/ 16.9.16 / 6 Comments / , , , , , ,

Ano novo, escola nova


O ano lectivo começou e as manas do meio mudaram de escola. Não tinha de acontecer, faltava um ano para terminarem o terceiro ciclo mas antecipámos essa mudança. Mudaram de escola dentro da rede de escolas públicas, dentro do mesmo concelho, mas são impressionante as diferenças de que já nos apercebemos nestes poucos dias.
Sempre achei que o que faz as escolas são acima de tudo as pessoas, tal como as empresas ou qualquer outra instituição. Uma escola precisa acima de tudo de gente disponível, atenta e capaz de sentir o outro, há muitas outras coisas necessárias, mas esta é mesmo a que faz a diferença entre dois espaços que podiam ser iguais mas que se tornam muito diferentes.


No pré escolar e 1. ciclo as nossas filhas frequentaram uma escola que segue o Movimento da Escola Moderna, um método pedagógico que, entre muitas outras características, promove a valorização do outro, o respeito e a autonomia. 
Quando saíram desta escola e foram para a rede pública depararam-se com uma escola onde grande parte dos adultos se sentiam desvalorizados, desrespeitados e frágeis e que manifestavam a sua frustração na forma como se relacionavam com as crianças que frequentavam a escola. Encontraram uma escola pouco cuidada a todos os níveis, mas especialmente no que respeitava aos afectos e às relações. 
Durante estes anos questionámos diariamente o porquê desta forma de estar, procurámos fazer a diferença e promover a mudança, tentámos compensar fora da escola a má energia que elas viviam dentro da mesma.


Não sei como vai correr o ano nesta nova escola mas estes primeiros dias foram muito reveladores, encontrámos uma escola feita por pessoas atentas, preocupadas, interessadas e empenhadas e só isso faz toda a diferença.
No primeiro dia que a visitámos, ainda sem saber se conseguíamos concretizar a mudança, fomos abordados por todos os adultos com que nos cruzámos, todos disponíveis para nos ajudar e contentes por nos ter ali. 
Nesta escola sente-se no ar uma cumplicidade entre os funcionários e os alunos, os professores tratam todos pelos nomes e dão abraços quando se reencontram. 
No dia da apresentação todos se esforçaram por nos fazer sentir confortáveis, nos facilitaram a vida e nos deram as boas-vindas.



Ontem, ao jantar, voltei a ver as minhas filhas entusiasmadas, motivadas, alegres, a contar as novidades do dia. 
Ontem ao jantar, encontrei-as novamente espantadas, tal como quando entraram pela primeira vez na escola pública, mas desta vez o espanto não era por se sentirem mal tratadas mas sim porque se sentiam bem acolhidas nesta nova escola. 
Ontem reflectiram sobre a directa consequência da actuação de uns sobre os outros e concluíram que os alunos são espelho dos professores, que as crianças respondem com a mesma linguagem com que são tratadas e que os responsáveis sobre o ambiente de um espaço são todas as pessoas que o habitam.
E eu lembrei-me de uma pergunta que todos estes anos me ecoou na cabeça e que foi feita por uma das minhas filhas no início de um dos anos lectivos: "Mãe, porque é que lá na escola não gostam de nós?", acho que o que acontecia era que lá na escola não havia capacidade para fazer melhor e que se culpavam uns aos outros trocando constantes acusações em vez de procurar uma forma de promover a mudança. E acho que de facto o mais importante de tudo é sentir que somos amados no local onde passamos os nossos dias.



Não deixo de me sentir culpada pelo tempo que demorei a concretizar também eu esta tão necessária alteração. As razões foram muitas: questões práticas e a minha disponibilidade para ultrapassar as dificuldades inerentes; Algum desconhecimento das alternativas, pensava que dentro da rede pública as escolas fossem muito semelhantes no seu funcionamento; Um constante acreditar que as coisas iam mudar pois ao longo do tempo foram havendo alterações que permitiam uma real mudança na dinâmica da escola mas que efectivamente nunca aconteceu; O não querer desistir de lutar por uma escola mais justa e melhor mas que nunca teve nenhuma real repercussão; Um certo adormecimento que resultou num aceitar desta realidade como uma inevitabilidade.
E mesmo estando atenta ao que se passa à minha volta sinto que deixei esta situação arrastar-se tempo demais, foram as minhas próprias filhas que me trouxeram uma alternativa, e sinto-me muito feliz por lhes ter dado ouvidos, por ter valorizado as suas ideias e por não ter sucumbido ao comodismo e ao facilitismo. 

É de facto com elas (com eles) que eu mais aprendo todos os dias.

Fotografias Vitorino Coragem

Desejo a todos um bom ano lectivo e, acima de tudo desejo que se sintam amados e confortáveis no sítio onde diariamente passam tantas horas.
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6 comentários:

  1. Parabéns mais uma vez pela qualidade da tua escrita e pela tua entrega e partilha de vida! Tenho mesmo mto orgulho em ti! ❤️

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    1. Olá, não me parece relevante essa informação mas se tiver alguma questão que eu possa ajudar por favor envie mensagem para alexandra@nheko.pt
      Obrigada

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  3. Quanto a questão de qual é a escola...?Entendo, mas seria bom saber, porque nada melhor que aprender com os outros exemplos e essa é sem dúvida uma escola a conhecer por outras comunidades escolares e quem sabe seguirem o modelo.

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    1. Olá Elisabete, concordo consigo, envie-me um email para alexandra@nheko.pt que eu respondo com esse e outros detalhes sobre esta nossa experiência, este ano está a correr mesmo muito bem, elas andam tão animadas e felizes com a escola,gostam dos colegas, dos professores, dos funcionários, da comida... dizem que este ano já aprenderam mais do que nos 2 anos anteriores, o facto da turma ser muito pequena ajuda imenso.
      Obrigada e até breve,
      Alexandra

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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