/ 2.6.16 / 13 Comments / , , , ,

Gravidez de risco


Eu já era uma mulher crescida, até madura e com três filhas. 
Decidi, e a vida decidiu comigo, ter outro filho e vivi uma verdadeira revolução interior.

Tinha 38 anos e alguma estabilidade.
Um emprego, três meninas e um companheiro atento.
Mas uma nova morada e uma impaciência que já pensava ter desaparecido, vieram fazer tremer o meu solo firme e de cada vez que via um bebé eu emocionava-me - era a casa nova, os jardins, o silêncio e o barulho dos pássaros, o tempo; eram as meninas crescidas e o cheiro a bebé que ficava nas mãos e me enchia de lágrimas.

A razão, as contas e a lógica abriam-me muito os olhos como as mães fazem às crianças quando estas ameaçam portar-se mal.
Mas esta vontade começou a ganhar espaço dentro de mim, a dominar os meus pensamentos durante cada vez mais tempo ao longo do dia, a dormir comigo de noite e quando dei conta já se tinha apoderado e silenciado a lógica e a razão; amordaçou-as e deu-me ouvidos moucos para os seus argumentos.
No dia em que comecei a falar disto tinha a certeza de que não havia volta a dar e que nunca mais nada seria igual.


Quando fiquei grávida sabia bem que estava a abrir uma porta para um novo mundo, ter um bebé nesta idade ia ser avassalador para as poucas certezas que tinha construído ao longo destes anos, mas eu sentia-me capaz e suficientemente forte para ser despejada de verdades e receber a incerteza.

Tenho muitas saudades da emoção da gravidez. Da alegria de cada acordar, da felicidade palpitante no decorrer dos dias.
O meu olhar, ao virar-se para dentro, conheceu uma lucidez maior no que via à volta. A comunicação emocional com as minhas filhas despiu-se de ruídos e ganhou a profundidade do silêncio partilhado. A vida ganhou um novo ritmo, mais lento e sentido, como se de repente os pormenores importantes ganhassem uma luz própria e sobressaíssem no meio de tudo o resto.

Os meses foram passando e eu degustando lentamente este repasto, sentindo cada aroma, decifrando cada ingrediente e, embora não gostasse de tudo, procurava identificar de forma serena o que me incomodava e perceber como podia transformar a minha relação com isso. Foi um alterar completo da forma como me relacionava com o mundo e eu ia percebendo que isso traria consequências incontornáveis e irreversíveis.
Tornei-me mais tolerante com os outros mas mais intolerante com a forma como me deixava poluir pelo exterior, sentia a minha família como um balão de oxigénio onde eu podia encher os pulmões de ar puro e tentava mantê-los assim nos outros ambientes onde me via obrigada a respirar.
Comecei a perceber que algumas realidades que tinha aprendido a suportar não seriam mais possíveis de manter nos meus dias. Lentamente fui aceitando que mudar de vida era uma inevitabilidade à minha nova condição, percebi que esta mudança exterior era uma consequência natural à revolução serena que vivia internamente e foi nessa altura que decidi que ia sair do emprego que tinha há 12 anos.
Quando dizem que fui muito corajosa eu encolho os ombros, não por menosprezar esta opinião mas apenas por saber que não tive escolha, ou antes, que esta foi um "efeito colateral" de outra decisão tomada anteriormente.



Depois de ter prolongado a licença de maternidade até não poder mais, regressei desencantada à vida que já não me fazia sentido, lutei durante mais de um ano para encontrar motivação onde sabia que não ia conseguir nada, como "quem espera o comboio na paragem do autocarro", diariamente eu caminhava no sentido contrário à minha vida e tentava reencontrar nexo, plantava sementes em terra morta.
Estranhamente e sem ter nada de concreto a acontecer que indiciasse uma mudança nesta área da minha vida, eu sentia uma esperança constante, era como se tivesse sempre a certeza que alguma coisa ia acontecer e mantinha essa certeza em banho-Maria, num lume muito baixinho de forma a que nem entrasse em ebulição nem arrefecesse de vez, e essa sensação morna ia-me mantendo atenta.
Repetia em silêncio frases que ia ouvindo: não devemos ter medo dos nossos desejos, se acreditarmos muito conseguimos fortalecê-los e criar as condições para que se concretizem; a vida se resolve sozinha.
Depois, o que aconteceu comigo foi uma mistura de sorte, de loucura, de irresponsabilidade, de consequência de um percurso e do fluir da vida.
Passado um ano de remar contra a minha maré a sorte mudou, a vida baralhou e voltou a dar e eu arrisquei ir novamente a jogo, com outras regras e com muito mais riscos mas com a minha paz restabelecida.

E agora, passado mais outro ano e pouco aqui estou, com um projecto nos braços, como um bebé que me dá noites más, poucas horas de sossego, que tenho de alimentar de duas em duas horas, que me traz angústias enormes e me provoca dores tortas e outras agudas, que me preocupa, que muitas vezes me leva ao desespero e me dá vontade de desistir, mas que me derrete por completo quando se mostra, quando olho para ele como que para um bebé a dormir, quando me emociono ao ouvir o seu nome na boca de outros, quando o sinto a crescer e a existir de facto, a ser mais do que uma vontade, um desejo, quando sinto que é real e que, mais do que estrias me deixa cheia de rugas, "rugas de sorrir". 

Este projecto Nheko é o culminar de um processo iniciado quando decidi ter mais um filho, é a materialização do que eu sou hoje e no que a vida me tornou. Quando quis ter este filho nesta fase da minha vida eu sabia que estava a aceitar os termos de responsabilidade que estavam escritos nas entrelinhas e que isso implicava recriar-me de novo.
Quando olho para ele, para mim e para a minha família, sinto que foi talvez a melhor decisão que tomei na vida. Não a tomei sozinha mas sei que só eu tinha ideia no que isto ia dar.
Sinto-me muito grata por toda a sorte que tenho, especialmente pelo companheiro maravilhoso que está ao meu lado e agradeço também a este filho a oportunidade que me dá de viver a vida desta forma.

Fotografias Pau Storch

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13 comentários:

  1. :)

    Adorei ler.

    Por aqui a vontade também existe....e os dias e as noites são ocupados com esses pensamentos mais tempo do que antes!

    (Aqui 3 filhos também!)

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  2. Tão bonito, Alexandra, tão inspirador, apesar de sabermos que o que nos inspira "deu muito trabalho" a alcançar :-)
    Próximo do meu percurso, pelo menos nos meus últimos 6 meses: com a diferença de que serei mãe com 1 número 2 depois dos 40 :-)
    Quando descobri que estava grávida pensei num post que a ALexandra havia escrito há uns tempos, onde dizia mais ou menos isto: "se tens vontade e te sentes com forças para mais um filho, não penses, vai em frente! Nunca te irás arrepender". E é mesmo isso, apesar de ter sido uma surpresa, foi uma bênção dos deuses da terra, e as bênçãos agradecem-se e abraçam-se :-)

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    1. Obrigada, que bom que é saber que as minhas palavras chegam ao sítio certo. Abraço grande!

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  3. É realmente uma história feliz...não é para todas...e é sim uma mulher de coragem. Gostei muito de ler essa parte da sua vida e quem toma decisões tão profundas e importantes merece ter tudo de bom.

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  4. ai ui ai... estou tão naquela fase "durante mais de um ano para encontrar motivação onde sabia que não ia conseguir nada, como "quem espera o comboio na paragem do autocarro", diariamente eu caminhava no sentido contrário à minha vida e tentava reencontrar nexo, plantava sementes em terra morta", mas sem saber bem qual o melhor rumo! Ainda só tenho duas, e acho que apenas planeio o terceiro para ganhar essa mesma coragem (assim espero!!).
    Talvez a "crise" de consciência dos 30s, que não suportam ficar presos num ecrã de computador, quando a vida passa fora da janela, e leva a voar o crescimento dos teus bebés!! ai!
    Adorei ler, mais uma inspiração para ganhar coragem!
    um beijinho
    Diana

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    1. Obrigada Diana, são caminhadas longas estas... boa sorte para esse lado! Abraço, Alexandra

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  5. Olá Alexandra,
    Admito que li o texto na diagonal, a "correr", à procura do Projeto "Rosa". Pensei mesmo que estivesse grávida; foi o título, acho eu; ou então, a vontade e a dúvida de ter mais um filho. Julgo que li em algum lado (aqui ou no blogue) que gostava de ter mais uma filha (tenho quase a certeza que sim) e que se chamaria Rosa. Espero não estar a fazer confusão...
    Mas percebi que o objetivo do texto não é esse, é falar do bebé "Nheko". Vou guardar a frase "não devemos ter medo dos nossos desejos, se acreditarmos muito conseguimos fortalecê-los e criar as condições para que se concretizem; a vida se resolve sozinha" para me ajudar em algumas decisões.
    Obrigada pela partilha. E se não foi a Alexandra que falou do projeto Rosa, peço desculpa. :)

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    1. Ahahahaha que comentário maravilhoso, está tudo certo, a "Rosa" era de facto um projecto que viveu na minha cabeça logo depois do nascimento do Raul, durante algum tempo desejei muito ter mais um(a) filho(a) e adorava que fosse mais uma menina: A Rosa. Entretanto o tempo passou e a razão não nos deixou levar avante esse projecto. Mas ainda guardo comigo o desejo de, se a vida mudasse e as condições se tornassem favoráveis... a Rosa seria muito bem vinda.
      Obrigada pelo comentário, adorei!
      Abraço, Alexandra

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  6. Lindo e inspirador! Parabéns pela coragem sim que o foi com uma forte determinação meio louca! Formam um casal espectacular e brilhante que admiro muito já há uns anos :p só podia dar coisas boas e gerar essa família brilhante! Tudo de bom!

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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