/ 24.6.16 / No comments / , , , , ,

Anna Westerlund


Anna Westerlund é ceramista, casada com o actor Pedro Lima esperam para breve o nascimento do quarto filho: a Clara, que se vai juntar à Emma, à Mia, ao Max e ao João Francisco, filho do Pedro.
Anna passou a infância entre Portugal e a Suécia, foi modelo durante mais de 10 anos e a meio do curso de Publicidade e Marketing resolveu dar ouvidos à sua vontade de criar e tirou o curso de ceramista no Centro de Arte & Comunicação Visual - AR.CO.
Conversámos sobre a os diferentes papéis que tem na vida, sobre a educação dos filhos, sobre a importância da liberdade e do respeito pelo indivíduo e como tudo isto se reflecte na sua Vida em Família.





Nheko: Tens uma costela nórdica e vens de uma família pequenina, sempre sonhaste em criar uma família grande?
Anna: O meu pai é sueco e a minha mãe portuguesa, tenho um irmão mais velho que vive na Suécia onde está toda a família da parte do meu pai. A família do lado da minha mãe é de cá mas está espalhada pelo mundo, sempre fomos só nós. Sempre senti uma "inveja boa" das famílias numerosas, fascinavam-me talvez por serem o oposto da minha, eu ouvia alguns amigos a contarem histórias sobre os seus Natais cheios de gente com mais de trinta pessoas, sobrinhos, irmãos, primos. Ficava maravilhada com essa imagem.


Nheko: És uma mãe muito diferente da tua ou ouves a tua mãe constantemente nas tuas palavras?
Anna: Acabamos sempre por ouvir e por vezes em coisas que criticávamos ou que achávamos que nunca íamos dizer. Eu revejo-me em muitas coisas nos meus pais e acho isso positivo, há uma série de posturas e de atitudes que eles tinham como pais onde me encontro e reconheço, quando temos nos nossos pais bons modelos e exemplos cabe-nos a nós conseguir retirar a parte boa e tentar melhorar os aspectos que não queremos repetir.





Nheko: Como foi a tua infância?
Anna: Nós passávamos o Natal e o Verão na Suécia e isso proporcionou-me experiências fantásticas, vivíamos quase no meio da floresta e gozávamos de uma enorme liberdade e uma forte ligação com a natureza, foi um privilégio imenso tal como o contacto com a diversidade cultural que foi muito enriquecedor.

Nheko: Quais as principais diferenças que encontras nas duas sociedades?
Anna: Tanta coisa, até na forma como as pessoas se relacionam. Somos aparentemente muito parecidos, aliás nós achamos que todos os europeus são parecidos mas na verdade há grandes diferenças, coisas altamente estruturais. É engraçado como eu sinto isso, quando eu estou na Suécia sinto-me muito portuguesa mas quando estou cá sinto-me muito sueca, parece que as diferenças se evidenciam, às vezes é como se não pertencesse a sítio nenhum.
Há grandes diferenças por exemplo nas escolas, o ensino na Suécia é muito diferente especialmente pela forma como lá se valoriza a individualidade e a liberdade e isto desde muito cedo, há uma consciência da importância destes factores no processo pedagógico, há uma grande vontade de chegar a cada individuo, de permitir e criar espaço para cada um e respeitar os diferentes ritmos que cada individuo tem na sua expressão.





Nheko: Esses aspectos foram os que determinaram a escolha da escola dos vossos filhos?
Anna: A Emma como mais velha foi a nossa "cobaia", experimentámos primeiro uma escola que assentava nos princípios da pedagogia Waldorf, eu não falava sueco com os miúdos e achava que isso era impedimento para eles andarem na escola sueca mas eu tinha lá andado e tinha excelentes memórias, depois percebemos que esta era a mesmo a melhor opção e verificámos que a integração é fácil e que os miúdos têm uma capacidade de adaptação inacreditável, em poucos meses a Emma estava não só a falar mas a ler e a escrever sueco. Esta escola é muito boa, valorizam muito a liberdade, o indivíduo, o contacto com a natureza, a criatividade.


Nheko: A arte e a criatividade estiveram sempre presentes na tua vida?
Anna: Sim, desde miúda que me lembro de mim a criar, a construir coisas, fazia parte de mim mas eu não pensava nisso como uma possibilidade de ser a minha profissão, nunca levei nada disto a sério. Estudei publicidade e Marketing e coincidiu com uma altura em que eu viajava muito a trabalhar como modelo, aliás essa era a vertente que eu mais gostava desse trabalho. Em cada cidade onde ia eu procurava os museus e as galerias, tinha uma sede de arte, precisava de alimentar em mim este gosto e fui constatando que essa era mesmo uma vertente muito importante em mim, comecei a sentir claramente que a Publicidade e o Marketing não saciavam este meu desejo, esta necessidade, este meu lado criativo. Resolvi então fazer uma pausa e arriscar outra coisa.
Tinha 21 anos quando fui para a AR.CO e escolhi cerâmica por considerar que era uma área onde eu podia explorar um trabalho de autor sem este anular a possibilidade comercial do mesmo, na minha cabeça fazia sentido juntar este aspecto mais utilitário ao trabalho criativo, parecia-me interessante e adequado para mim.
Eu aproveitei para fazer várias formações, fiz desenho, pintura, joalharia e gosto muito de cruzar todas estas áreas, utilizar os conhecimentos que adquiri e brincar com isso.
Nunca me senti uma artista, sou uma criativa, uma artesã. Não tenho o lado individualista nem conceptual característico de um artista, gosto de construir em conjunto, estimula-me imenso trabalhar em equipa, criar parcerias, não me imagino a trabalhar isolada.

Nheko: E no meio deste percurso criativo e formativo apareceram estas três "criações"
Anna: Sim, estas belas "obras de arte"... eu tive os três durante o tempo que frequentei o AR.CO e até brincavam comigo por isso.
Eu e o Pedro tínhamos muita vontade de ter filhos e eu pensei que seria mais fácil conciliar os filhos com esta fase de formação e início de carreira, fiz o processo inverso do habitual, primeiro tive os filhos e só depois me dediquei de forma mais plena ao trabalho, quando eles já estavam um pouco mais crescidos e autónomos, foi uma opção muito consciente. Por isso, na verdade eu só me dediquei de uma forma mais séria à cerâmica há dois, três anos.



Nheko: As exigências da profissão do Pedro também foram determinantes nessa opção?
Anna: Sim, claro. Um de nós teria de ter maior disponibilidade e fazia sentido que fosse eu. Todas as opções têm um lado bom e outro menos bom, tenho total disponibilidade para acompanhar os meus filhos mas não temos a estabilidade material que outra profissão me poderia dar, são opções, as nossas opções.


Nheko: No meio de todas essas "opções conscientes" e planificação surgiu esta gravidez, uma surpresa da vida?
Anna: Uma verdadeira surpresa! Eu descobri com esta gravidez que, embora eu seja muito sonhadora, positiva e até infantil nos meus ideais, eu sou uma pessoa que projecto e planifico a vida e fiquei mesmo bastante abalada com esta surpresa, independentemente de a ter recebido muito bem e me sentir muito feliz com ela. Foi um choque para mim!

Nheko: Esta está a ser uma gravidez muito diferente das anteriores?
Anna: Concretizei à pouco tempo que a grande diferença entre esta e as outras, além da surpresa, é que até há bem pouco tempo eu ainda não tinha parado. Não tinha olhado para nada, aquela coisa de olhar para as roupas, preparar os conjuntinhos, imaginar quem os vai vestir. Eu ainda não tinha feito nada disto, tive de me obrigar a parar, a sentar-me com as coisas à minha volta e ficar ali, permitir-me a ficar ali só comigo e com ela.
A verdade é que tenho estado com muito trabalho e eles os três estão numa fase em que têm as suas coisas, as actividades etc e tudo se torna muito absorvente, nesse sentido parece que o dia a dia não me permite usufruir tanto. Ultimamente tenho-me mesmo obrigado a parar e a ficar mais presente, mais ligada a ela.




Nheko: Para os irmãos esta também é uma experiência nova, como é que a estão a viver?
Anna: Eles três têm pouca diferença entre si, cerca de dois anos, a Emma que é a mais velha não se lembra dos irmãos pequenos, ela está a viver tudo com grande intensidade, a gaveta das coisas da Clara está no armário dela, foi ela que cortou as etiquetas das roupas e escolheu o conjunto que ela vai vestir no dia que sair da maternidade, esse papel, que eu me lembro perfeitamente na primeira gravidez, na dela, está agora a ser assumido por ela, é muito engraçado. 
Sinto como se esta gravidez não seja "tão minha" para passar a ser "nossa", há toda uma partilha entre todos. É um privilégio viver isto tudo com eles!
E eu estou naquela fase em que quando vejo um bebé pequenino penso: "que sorte a minha que vou poder viver isto tudo outra vez!"e noutros dias só penso: "Ai no que nós nos vamos meter..." há um misto de sentimentos mas é tudo muito tranquilo e sem ansiedades. 
Com eles os três foi tudo muito planeado e pensado, aconteceu exactamente como tínhamos pensado, como se já os conhecêssemos mesmo antes de nascerem, como se os tivéssemos escolhido. Agora com a Clara é tudo ao contrário, como se tivesse sido a Clara a escolher-nos a nós, parece que desta vez é ela que já me conhece e eu estou sem saber nada.



Nheko: Tens uma boa relação com todo o processo da maternidade?
Anna: Adoro toda a experiência da gravidez e até do parto mas não tenho uma relação especial com a amamentação, amamentei os meus três filhos mas pouco tempo e por opção. Acho este um assunto muito pessoal, eu sinto que tenho uma necessidade grande de separar a Anna mãe da Anna mulher e não consigo manter a amamentação durante muito tempo porque mistura estas duas facetas que são muito importantes para mim de estarem separadas. Esta é uma forma muito pessoal de sentir as coisas e de me saber escutar com toda a liberdade e respeito por mim como um todo.

Nheko: Tu e o Pedro têm uma relação longa, quais as práticas das quais não abrem mão para se conseguirem manter ligados e próximos?
Anna: Esta consciência dos nossos diferentes papeis na vida é uma coisa importante. Somos pais mas também somos amantes, e há também a Anna e o Pedro como seres individuais com as suas necessidades próprias. É claro que o papel de pais se sobrepõem a todos os outros mas é preciso estar atento. Eu se noto que o Pedro está a precisar de mais tempo para si eu procuro respeitar essa necessidade e ao contrário também acontece. Nós tentamos criar momentos para nós, para namorar. Integrar esses momentos na nossa vida e criar espaço para que aconteçam com regularidade.


Nheko: Qual o vosso conceito de "Vida em família"?
Anna: A Emma no outro dia disse uma coisa engraçada, para ela uma família era como um grupo de amigos mas com pessoas de idades diferentes, pessoas que fazem programas juntos, que tê opiniões diferentes mas que gostam muito uns dos outros.
É isso, somos um grupo de pessoas que gostamos muito uns dos outros e fazemos programas juntos, gostamos muito de ir à praia, de fazer surf e usufruir do estar ao ar livre. 

Nheko: E quais os pilares onde assentam a educação dos vossos filhos?
Anna: Liberdade/responsabilidade; Respeito pela individualidade, pelo tempo e espaço de cada um; Tolerância com os outros e com a diferença. São princípios que facilmente acontecem em famílias grandes.

Nheko: A adolescência é uma fase que te provoca muitas "dores de crescimento"?
Anna: Nós já vivemos uma parte da adolescência do João Francisco, filho do Pedro, ele tem 18 anos e na verdade tem sido tudo muito tranquilo. Há uma ligação forte entre nós e isso é muito facilitador. Também acredito que há uma fase da vida em que a sorte tem um papel dominante, eu sou muito positiva e confio muito. Eu como adolescente sempre tive muita consciência, lembro-me de pensar que não tinha o direito de preocupar os meus pais, sentia tanto o amor deles e a nossa união que não conseguia sequer colocar a possibilidade de os decepcionar ou "mal tratar", a minha consciência não me permitia ter certos comportamentos, sinto que o amor incondicional é estruturante. Há um respeito recíproco.
Todos nós somos acima de tudo indivíduos, somos filhos ou pais mas somos acima de tudo pessoas que se relacionam entre si, a liberdade e o respeito são formas de nos estruturarmos, a adolescência é uma fase muito importante nesta definição do que somos.


Nheko: Como gerem a questão do consumismo na vossa vida e na educação dos miúdos?
Anna: Nós optámos por ter mais filhos em vez do "dar tudo" a um só, em primeiro lugar porque questionamos o que é que é isso de "dar tudo"? para nós o "tudo" são coisas que não custam dinheiro, tudo o resto são opções, claro que não estamos a falar de necessidades básicas como a comida e a segurança, quando falamos na escolha da escola, nas roupas ou nas marcas dos ténis, as férias que temos... tudo são opções. Nós temos um orçamento que gerimos com muita seriedade, o Pedro é actor e eu ceramista, esta é a nossa vida com todas as opções que isso implica, não estimular o consumismo é também uma opção que faz parte da nossa forma de estar na vida. Os nossos filhos pedem muito pouco e nós temos alguns hábitos que lhes servem certamente de exemplo, no Natal apenas há um presente para cada, preferimos experiências a bens materiais, valorizamos as coisa que não se compram como o estar juntos e ter tempo.


Nheko: E como é que tu geres o teu tempo?
Anna: Trabalhar em casa e numa coisa que gostamos tem o perigo de nunca pararmos de trabalhar, eu tenho o estúdio em casa e se não me obrigar passo o tempo todo a fazer coisas ligadas ao meu trabalho, ou é uma resposta a um e-mail no telemóvel ou é mais um painel de inspiração no Pinterest... é um perigo. Muitas vezes preciso mesmo de sair para conseguir desligar e aí consigo mesmo, fico dois dias sem pegar no telemóvel e sem pensar em trabalho.

Nheko: Como é que vocês lidam com a exposição mediática que o facto do Pedro ser actor vos traz a todos?
Anna: Vivo com muita naturalidade essa consequência da profissão do Pedro e do facto de ele fazer televisão, eu também fui modelo e estamos juntos há muito tempo, os miúdos cresceram com isso mas tentamos que seja uma coisa equilibrada que não nos sintamos invadidos, gerimos tudo de forma consciente.


Nheko: Que planos tens para o futuro próximo, além do nascimento da Clara?
Anna: Por causa da Clara temos a casa em obras e eu estou muito entusiasmada porque sinto que vou conseguir adaptar mais o interior da minha casa à minha imagem e gosto. Depois estou também a restruturar o site e até ao fim do ano quero tê-lo acabado, eu não consigo estar parada e ficar só com o que já está a acontecer, tenho esta necessidade de criar, de ter novos desafios, a questão das parcerias vai ser uma àrea que quero reforçar no site e é algo que me estimula mesmo muito.


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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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