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Fala com elas /03

Tendo com ponto de partida as questões e os sobressaltos que vão acontecendo na nossa vida em família, os espaços de conversa abrem-se à criação de novas partilhas sobre os temos que nos inquietam. 
Aos 16 anos e no final do 10.º ano, a Rita debate-se com as dificuldades das escolhas precoces, das orientações necessárias a dar a um percurso ainda tão desorientado, da necessidade de afirmação quando se vive em constante interrogação. 
E este foi o mote para mais uma conversa Fala com elas.


Madalena: Acabei o 11.º ano, estou na área de Ciências e tecnologia com geometria. No 9.º ano eu queria ir para artes mas como é uma área onde não há emprego acabei por optar por ciências mas escolhi geometria porque assim sempre estava ligada ao desenho.
Catarina: Também terminei o 11.º ano, escolhi humanidades porque é a área que tem as disciplinas que eu mais gosto, inglês, português e filosofia, mas também porque não tem matemática.
Carolina: Terminei o 10.º ano na área de artes mas inicialmente escolhi humanidades, tinha a ideia que no liceu a área de artes não era boa mas mudei logo no primeiro período.
Rita: Eu também escolhi a área de humanidades, terminei o 10.º ano, só escolhi esta área porque não tinha matemática mas não achei nada interessante, eu não sei o que quero, estou a tentar entrar para a escola de teatro de cascais e repetir o 10.º ano mas nem sei se é isso que quero.


Nheko: Conseguem identificar uma pessoa que admirem pelo seu percurso profissional?
Madalena: Eu joguei voleibol durante muitos anos e conheci um jogador do Benfica que tirou o curso de medicina enquanto era jogador porque queria assegurar que, depois de terminar a carreira como jogador, tinha uma alternativa. Acho fantástica esta capacidade de fazer duas coisas tão diferentes e que se gosta e de pensar assim no futuro.
Catarina: Eu nunca pensei nisso, acho que não há ninguém...
Rita: Eu admiro imenso a Inês Castel-Branco porque ela já fez imensas coisas diferentes e teve muitas experiências, eu identifico-me muito com as escolhas dela.
Carolina: Também nunca tinha pensado nisso mas quem me ocorre é o meu avô, ele vivia só com o seu pai sem condições nenhumas, levantava-se de madrugada para vender pão e conseguiu, sozinho, vingar na vida. Ele atingiu umas condições de vida óptimas para ele e para toda a família, chegou a director de uma empresa e tudo "a pulso".


Nheko: Na vida profissional qual a importância que dão à realização pessoal e ao plano material? O que acham que vão valorizar mais?
Madalena: Poucas horas de trabalho e rendimento elevado! (risos) Para mim a parte material é importante, eu gostava de ter dinheiro para fazer muitas coisas além do trabalho.
Carolina: Para mim é importante receber o suficiente para ter uma vida estável.
Rita: Isso é tão relativo, o que é para ti uma vida estável? Eu nem me importava de trabalhar numa coisa que não gostasse muito e onde ganhasse bem mas apenas para depois conseguir concretizar os meus sonhos, alguns deles profissionais.


Nheko: E sabem o que gostavam de fazer no futuro?
Carolina: Eu gostava de criar uma marca de roupa, gostava de desenhar a roupa, criar os modelos, queria trabalhar sempre ligada à roupa, adoro!
Catarina: Eu também gostava de criar uma marca minha mas não queria ser eu a desenhar a roupa, gostava de ser a dona e a responsável pela marca.
Madalena: Eu também gostava de ser dona de uma empresa, acho que, embora os donos trabalhem mais do que todos os outros sempre podem gerir o seu tempo como querem.
Rita: Eu quero ser actriz em Hollywood! Mas até lá quero viajar, fazer trabalhos como modelo, fazer formação em diferentes sítios e até em diferentes áreas. Gosto da ideia de representar e de ser reconhecida, gostava de ser famosa mas também manter a minha privacidade, acho que se fosse conhecida podia ter acesso a coisas que só as pessoas famosas têm. Eu gostava de ser tantas coisas... gostava de experimentar tudo, houve uma altura em que queria ser médica cirurgiã para mexer em sangue, etc acho que até gostava de ter mais do que uma vida!

Nheko: Que experiências profissionais já tiveram?
Carolina: Eu nunca trabalhei.
Catarina: Eu só fiz pequenas coisas como figuração, ir bater palmas a concursos...
Rita: Eu já fiz babysitting, já trabalhei no restaurante de um amigo e servi catering, fiz passagens de modelos e anúncios.
Madalena: Eu também já fiz anúncios e levava o carro ao meu pai sempre que precisava de dinheiro.

Nheko: O que é que acham que vos pode impedir de alcançar os vossos sonhos profissionais?
Catarina: Acho que o facto de estar em Portugal pode ser muito limitativo, eu gostava de ir estudar para fora. Em relação à escola eu até estou um bocado arrependida de não ter escolhido artes, talvez fosse melhor para o meu sonho, não sei, eu também ainda tenho muitas dúvidas.
Carolina: Eu tenho medo de criar uma marca que não tenha sucesso, mas nunca pensei muito nisso, nem sei se entretanto não vou até mudar de ideias.


Nheko: Quando chegaram ao 9.º ano o que acham que vos poderia ter ajudado a fazer uma melhor escolha na área a seguir?
Rita: Eu acho que desde o 5.º ano que devíamos ter acesso a experiências diferentes e que nos mostrassem o mundo do trabalho, todos os meses devíamos ir conhecer e experimentar coisas, visitar empresas, visitar hospitais, como na Kidzania mas adaptado, experimentávamos diferentes profissões e assim conseguíamos perceber melhor o que gostávamos.
Madalena: O que acontece é que se escolhe a área a seguir por causa das disciplinas que mais se gosta ou, muitas vezes, que não se gosta. Eu acho que devíamos poder construir o nosso plano, fazermos a escolha das disciplinas que íamos ter.
Rita: Entre o 10.º e o 12.º ano devíamos poder ir escolhendo as disciplinas e experimentando, íamos compondo o nosso programa.
Madalena: Se mudamos de área somos penalizados, se eu quiser mudar para artes tenho de voltar ao 10.º ano, eu se calhar até gostava de mudar mas nem ponho essa hipótese por causa dos meus pais, isso não é muito bem aceite na minha família, para mim não haveria grande problema porque não acho que seja perder, ganhamos sempre experiência.
Catarina: Na minha família era tranquilo, se eu quisesse voltar para trás os meus pais aceitavam bem, acho que eles se preocupam mais com a forma como eu faço as coisas e com o meu esforço do que com os resultados, é assim com os testes e notas e acho que era assim neste caso.
Rita: Eu também sinto que para os meus pais o importante é o meu esforço e que eu me sinta feliz com as minhas escolhas e atitudes.

Nheko: Na escola sentem que têm alguém disponível para falar sobre estes assuntos?
Madalena: Só os directores de turma mas há alguns que não falam de nada que não seja da sua disciplina, há até os que chegam ao fim do ano sem saber os nomes dos alunos.
Carolina: Eu este ano precisei de ajuda, senti-me completamente perdida e sem saber o que fazer e não tive apoio nenhum do meu DT, ele só me queria era despachar.
Rita: Nos liceus devia haver uma pessoa sempre disponível para os alunos falarem destes assuntos, um psicólogo com quem pudéssemos conversar sobre isto e também sobre outras coisas.


Nheko: Que experiências, fora da escola, é que acham que vos podem ajudar a perceber o que realmente querem fazer no futuro?
Carolina: Eu gostava de conhecer uma empresa que produzisse roupa, conhecer o processo todo, até trabalhava lá sem me pagarem, só pela experiência.
Madalena: Eu gostava de fazer voluntariado num país em África mas tenho medo de depois já não querer voltar a estudar, de sentir o gosto da independência e não querer voltar para trás à vida de estudante.
Rita: Viajar, acho que conhecer outras culturas e sítios nos ajuda a perceber o que queremos de facto. Eu gostava de viver fora, de partilhar um pequenos apartamento com uma amiga ou até com as minhas irmãs mais novas, trabalhar num café numa cidade no estrangeiro, viver outra cultura. No fim do 12.º ano gostava de parar um ano e ir viajar, ter várias experiências antes de optar pela faculdade, pelo curso a seguir.
Carolina: Haja dinheiro e viajar é bom em qualquer altura! Na verdade eu até gostava de ir estudar para fora mas quando penso nisso tenho medo.

Nheko: O terrorismo é um fantasma que assombra esses vossos sonhos de viajar e viver fora de Portugal?
Madalena: Mete medo mas não acho que seja isso que me vá impedir de ir.
Rita: Eu tenho uma forma de pensar que podem até achar um disparate mas eu não tenho medo nenhum, eu acredito que acontece o que terá de acontecer. Acredito que há uma força superior que vai criando o nosso caminho que, dependendo das nossas atitudes, vai determinando o que nos vai acontecer, tudo é consequência do que fazemos e do que somos, mesmo que não seja imediato, acredito que há algo acima de nós que nos conduz, há quem lhe chame Deus... eu não Lhe atribuo nenhum nome mas sei que existe e que vive em nós. 
Carolina: Eu não consigo acreditar em Deus, com tanta injustiça e sofrimento no mundo, se existisse Deus não podia haver tanta coisa má.
Madalena: Uma vez na missa o padre disse: "Deus é quem segura a mão dos que sofrem, não quem lhes provoca o sofrimento", é assim que eu entendo Deus.

Fotografias KID

Podem ler as anteriores publicações Fala com elas aqui e aqui.
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2 comentários:

  1. Olá Alexandra, já há algum tempo que sigo o seu blog mas nunca comentei. Acho que escreve muito bem e que acima de tudo é muito genuína e trasmite muito bem aquilo que sente em palavras. Tenho 16 anos, estou na área de Economia e vou agora para o 12º ano e tal como a Rita e as amigas também tenho algumas incertezas sobre o futuro.
    Por um lado, o que é que me irá fazer feliz? Trabalhar muito e ter dinheiro e não ter tempo para usufruir, ou ter menos dinheiro e ter uma vida mais simples mas não poder usufruir de certos bens materiais, viagens, etc? Por outro lado, o que é que os meus pais/família e a sociedade esperam de mim? Devo tirar uma licenciatura? Devo fazer um "gap year" entre o secundário e a faculdade?
    Enfim, são muitas perguntas e escolhas que jovens de 16/17/18 anos têm de começar a fazer. Eu também penso como a Rita, gostava de experimentar muitas coisas, servir às mesas, trabalhar numa gelataria em Itália (por exemplo), ser artista de rua, enfim... mas para tudo e qualquer coisa é preciso ter uma licenciatura ou algum género de especialização. Por vezes gostava que fosse como antigamente (pelo que o meu pai me conta).
    Mas eu acho que acima de tudo, apesar da nossa escola do secundário é sempre possível reverter a situação e seguir mesmo o que gostamos, mesmo que isso implique perder um ou mais anos.
    Peço desculpa pelo desabafo e pelo comentário tão longo, mas é um assunto com o qual também me debato. :)

    Beijinhos e continuação de bom trabalho :*
    Sara F

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    1. Olá Sara, nem imagina como este comentário me deixa feliz e até emocionada, ser lida por uma rapariga da tua idade e ainda por cima ter direito a elogios? Mas que maravilha, já ganhei o dia, a semana... o mês!
      Muito obrigada pelo comentário e pelo desabafo, é também para isto que este espaço existe.
      Um grande abraço e boa sorte para essas escolhas difíceis que começam agora a aparecer, a verdade é que nunca mais vão deixar de existir, ser crescido é complexo mas também é muito bom!
      Beijinho, Alexandra

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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