uma casa, devia ter uns 7 anos e desenhei a minha casa de sonho, felizmente a minha mãe guardou tudo e assim consigo muitas vezes ser transportada para essa altura através dos meus desenhos.
É também óptimo para perceber, por comparação, como a minha filha Madalena desenha lindamente, quando vejo o que eu fazia e o que ela faz com a mesma idade fico com a essa clara noção.


Nheko: O contexto da arte sempre esteve presente na tua vida?
Joana: Os meus pais eram músicos, a minha mãe é pintora e esse era o contexto, os amigos que frequentavam a nossa casa eram todos das áreas artísticas. Eu naturalmente frequentei a Escola António Arroio e depois segui arquitectura.





Nheko: E como foi a tua passagem à vida adulta e entrada no mundo do trabalho?
Joana: Terminei o curso cedo, com 22 anos, fiz logo o estágio profissional e fiquei a trabalhar, no entanto a arquitectura não me preenchia e sempre fiz outras coisas em paralelo. Comecei a trabalhar por conta própria e fazia muitas remodelações e muito trabalho de interiores, era pesado mas adorava. Sempre gostei muito de trabalhar e mesmo no tempo da faculdade eu era muito dedicada e estava sempre ocupada, muitos fins de semana eram passados a trabalhar para o curso.


Nheko: E como encaixaste nisso a maternidade?
Joana: Eu fui a primeira dos meus amigos a ser mãe e confesso que foi um choque com a realidade, eu penso que para quem tem um trabalho criativo, a maternidade se por um lado inspira, por outro lado dificulta muito a vida; Não há propriamente horários para ser criativo e trabalhar a criatividade, para ter ideias, muitas vezes são necessários momentos de abstracção total e isso com filhos é realmente complicado.


Nheko: Essa é a maior dificuldade que encontras na conciliação entre seres mãe e teres o teu trabalho?
Joana: Era mais simples se conseguíssemos ter só a parte boa da maternidade... assim não é fácil, até porque depois elas adoecem, há as férias de verão que são intermináveis e aí somos mais mães do que tudo o resto.




Nheko: Trabalhar em casa para ti é um privilégio ou uma realidade difícil?
Joana: É uma realidade que eu já vivo há muito tempo, ainda antes do projecto Violeta Cor de Rosa surgir. O problema que eu sinto é que não chegas a uma hora e desligas, não fechas a porta e dizes até amanhã. Todas as horas são válidas para fazer mais qualquer coisa e isso dá para os dois lados, ou seja, na hora do trabalho todas as pausas são ocupadas com tarefas da casa e o trabalho entra na hora da família constantemente.
Eu acho que para se conseguir ir equilibrando é necessário ser muito positivo e viver com paixão o que se faz, viver o melhor dos dois mundos que aqui coabitam. Também acho fundamental não perder tempo nem energia com coisas que não valem a pena.



Nheko: Como é que surgiu a Violeta Cor de Rosa e qual o história por trás do nome?
Joana: Surgiu numa fase em que fiquei em casa com a Madalena porque um problema de saúde a obrigou a deixar de ir à escola, entretanto eu estava grávida da Violeta e também precisava de repouso, ficámos as duas em casa.
Violeta Cor de Rosa era o nome que eu gostava de dar à minha filha mas ficou o nome do projecto que acaba por ser também quase um filho.
Agora vejo que Violeta é uma e Cor de Rosa a outra, a Madalena tem uma forte ligação com o universo cor de rosa.



Nheko: E como tem sido o percurso ao longo destes dois anos, quais as maiores dificuldades com que te tens deparado?
Joana: Eu já tinha experiência on-line e isso trouxe-me coisas muito boas, era um blogue de cozinha - essencial - permitiu-me ter já um público e estar no meio.
Depois trazia da altura em que trabalhei sozinha na área da arquitectura, uma grande disciplina na gestão do tempo, o meu tempo era milimetricamente estudado e aproveitado. Para conseguir trabalhar por conta própria com filhos pequenos acho isto essencial e as sestas também, é nessas alturas que faço o que tem mesmo de ser feito e o trabalho minucioso.
Eu sou organizada, dentro da minha desorganização, claro.
Sei que neste momento já devia ter alguém a ajudar-me mas eu faço tudo de forma tão personalizada, até a forma como agrafo, como faço as embalagens, é tudo muito meu. É-me difícil imaginar ter alguém a responder aos e-mails por mim, acho que vai ser mesmo difícil para mim conseguir delegar.


Nheko: Sentes que mudaste muito desde que foste mãe?
Joana: Em termos profissionais acho que ganhei mais assertividade, sempre fui muito focada e desde o tempo da faculdade que me habituei a trabalhar muito, desde que fui mãe sinto mais necessidade de parar, de ter tempo de qualidade para a família, preciso de desligar totalmente e tenho muita dificuldade em fazê-lo, também sinto que preciso de ter tempo para mim e isso faz-me muita falta. Eu tenho consciência de que para as minhas filhas estarem bem eu também tenho de estar, não é que eu esteja em primeiro lugar mas eu sei bem a importância que tenho no todo.
Eu adorei estar grávida, sentia-me a pessoa mais saudável e feliz do mundo, mas na verdade nunca me enamorei totalmente com a maternidade porque sempre tive consciência de que ela me exigia muito. Acho que há um certo romancear relativamente à maternidade, muitas vezes ouvia amigos a falar e só se referiam as partes boas de ter filhos, eu sempre senti ambas, não consigo deixar de dizer que é difícil e cansativo mas claro que também é igualmente maravilhoso.




Nheko: Como mãe és parecida com a tua?
Joana: Não, nada. Acho fascinante as semelhanças e diferenças entre as pessoas, a Madalena é igual à minha mãe, obstinada, criativa, teatral, intensa. A Violeta é muito diferente, é simpática, sociável, está sempre bem.


Nheko: És a mãe que pensaste que ias ser?
Joana: Os meus pais tinham uma banda, os Bric à Brac e eu lembro-me em pequena de nos levarem muitas vezes com eles, lembro-me de adormecer perto deles em locais que para mim eram estranhos, eu gostava disso e sempre disse que quando fosse mãe queria ser assim, levar os meus filhos para todo o lado mas a minha primeira filha veio-me trocar as voltas, a Madalena não era uma criança fácil nem era de ficar em todo o lado.


Nheko: O que é que mais te fascina nisto de ser mãe?
Joana: Eu adoro observá-las, ficar a olhar para elas sem que saibam que ali estou. Adoro vê-las na sua espontaneidade e naturalidade. Nesses momentos eu surpreendo-me sempre com o facto delas serem "minhas".


Nheko: E o que é que mais te preocupa como mãe?
Joana: Perder alguma coisa. Quando a Violeta nasceu eu fiquei mais focada nela e naquele primeiro ano a Madalena cresceu tanto, eu espantei-me e tive a sensação que não conseguia acompanhar. Sei que não conseguimos estar sempre lá mas assusta-me esta sensação de poder perder coisas importantes do crescimento delas.



Nheko: E a adolescência é para ti um "bicho de sete cabeças" à espera das tuas filhas?
Joana: Eu fui aquela adolescente que sempre fiz tudo na altura certa, e é só isso que peço para a adolescência delas. Sempre tive muita liberdade, eu era muito correcta e incapaz de mentir, os meus pais sempre me deram muita liberdade e eu era muito responsável, tínhamos uma relação baseada na confiança e eu gostava muito de conseguir isso com as minhas filhas.


Nheko: Enquanto casal têm uma forma de olhar a educação semelhante?
Joana: Estamos juntos há 10 anos e temos uma forma de estar com as miúdas muito complementar, o João é o pai preocupado e eu a mãe mais relaxada mas sei que só sou assim para compensar, para procurar o equilíbrio que é óptimo de conseguir.


Nheko: E quais as regras básicas do vossos manual de sobrevivência enquanto casal?
Joana: Nós gostamos muito de receber amigos em casa, Eu adoro cozinhar e ter a casa com gente. Como casal acho muito importante estarmos atentos um ao outro e estar lá sempre que o outro precisa, seja de nós, seja de espaço para estar sozinho e fazer as suas coisas, temos uma boa sintonia nesse aspecto.




Nheko: A vossa casa é o vosso espelho? Tens alguma divisão favorita?
Joana: Esta casa é muito especial, foi o primeiro projecto que assinei sozinha. Foi uma remodelação total, a casa não tem nada a ver com a que cá estava, esta foi pensada e desenhada para ser a nossa casa. Acho que o meu local preferido é a cozinha, também gosto muito do espaço de refeições que construímos agora no exterior, eu gosto muito de cozinhar, de imaginar, ir às compras, experimentar, fazer tudo com tempo, não é de cozinhar todos os dias, isso já não gosto tanto.


Nheko: E quais são os vossos programas favoritos?
Joana: Coisas simples, ir andar por aí, apanhar amoras, a Madalena gosta de ir ao cinema, de ver exposições, as coisas que vê marcam-na imenso. Ela está numa fase engraçada, é uma óptima companheira, ela adora estar sozinha comigo, eu sempre que consigo tento fazer alguns programas só as duas.


Nheko: A tua marca, a Violeta Cor de Rosa, nasce e vive da tua vida em família, é isso que te inspira diariamente?
Joana: Sim a marca nasce mesmo dessa relação com a minha vida, eu comecei a perceber que não encontrava o que queria no mercado nacional, que havia uma lacuna e que eu queria preenchê-la, a Violeta Cor de Rosa é uma marca virada para o mercado nacional, nem toda a gente entende bem isto, eu envio para fora mas o meu foco é o âmbito nacional, foi aqui que detectei a falha e é isso que estou a trabalhar, desde o tempo em que trabalhava em projectos de remodelações de interiores quando eram quartos e espaços para crianças havia sempre esta falha, tinha de recorrer a marcas estrangeiras, depois de ter filhas percebi ainda mais que posso fazer um bom trabalho aqui.



Nheko: E quais os teus planos e ambições para a Violeta Cor de Rosa?
Joana: Da arquitectura, entre outras coisas, trago o gosto e a necessidade de trabalhar com outros, criar sinergias e procurar parcerias, essa é uma forma de encontro com os outros e de enriquecimento do meu trabalho. Felizmente tenho-me cruzado com pessoas fantásticas e queria muito que isso continuasse a acontecer.
Eu desde criança que gosto de desenhar, é uma coisa que me transporta para uma tranquilidade maior, que me faz sentir verdadeiramente bem, se eu conseguir fazer disso a minha vida e continuar a poder viver assim está óptimo, haverá ambição maior?

Fotografias Pau Storch

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8 comentários:

  1. Tal como se previa ... mais uma entrevista doce! É tão bom sentir que há gente assim, feliz por fazer o que gosta!! :)

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  2. Fotos lindas. Adorei a entrevista, não conhecia o blog.

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  3. Olá Joana!!! Foi um enorme prazer conhecer-te mais um pouco. Também foi um privilégio a partilha do teu talento e AMOR em tudo o que fazes e com que nos brindaste no workshop de pintura. É tão bom ver e sentir a energia que uma pessoa consegue transmitir aos outros de estar bem com a vida. os meus sinceros Parabéns por tudo. Um beijinho muito grande. Carlota

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  4. Adorei a entrevista e adoro a Violeta cor de rosa. Obrigada por esta partilha tão cheia de "vida como ela é"

    Beijinhos
    Cris
    www.crisloureiroblogs.com

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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