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Martinatree e a cozinha saudável


Nheko: Marta, fala-nos um bocadinho de ti e de como surgiu a Martinatree?
Marta: Tenho 42 anos, trabalho há 19 anos na TAP, o que me obriga a andar de um lado para o outro, sem grandes rotinas. Apesar de ter um emprego estável, o meu percurso académico foi pouco linear, já que me licenciei em Letras e posteriormente fiz duas pós-graduações e dois mestrados, nas áreas de Tradução e Economia. 
Actualmente estou a fazer um curso de Nutrição, sendo que inesperadamente é nesta área da Saúde que me estou a sentir mais motivada e integrada. No entanto, tenho perfeita noção de que é o conjunto de todas as formações que tirei que fazem de mim aquilo que sou hoje. 
Sempre gostei de alimentação e desporto, tendo sempre estado em contacto com estas áreas, de uma forma ou de outra, mas foi aos 40 anos que a vida me empurrou de uma forma mais directa para um caminho mais regrado e informado ao nível da nutrição. Um problema de saúde grave fez-me questionar as minhas opções alimentares e decidi mudar radicalmente. 
Procurei a ajuda de uma naturopata, pedi conselhos e iniciei um percurso que antevi na altura como penoso e castrador, mas que rapidamente se mostrou um novo mundo de cor cheio de vida, oportunidades e desafios construtivos que fizeram de mim uma pessoa mais confiante e realizada. O entusiasmo que senti no início da mudança levaram-me a querer partilhar aquilo que fazia na minha cozinha, no dia a dia.



Nheko: E assim surgiu a Martinatree, qual o significado por de trás deste nome?

Marta: Os feedbacks positivos mostraram-me que era uma boa forma de me comprometer com os outros para não descarrilar daquele que passara a ser o meu objectivo. Poder contribuir para motivar outras pessoas que estivessem num processo semelhante ao meu, através daquilo que eu ia fazendo e descobrindo sem grande esforço e muito sabor. Por ser esse o objectivo principal da minha conta de Instagram, optei por não associá-la ao meu nome, para que não fosse uma conta seguida com eventual desinteresse por amigos e colegas que não tivessem qualquer tipo de entusiasmo pelo tema. Decidi dar-lhe o nome de MartinatreeMartina, porque durante alguns anos era assim que me chamavam na escola, Tree, pela associação à natureza e às raízes que acho importante criarmos com ela. Esta conta passou a ser um bocadinho o meu diário alimentar, partilhado maioritariamente para pessoas que não conheço ou elas a mim. Quem me segue ali, é porque gosta do que mostro, e isso é mais recompensador do que muitos likes ao final do dia, só porque sim. Ainda hoje estava a estudar no bar do ginásio e, de repente, uma senhora que nunca tinha visto, aproximou-se da mesa e disse que me queria dar os parabéns porque seguia a minha conta e era fã. Sem me conhecer, apenas porque um dia se tinha deparado com uma receita que partilhei e que lhe chamou a atenção. Foi ver o perfil, gostou e passou a seguir-me. Até me relembrou o que tinha sido o meu pequeno almoço de ontem.


Nheko: Quem te conhece como é que te caracteriza?
Marta: Isso depende do contexto, mas as pessoas que estão mais próximas de mim, acho que costumam salientar sobretudo a atenção que dou aos pormenores; alguma doçura; o gosto exagerado por animais; a curiosidade; a minha insatisfação constante; o espírito solidário e de missão; e muita insegurança à mistura.


Nheko: Quando é que a cozinha se assume como uma paixão na tua vida? 
Marta: Desde muito pequena que me lembro de ficar encantada com as coisas que a minha mãe preparava quando dava jantares lá em casa. Eram momentos em que eu tentava participar (sem sucesso) e cujos convívios me passavam sempre a sensação de uma casa mais alegre e quentinha. Tenho essa ideia romântica das refeições, do poder de uma mesa bem apetrechada com boa comida e amigos. O convívio com a minha avó na cozinha também era único, e foi ela a primeira a ensinar-me uma receita, o bolo molhado, que faço até hoje. Por outro lado havia a minha espera diária pelas rubricas de culinária que passavam na televisão antes do telejornal da hora do almoço. Tudo isso acho que foram sinais de paixão pela cozinha, embora se tratasse então de um tema que não dominava, de todo. Só relativamente tarde, aos 22 anos, comecei a cozinhar, um bocadinho por força das circunstâncias da altura, e fui surpreendida com a minha própria facilidade e algum jeito à mistura. Acho que a paixão real teve início nessa fase da minha vida.



Nheko: Mudar de alimentação é forçosamente mudar de vida?
Marta: Mudar de alimentação pode ser mudar de vida. Dependerá muito do tipo de alimentação que se segue até ao ponto de viragem, e das mudanças que se pretendem implementar. 

Nheko: Como foi o teu processo? És vegetariana desde a adolescência? És das discretas ou hasteias a bandeira sempre que podes?
Marta: Na realidade, ao contrário do que muita gente pensa, não sou vegetariana, apesar de ser frequentemente assim designada, nomeadamente pelos meus amigos. Deixei de gostar de carne vermelha aos 18 anos e retirei-a por completo da minha alimentação nessa altura. Cerca de um ou dois anos mais tarde, não sei precisar, decidi que iria deixar também de comer carnes brancas, não só porque não tinha qualquer tipo de prazer ao comê-las, como o meu respeito e amor pelos animais acabaram também por pesar na decisão. No entanto, continuei a comer algum (pouco) peixe. A minha base proteica passou a ser durante muitos anos de soja e derivados (embora hoje não lhes toque). Hastear a bandeira de vegetariana? Jamais. Muitas vezes me disseram ser a vegetariana mais discreta que alguma vez conheceram. Sempre fui a qualquer jantar sem nenhuma preocupação sobre o que se iria comer. Passei muitos jantares a comer salada e arroz, batata ou pão, sem que ninguém percebesse que estava a saltar o prato principal, no caso de ser carne. Cheguei a ir a um almoço em que não havia mais nada senão salsichas frescas enroladas em couve lombarda. Almocei apenas as couves e ninguém deu por nada. Muitas das vezes eram os meus amigos que me denunciavam, tentando que os anfitriões arranjassem alternativas para mim, mas nunca gostei que o fizessem. Ninguém tem culpa das minhas opções, e eu não passo fome se numa refeição com amigos não comer exactamente aquilo a que estou habituada no dia a dia. Está sempre tudo bem.


Nheko: O que é que achas mais importante conseguir para alterar a forma como encaramos a alimentação?
Marta: Acho que basta querer. Ter noção da importância que a alimentação pode ter na forma como nos sentimos, por dentro e por fora, e como ela se reflecte directamente no nosso estado de saúde.

Nheko: Achas que a informação que se encontra disponível sobre a alimentação saudável é clara e verdadeira ou manipulada e turva?
 Marta: Hoje em dia existe um mundo de informação a esse nível. É preciso ter cuidado para não dispersar, não nos deixarmos confundir e não nos prendermos àquilo que queremos que seja verdade. Sobretudo, não nos enganarmos. Há de tudo, se quisermos ser leais com a nossa escolha, há sem dúvida muita informação clara e pertinente para nos ajudar. Diria que aqui é fundamental estabelecer os nossos objectivos, a linha em que acreditamos e que queremos seguir, que nos faz sentido e se reflecte no nosso bem estar. A partir daí é aprender a filtrar informação e as fontes que consideramos fidedignas, mesmo que mais à frente encontremos estudos que possam pôr em causa aquilo que aprendemos anteriormente. Cabeça aberta, para nos permitirmos evoluir, mas com um trilho bem definido para avançar nessa direcção. O Instagram, que pouco ou nada usava na altura, foi das minhas principais ferramentas motivacionais, o que fez com que passasse também a ser esse o meu principal instrumento de divulgação de receitas, truques e motivação para quem pretende iniciar a alimentar-se de forma mais natural e com base nas necessidades do nosso organismo. No meu caso, por exemplo, não como carne; como peixe talvez duas a três vezes por mês (embora este verão tenha batido os recordes de amêijoas à bulhão pato, que adoro!); não consumo soja ou derivados; qualquer produto lácteo; glúten; alimentos processados; e açúcar refinado. A minha base proteica assenta actualmente em exclusivo nas leguminosas, sementes de cânhamo e ovos biológicos. Relativamente às frutas e hortícolas, passei a comprar apenas produtos biológicos. De referir que, sendo esta a base da minha alimentação, existe sempre margem para a excepção, sem qualquer sentimento de culpa. Acho mesmo que essa excepção é fundamental, tanto a nível social, como pessoal ou de saúde, pois isso fará com que a probabilidade de nos tornarmos intolerantes a determinados nutrientes seja reduzida, já que não anulamos radicalmente o contacto com os mesmos. Diria que o corte nos doces é talvez o meu maior sacrifício, sendo aqui que abro mais excepções (tendencialmente cada vez menos).



Nheko: Para comer de forma saudável é necessário muito dinheiro, tempo e organização: 3 mitos ou meias verdades?
Marta: Ora então por partes: Tempo: mito. Não há uma refeição principal que faça no meu dia a dia que me demore mais de 20 minutos a confeccionar. Quanto aos pequenos almoços e lanches, rondam em regra os 5 minutos. Dinheiro: diria que no início da mudança para esta dieta, o investimento é considerável, sendo certo também que ao longo do tempo o encargo económico se vai diluindo, já que a maioria dos alimentos rende bastante, são de longa durabilidade, e apenas vamos precisando de comprar faseadamente consoante vão terminando (leguminosas secas, sementes, farinhas, oleaginosas, arroz, quinoa, etc). Relativamente aos produtos frescos, são de facto mais caros do que os tradicionais, embora bem menos do que a maioria das pessoas pensa. Já existem muitos mercados de produtos biológicos a preços muito mais acessíveis do que era a regra há uns anos atrás. Acho que acaba por compensar, se tivermos em conta a poupança que representam na factura da farmácia e do médico, no final do ano. É uma opção baseada em probabilidades. Diria que um certificado de garantia na minha saúde. Organização: fundamental! Acredito ser esse o maior segredo para uma vida facilitada e com a segurança de não desistir a meio do caminho. Uma despensa bem recheada, antecipar o que se vai fazer no dia seguinte e saber conjugar aquilo que se tem, é a chave. No final, passamos a ter muito mais tempo para outras coisas.


Nheko: O que é que tiveste de mudar radicalmente na tua vida?
Marta:  A maior mudança para mim, foi de facto ao nível da organização. Quando iniciei esta dieta vivia sozinha e jamais pensava no que ia comer ao jantar ou no pequeno almoço do dia seguinte. Isso resultava invariavelmente em refeições pouco equilibradas, inexistentes e num consumo exagerado de doces, que acabavam por colmatar o meu vício por açúcar, retirando-me consequentemente a fome para comida de verdade. Tinha a ilusão de que era saudável, porque nunca fui de beber, nunca fumei, toda a vida pratiquei desporto, não comia carne há mais de 20 anos, não comia fritos. Tudo isso eram verdades, mas hoje percebo o quanto estava longe do que é ser saudável. A proteína era praticamente inexistente das minhas refeições, os legumes e hortícolas também eram comidos excepcionalmente, os horários para comer não seguiam qualquer ordem, e o consumo de açúcar era muito, mas muito além do recomendado. Até há cerca de dois anos, fez parte de cada dia da minha vida. Durante uma fase (que durou 2 meses), comi uma lata de leite condensado por dia! O alerta foi-me dado há cerca de 2 anos, em que num mês fui operada de urgência a um mioma, com um pós-operatório cheio de complicações devido a um sistema imunitário frágil, consequência de uma alimentação débil. Três meses mais tarde foi-me diagnosticado um tumor maligno na cara que obrigou a uma cirurgia de urgência. Esse foi o meu ponto de viragem. Até hoje e acredito que para sempre.

Nheko: E quais foram as principais alterações que sentes em ti?
Marta: As alterações tiveram inicialmente a ver com uma serenidade interior. Estava muito assustada, preocupada com a minha saúde, expectante com o que viria a seguir, que marcas mais me deixaria. A partir do momento em que me comecei a alimentar de forma mais equilibrada, completa, limpa e inteligente, passei a ganhar uma rede de segurança que me fez sentir ser muito difícil alguma coisa má voltar a manifestar-se em mim. A energia que se adquire, os resultados nos treinos que sempre fiz mas em que nunca vi os resultados actuais, a saúde do meu cabelo e unhas, e sobretudo a curiosidade positiva de todos aqueles que estão perto de mim quando me alimento e a quem posso ensinar e influenciar de alguma forma. 


Nheko: Gostas mais de cozinhar para dois ou para dez?
Marta: Até à minha mudança, diria claramente preferir cozinhar para 10 pessoas, porque na verdade era praticamente só nesse contexto que cozinhava: para os meus amigos, quando estávamos de férias (circunstâncias em que sempre me habituei a assegurar as refeições para todos) ou em jantares em minha casa (que sempre adorei fazer). Hoje em dia, mantenho esse gosto, diria, colectivo, mas retiro também muito prazer nas refeições que preparo diariamente para mim ou para mim e para o meu namorado. 
Sugiro que quem tenha curiosidade em saber em detalhe consulte a minha página de instagram martinatree, onde diariamente partilho aquilo que faço, o que como, o que são alguns dos ingredientes que integram esta dieta, como se preparam, truques que abreviam tempo. No entanto, posso dizer que um dia normal e perfeito poderá começar com umas papas de aveia e um sumo de frutas e legumes de manhã; um pudim de chia a meio da manhã; um almoço de quinoa e legumes coloridos; um lanche de frutos secos e fruta fresca; e um jantar de salada com massa sem glúten e pesto vegan. Um chá orgânico uma hora antes de deitar pode ser o remate perfeito.

Fotografias c. maria noronha | Produção alexandra_nheko

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2 comentários:

  1. Inspiradora(s)!! Obrigado! que continuem imparáveis na vossa busca! E nós a ganhar!

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  2. Já a seguia no instagram, confirmei agora a boa vibe :)

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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