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Ana Mesquita


Ana Mesquita é uma mulher-menina das que não têm idade, depois de mais de vinte anos dedicados ao jornalismo de moda e de ter feito tudo o que havia a fazer em comunicação, Ana Mesquita voltou à sua essência e reencontrou-se no desenho e na expressão criativa. 
Ana recebeu-nos na sua bonita casa, onde vive com o músico João Gil, e cujas paredes se vestem de obras criadas por si numa nova forma de expressão, a arte digital. 




"Nasci em Moçambique, a novecentos quilómetros a norte de Maputo. Vim para Portugal com oito anos e da minha infância tenho memórias maravilhosas. Sou a mais velha de três irmãos e sou talvez quem melhor se lembra destes tempos. Adaptámo-nos bem quando chegámos, apesar das memórias tristes da partida, mas ainda estávamos numa idade muito plástica e a minha mãe esforçou-se para que conseguíssemos todos criar uma nova e boa realidade por cá. O que não nos mata, reforça-nos e cria em nós uma ginástica interior que fica para toda a vida." 



"Quando terminei o 12.º ano fiz um ano sabático, fui para Paris. Na altura a minha mãe percebeu que tinha de me deixar ir, eu meti-me num autocarro e fui para casa de um casal de portugueses que me acolheu. Estive lá quase um ano: um tempo absolutamente intenso; tomei conta de crianças e trabalhei em feiras onde havia stands portugueses. “Clandestinamente” comecei a assistir a aulas na faculdade de Belas Artes e percebi lá que tinha de desenhar. Sempre desenhei muito. Quem me conhece desde criança lembra-se de mim a desenhar, estivesse na praia, em casa, em qualquer sítio. Agora penso como é estranho que depois tenha conseguido passar tanto tempo afastada desta actividade. Penso que durante os vinte anos em que me dediquei à escrita e ao jornalismo, eu tenha deixado que tudo isto ocupasse o lugar que o desenho tinha anteriormente. Mas a verdade é que o fiz com igual paixão." 


"No ano que vivi em Paris descobri o gosto pela moda e percebi que era nesta área que queria estar. Um dia entrei na Beaubourg, a biblioteca do Centro George Pompidou à procura dos livros de arte. Pelo meio encontrei uma zona só com livros de moda. Eu nem queria acreditar, fiquei deslumbrada com a quantidade e qualidade dos conteúdos e senti que era aquilo que verdadeiramente me fascinava, era aquilo que eu queria fazer. Entretanto a minha mãe descobriu uma escola nova no Porto, onde tínhamos de nos inscrever e candidatar, através da apresentação um portefólio, e depois defendê-lo. Os critérios eram algo subjectivos, e difíceis, porque era tudo novo, mas consegui ser admitida. Estamos a falar de 1988. A escola era subsidiada pelo Fundo Social Europeu e isso permitiu-me ficar a viver no Porto e a suportar os custos inerentes, mas logo no início do curso eu comecei a fazer trabalhos e a conseguir ter o meu dinheiro. Comecei a pintar echarpes em seda para uma empresa chamada "Nuno Morgado" que tinha uma loja em plena Av. da Boavista. Fiz isto durante anos, sem me dar efectivamente conta do real valor do trabalho. Só o vim a perceber uns anos mais tarde, quando vi uma das "minhas" echarpes exposta numa moldura em casa de um grande senhor do norte (risos)" 



"Fui colega de curso do Luís Buchinho, do Nuno Gama, da Maria Gambina, a Katty Xiomara e o Nuno Baltazar. Eles eram alunos de outros anos mas estivemos todos juntos, foram uns anos incríveis. O curso era muito prático e tínhamos um contacto grande com todo o processo. Ficámos a saber que fazer moda requer enorme conhecimento sobre a evolução das cidades, das sociedades, da economia, da sociologia, do marketing, do têxtil em geral. Conhecíamos bem as fábricas, as suas valências, exigências e produtos. Não éramos uns teóricos e trabalhávamos muito. Ainda durante o curso comecei a trabalhar para uma empresa Dinamarquesa, a Bestseller, e muito cedo me vi envolvida no universo concreto da actividade têxtil." 



"Percebi que a informação sobre moda que chegava aos jornais era francamente deficiente, e criei, como um espírito de missão que até hoje perdura (embora agora menos activa), uma nova postura no jornalismo de moda em Portugal. Sentia a necessidade de desmistificar o lado fútil que tantas vezes é erradamente atribuído ao sector. Queria explicar tudo o que envolvia criar colecções e o difícil que é criar, promover e vender uma marca. Revelar o que é escolher os tecidos, fazer os estampados, trabalhar com as fábricas. Precisava de transmitir a complexidade do processo, para que o grande público conhecesse uma realidade que na época representava mais 13% do PIB. Sentia que era minha obrigação levar esta verdade a quem a desconhecia. E isso fez-me ganhar um prémio como Jornalista de Moda, atribuído pela RTP, em 2000."


"Passados mais de vinte anos eu já tinha feito tudo o que tinha ambicionado fazer em jornalismo; Escrevi para jornais e revistas, criei e dirigi revistas e programas sobre moda, fiz televisão e rádio, entrevistei centenas de pessoas em Portugal e pelo mundo. Havia em mim um certo cansaço. Talvez me faltasse ter dirigido um Canal de televisão, mas por aí a coisa fia-fininho (risos). E houve um episódio que me mudou a vida, há oito anos, uma queda aparatosa na neve obrigou-me a parar e questionar e repensar tudo. No período de recuperação que levou meio ano, reencontrei o prazer do desenho. Fui incentivada pelo João e também por um antigo professor que muito admirava e que, infelizmente, nos deixou há cinco meses, o escultor Jaime Azinheira. Ambos foram os grandes responsáveis por eu voltar a desenhar."



"O processo da criação plástica é uma constante procura. Desenhar é a redescoberta de um certo modo contemplativo de olhar o mundo. E o desenho, realizado sobre uma nova ferramenta digital como são os tablets permite uma liberdade imensa. Dá-me acesso a todas as técnicas. É um mundo que se abre e que não tem fim. Primeiro há uma desconfiança grande, por parte de quem me observa, mas rapidamente se transforma em algo contagiante quando se apercebem de como efectivamente desenho, com naturalidade. A arte digital é profundamente excitante. Os resultados são incríveis e há uma subida da adrenalina a níveis loucos. É absolutamente viciante! No início não se consegue largar por um segundo. Tenho dias em que começo a trabalhar e me esqueço de comer. A evolução neste tipo de expressão plástica é muito rápida. Já dei vários cursos e constatei que, independentemente da idade dos formandos, o que se progride durante a formação é incrível. Há uma rapidez muito grande, mesmo nos processos mentais. O facto de não haver o medo de desperdiçar material faz com que se arrisque muito e se progrida velozmente." 


"Este tipo de suporte é muito democrático e acessível, as aplicações são bastante baratas, muito mais do que as tintas, telas, pincéis, etc. Mas cá ainda há uma grande resistência a esta forma de expressão artística. Nas minhas formações costumo referir o exemplo do grande David Hockney. Ele é talvez o artista plástico contemporâneo menos preconceituoso e que utiliza a arte digital, ele começou a utilizar esta aplicação no telemóvel e depois nunca mais parou, há até a história de que ele estava a preparar uma grande exposição e pediu mais duas salas para expor. Ninguém acreditava que em tão pouco tempo pudesse ter obras para ocupar mais duas salas. O certo é que a produção em digital é mais acelerada. David Hockney é também professor e esta proximidade das novas gerações contribuiu para este espírito mais aberto em relação às novas possibilidade na criação artística."



"Fiz uma primeira exposição dos meus trabalhos numa galeria na cidadela de Cascais. A essa exposição seguiram-se mais cinco individuais – em Paris inclusive – e outras cinco participações em Colectivas de artistas. Tem sido uma experiência compensadora ver o espanto e a reacção das pessoas ao meu trabalho. Hoje, quase seis anos depois dos primeiros desenhos partilhados no facebook e três anos após a primeira mostra em galerias, a aceitação e a procura já são uma evidência e um estímulo. Trabalho bastante por encomenda, sobretudo retratos, mas crio muitas imagens que crio e surgem espontaneamente da observação dos dias. No fundo há sempre uma jornalista a olhar o mundo que em vez de escrever, desenha. Eu e o João temos um espectáculo conjunto, Casados de fresco em que o João toca e eu desenho ao vivo e em simultâneo, interpretando as canções. Já fizemos actuações no continente e ilha da madeira. É inebriante. Dá gosto ver os rostos pasmados na plateia, perante algo de tão novo."

Fotografias Maria Noronha

Podem seguir o trabalho da Ana Mesquita pelo Facebook e Instagram.
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