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Mallú Magalhães


Conversar com Mallú Magalhães era um desejo antigo, uma promessa que vinha já desde o início da gravidez da cantora.
Passado quase um ano concretizámos este nosso encontro e foi em Lisboa, cidade onde esta Paulista vive, que estive à conversa com esta menina - mulher que tem tanto de doce como de brava.
Dona de um jeitinho único, Mallú é genuinamente encantadora, tem o olhar cheio de brilho e fala com muito amor da sua vida: a de ontem, de hoje e da que chega com o amanhã.

Mallú Magalhães tem 24 anos acabados de fazer e foi, recentemente, mãe da bebé Luísa que é fruto da sua longa e muito bonita relação com o músico Marcelo Camelo.



 Nheko: Comecemos esta nossa conversa pela tua infância, li que eras "brava", é verdade?
Mallú: Eu era um perigo! Os meus pais até falavam que quando tiveram a minha irmã que queriam ter vários filhos mas dois anos depois vim eu e eles desistiram da ideia. Eu tinha muita energia, fazia mil actividades, a minha mãe comprou um trampolim e colocou no jardim, aí eu passava o dia pulando, eu me mexia muito, eu comia muito, eu sentia muito, eu era uma criança "muito"! Arrependo-me de ter dado assim tanto trabalho, os meus pais são tão doces, tão bons, se eu tivesse conseguido controlar e evitar isso...


Nheko: A música aparece na tua vida também para dar vazão a esse excesso de energia? Aprendeste a tocar de forma autodidacta?
Mallú: Eu comecei a tocar muito cedo e tive aulas de violão. Eu toco piano, ukelele, banjo e gaita de forma autodidacta mas tive aulas de violão. Há até uma história ligada a isto que me entristece, eu adorava a minha professora mas quando comecei a dar entrevistas eu era muito miúda, devia ter uns 15 anos, uma repórter perguntou se eu tinha aprendido sozinha e eu respondi que só tinha aula de violão, que os outros instrumentos eu era autodidacta e ela publicou apenas essa parte, não referiu que eu tinha aulas. A minha professora, que me tinha ensinado, ficou super magoada e até hoje nunca me perdoou, não fala comigo. Eu gostava tanto dela, o meu ursinho de pelúcia com que dormia até tinha o nome dela; Eu lhe enviei um cartão, expliquei mas nada, é uma história que me entristece ainda hoje.



Nheko: Mas é o teu pai que, dentro da família, te incute o gosto pela música?
Mallú: A minha família é muito clássica, em minha casa não havia nada de "ensino alternativo" nem nada, tudo super normal mas o meu pai tocava violão. Tocava ao fim de semana eu adorava e cantava junto com ele, ele fazia música de tudo, se alguém gostava do salame ele fazia a música do salame, havia muita risada sempre. É curioso que o meu pai sempre foi meio bravo, ele não precisava falar duas vezes, impunha muito respeito mas depois tinha esta ligação com a música e com o humor.




Nheko: A música foi factor de união mas também se tornou motivo de conflito quando chegaste à adolescência, como é que isso foi?
Mallú: Eu tive muitas fases diferentes no início da adolescência, gostei de todo o tipo de música e vesti-me de todos os géneros, andei com todo os tipo de pessoas, eu comecei tudo muito cedo. Comecei a tocar a ter muita exposição e isso foi complicado para todos. Para os meus pais foi difícil entender as minhas opções e eu compreendo-os muito bem, eles vinham de famílias totalmente normais, com vidas super normais e de repente eu fujo a todas as normas, eu parei de ir à escola, eu não tinha mais tempo, tinha outras prioridades e assumi compromissos, para os meus pais isso não tinha explicação, isso não podia ser assim, eu tinha 15 anos.



Nheko: Sentes falta da formação académica?
Mallú: Eu terminei depois a escolaridade numa escola onde nem precisava de ir, não me exigiam nada. Não me arrependo porque aprendi também muitas outras coisas que contribuíram para ser quem sou hoje, eu escolhi muito cedo a música e assumo todas as consequências que essa escolha trouxe à minha vida, eu hoje colho os frutos que resultam do risco que assumi correr. Eu sei que tenho uma lacuna de conhecimentos mas tenho outro conjunto de experiências, é assim mesmo.



Nheko: Nessa altura, de tão grande turbilhão na tua vida e nas tuas relações familiares surge o Marcelo, um namorado muito mais velho, barbudo...
Mallú:  Mas com o Marcelo é muito fácil entender o cara fantástico que ele é, e os meus pais perceberam isso. Rapidamente o Marcelo conquistou todos, passado pouco tempo a minha mãe me ligava e dizia "Onde você está Maria Luiza? Marcelo está aí?" e se eu respondia que sim, ficava tudo bem! A minha mãe adora o Marcelo, ela sempre o defende, os meus pais são apaixonados pelo Marcelo e fazem muito bem porque ele é uma pessoa incrível. Eu sinto que o Marcelo foi super importante para mim, ele me ajudou e me deu uma estrutura emocional, ele me ajuda a ser uma pessoa melhor, mais íntegra.



Nheko: A grande exposição que tiveste foi uma coisa que condicionou muito a tua vida na altura?
Mallú: Foi uma coisa muito grande, com essa exposição enorme vieram coisas terríveis. Havia o apoio de muita gente que gostava mas surgiram coisas horríveis, havia um desenho animado me caricaturando que passava na televisão, eu passei por coisas muito radicais, eu era alvo de piada e por outro lado havia o peso das pessoas que me cobravam o tempo todo o que eu dizia ou não dizia, como a professora de violão ou os colegas da escola que ficavam ofendidos porque eu nas entrevistas referia que não tinha muitos amigos, Eu não era uma pessoa popular mas as pessoas queriam ver através de mim uma realidade que não existia, queriam ser valorizados por mim numa relação que não era real, que não existia.


Nheko: A honestidade é algo que te caracteriza? Numa entrevista que li o Marcelo referiu que ficou impressionado com a forma honesta como tratavas e fazias a tua música. És assim no que fazes, no que dizes e no que pensas?
Mallú: Eu tenho dificuldade em não ser assim, não consigo fingir que não vejo ou que não oiço. A minha atitude social é polida mas em limite eu reajo, talvez eu seja mesmo assim, eu ajo com sinceridade e a minha música é muito baseada nessa ligação que tenho comigo mesma, é uma forma de estar em contacto comigo mesma.
Eu sempre fiz música para mim, era uma coisa meio terapêutica, eu vejo que o meu pai faz muito isso, ele faz composições lindas e não mostra para ninguém. Com ele eu fico indignada, como pode não mostrar? mas ele faz isso para si próprio, eu não entendia isso, pensava que era timidez, mas não, é assim mesmo, é uma comunicação dele consigo próprio. Hoje eu entendo.
O meu processo é assim de ligação e muito orgânico mas eu tenho necessidade de mostrar, eu sou mais exibida e gosto muito dessas experiências da coragem, gosto de desafios, gosto  que gostem, eu admito que gosto disso.
Tenho essa necessidade de exposição mas sem perder a vertente terapêutica que a música tem, nessa relação de mim para mim.


Nheko: O Marcelo viu logo isso na música e depois encontrou o mesmo na pessoa que a fazia, é bonito. Vocês estão juntos faz 8 anos?
Mallú: Eu tenho 24 agora, há quem se admire muito por eu ter assim um relacionamento tão longo e agora uma bebé, todo o mundo diz que pareço mais velha?!?! Tou tomando atenção a isso...

Nheko: O que é que vos fez optar por vir viver para Portugal?
Mallú: Um conjunto de coisas. É normal conhecer lugares que se gosta muito mas nós, de Lisboa, gostávamos mais do que muito! Depois a família do Marcelo tem origens portuguesas, de Celorico de Basto e Póvoa do Varzim, eu tenho espírito aventureiro, gosto de desafios e topo tudo, aqui tinha para nós muitas vantagens: era mais seguro, na altura que viemos o custo de vida no Brasil era mais elevado e era toda uma nova experiência.
Eu sinto muita falta do Brasil, é normal, todo o mundo que sai de uma terra sente a sua falta e sobretudo das pessoas, e agora parece que ainda mais, com a nossa bebé.


Nheko: Como foi a tua gravidez?
Mallú: Nós queríamos muito ter bebé mas eu achava que ia demorar, mas não!
Eu descobri a gravidez um pouco tarde, já estava com mais de 3 meses. Eu nunca fui muito regular então não percebi, eu achei que estava com dengue! Andava a sentir-me mal e como havia um surto de dengue no Brasil e nós viajávamos para muitos locais em tournée, eu achei que era isso. Tive de fazer um teste de gravidez antes de tomar o medicamento pois seria muito prejudicial para o bebé no caso de estar gravida e foi aí que descobri.
Os três primeiros meses portanto, já nos tinham passado completamente ao lado, eu já tinha comido o que não devia nos locais mais duvidosos... felizmente que isso não trouxe nenhum problema.
O resto foi tudo tranquilo, tive espectáculos até aos 8 meses e depois ainda acompanhei a tournée dos Los Hermanos, mas foi tudo óptimo. Eu gostei embora tenha tido muito sono e enjoos.
A Luísa nasceu em Portugal e foi tudo super calmo, eu tenho a sensação que já a esperava há muito tempo.


Nheko: O que é que sentes que mudou em ti desde que foste mãe?
Mallú: Muita coisa, o meu espectro de emoções era muito grande e senti que imediatamente estreitou, fiquei muito mais estável e ponderada. Eu precisava de estar ali, não dava mais para "xeliques", havia uma pessoa dependendo de mim, e pronto, foi como um "choque de realidade".
Eu sempre almejei ser uma pessoa calma e ponderada, sensata, sempre procurei ser assim, nunca quis ser de extremos, entre a euforia e a depressão; sempre procurei este ser estável e equilibrado que encontro em mim desde o nascimento da Luísa.
Também fiquei mais cautelosa, não perdi a coragem, até me sinto mais forte nas coisas importantes e decisivas, mas no dia a dia já não corro riscos, sou super precavida, penso em coisas que não pensava antes, por exemplo, eu sempre amei ar condicionado, chegava e colocava no máximo; agora evito, agora noto até se há corrente de ar, quem é que nota uma corrente de ar???? Só uma MÃE.


Nheko: Como mãe tens mais momentos de tranquilidade ou de ansiedade?
Mallú: Eu surpreendi-me muito comigo mesma, eu pensava que seria um perigo, uma mãe hiper preocupada com tudo, com os contra rótulos, as fraldas, o ar, mas eu relaxei. Eu e o Marcelo procuramos muito o meio termo nas coisas, queremos ser uma família normal, tranquila.

Nheko: Achas que és/vais ser uma mãe parecida com a tua?
Mallú: Mais ou menos, por um lado sim, eu a repito muito, é impressionante. Mas eu estou conseguindo fazer as coisas do meu jeito, não sei,  a Luísa ainda é muito pequena.

Nheko: E como é o Marcelo pai?
Mallú: É como eu, ambos procuramos muito a normalidade. A nossa profissão é de grande exposição e nós procuramos nos proteger disso, é um equilíbrio difícil. Eu faço um trabalho tão pessoal que me exponho muito através dele, é difícil ir abrindo e fechando de uma forma equilibrada, é uma procura constante. Com a Luísa eu estou aprendendo também, é impossível não falar dela, sobre a minha ligação com ela, eu não consigo encontrar alguém e não mostrar a sua fotografia, é impossível, ela é tão parte de mim.


Nheko: O facto de teres sido mãe alterou a tua forma de estar como filha?
Mallú: Eu nos últimos anos tenho vindo a aproximar-me cada vez mais dos meus pais, eles são super legais. Depois das crises que tivemos na fase da minha adolescência a nossa ligação ficou mais reforçada, é assim como se tudo tivesse ficado mais limpo e esclarecido; eu falei tudo o que tinha para falar, ouvi tudo o que havia para ouvir, perdoámos tudo o que havia para perdoar, brigámos tudo o que havia para brigar e pronto ficámos mais fortes em tudo e na relação também.
Eu fui percebendo que o mundo é tão maior que nós e ganhei força com isso.
Quando estava grávida havia um sentimento que eu tinha e que senti necessidade de dizer à minha mãe, eu estava muito segura e sabia que a minha bebé ia ter sempre uma família que a ia acolher, que ia ter uma família maravilhosa sempre ao seu lado. Há avós incríveis dos dois lados, a minha irmã que tanto amo, os irmãos do Marcelo, é tão rica a nossa família, eu olho em volta e sinto esta família incrível, isto não tem tamanho nem preço. 

Nheko: Essa família está toda no Brasil...?
Mallú: Pois é, eu tenho de os convencer a vir para Portugal.

Nheko: A tua música nova é sobre essa casa que está preparada para acolher os outros?
Mallú: Eu fiz para a Luísa, é sobre os preparativos na casa e a expectativa da sua chegada. A gravidez demora... podia ser mais rápida a chegada.


Nheko: Já pensaram como vai ser a vossa vida num futuro próximo, a Luísa vai convosco para a estrada?
Mallú: Ainda não há uma resposta para isso. Só faço planos a muito curto prazo, tudo depende de tanta coisa e está sempre a haver alterações mesmo nas pequenas coisas, se eu penso que na próxima semana ela vai fazer isto, vestir aquilo, comer não sei o quê, quando lá chego é tudo diferente, não quer, não gosta, não serve. Eu estou a aprender a viver neste improviso a não criar expectativas, e tenho aprendido muito com isso.
Mas penso e preocupo-me em como vamos fazer as coisas, cada fase dela vai exigir uma logística diferente. O que eu não quero e não vou ser é uma mãe ausente, o Marcelo também tem essa prioridade.
O que eu imagino é construir pequenos núcleos de conforto e segurança em vários sítios e ter várias pessoas com referências afectivas fortes que possam contribuir neste processo, eu não tenho um sentimento egoísta de querer educar sozinha, acho importante e fundamental que ela esteja bem com diferentes pessoas, eu vivo bem com a ideia dela querer estar com outras pessoas e não sempre comigo, eu quero que ela seja feliz, comigo ou "sem migo", se for comigo será uma bênção mas quero respeitar sempre as suas opções e estar cá para ela, sempre!

Fotografias @paustorch
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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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