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Sara Carinhas

Sara Carinhas nasceu em 1987 e foi um "bebé de camarim", cresceu entre os palcos dos teatros nacionais onde trabalhavam os seus pais, a bailarina e coreografa Olga Roriz e o encenador e tantas outras coisas Nuno Carinhas. Deles herdou a curiosidade, a capacidade criativa e a constante procura do outro na criação conjunta. 
Aos 29 anos, Sara já trabalhou como actriz com alguns dos grandes nomes do teatro e do cinema nacional  mas é na encenação que se tem vindo a sentir mais completa e próxima do que procura: um cruzar de linguagens que se encontrem na expressão de cada pessoa com quem trabalha. 
É neste diálogo com os outros que não se consegue alhear das causas sociais que abraça com a mesma naturalidade com que nos olha nos olhos enquanto conversa sobre quem é.


Nheko: És filha de duas grandes figuras da cultura portuguesa, sentes que a tua infância foi condicionada por isso?
Sara: Era normal acompanhar os meus pais e estar onde eles estavam, já fui chamada de "bebé de camarim", há muita gente que se lembra de mim desde essa altura. Há muita coisa que não me lembro mas tenho memórias concretas da Gulbenkian, lembro-me do som das aulas de dança, o barulho das sapatilhas no chão quando saltavam, lembro-me do piano e do cheiro da sala das massagens. Sinto que mesmo que esta vivência não tivesse resultado numa mesma opção de vida tinha valido como uma passagem de um mundo enorme, um universo criativo, imagético que faz parte da minha educação.
Eu lembro-me de demorar imenso tempo a perceber como era ser actor, eu não conseguia bem perceber que eram pessoas, houve uma altura em que só via o lado fictício, fantasioso e não compreendia como é que depois se podiam cruzar comigo no corredor, era estranho e engraçado.
Eu lembro-me de um espectáculo que o meu pai encenou que se chamava "A ilusão cómica" e que brincava com a ilusão, era um espectáculo tão impossível que me alimentou esta dúvida de como é que tudo aquilo era real? Como acontecia? Seriam aquelas pessoas reais, quem eram aquelas personagens?
Esta é a fase mais bonita, depois há outra em que se vive com alguma banalidade o facto de nos sentarmos ao lado dos actores, dos cantores, dos bailarinos.

Nheko: Tinhas consciência que vivias num ambiente diferente, quase como um mundo à parte? Sentias esse confronto na realidade que vivias na escola, como foi o teu percurso escolar?
Sara: Não, nunca tive essa noção, a minha vivência escolar foi uma coisa muito irregular, mudei várias vezes de escola e não tinha a melhor relação com a escola; não era uma apaixonada pelo estudo e aquilo não me despertava grande interesse. Depois também não criei laços fortes, talvez por ter mudado várias vezes de escola não criei laços afectivos e não fiz grandes amigos, hoje dou grande importância à amizade e aos amigos quase como se tentasse compensar essa fase.
Quando andava no liceu Passos Manuel comecei a trabalhar e aí sim, senti um hiato enorme entre o que vivia no teatro e o ir para a escola, nessa altura a escola ainda se tornou uma coisa mais distante e difícil que pouco tinha a ver com os meus interesses, no teatro eu encontrava sentido, na escola não.
Mas em todas as escolas eu fui encontrando professores que faziam a diferença, normalmente eram professores que não se limitavam às matérias e as abordavam na relação com o mundo, ofereciam-nos outros pontos de vista, ligavam a escola à vida.

Nheko: Com que idade começaste a fazer teatro?
Sara: Eu sou absolutamente terrível, péssima com datas mas foi nessa altura do Liceu Passos Manuel, na adolescência. Até comecei por fazer um filme, na escola colocaram um anúncio para um casting e eu fui com um grupo de colegas, nem ia nada motivada mas acabei por ficar com o papel principal de uma rapariga com anorexia. Durante muitos anos eu não levei a sério nada do que fazia, tenho consciência disso, para mim eram só coisas que estavam a acontecer. Lembro-me que passados uns anos percebi que precisava de tornar a coisa mais séria e com mais técnica porque já só estava a seguir os meus impulsos de forma intuitiva e isso não chegava. 
Uma das minhas primeiras experiências foi um musical aqui no São Luíz, "Os cabeças no ar" e uma coisa decisiva que me aconteceu foi ter sido "adoptada" pela Fernanda Lapa que me levou para um espectáculo que era a "Medeia", eu fazia parte do coro que estava sempre presente em cena, este espectáculo abriu muitas coisas em mim.

Nheko: Mas durante a tua infância não fizeste aulas de dança ou outro tipo de expressão artística complementar proposta pelos teus pais?
Sara: A minha mãe foi comigo a uma escola de dança para perceber o que é que eu sentia, fiz aulas e até uma prova de admissão mas ela conta que eu lhe disse: "Eu gosto de dançar mas à minha maneira", ela percebeu que eu não sentia o prazer que ela conhecia e sentia. Nunca houve da parte dos meus pais nenhuma intenção de me empurrar para nada.
Eu quando tive de escolher na escola fui para ciências, se calhar para ser rebelde... claro que depois correu mal, eu não tinha nem as competências nem a paixão necessárias e acabei por mudar para artes sendo que depois fui para a faculdade de letras. Foi um longo percurso à volta deste "afinal o que é que eu quero ser?", na verdade nunca foi, nem é ainda uma coisa assim tão óbvia, ser actriz ou encenadora (que tem feito muito mais sentido para mim), seja A coisa, ainda não estou nada com a certeza que esta é a profissão da minha vida e que nasci para isto. 
Há quem tenha muitas certezas neste aspecto mas eu não, eu acho que há muitas portas que se estão sempre a abrir e muitas coisas que acontecem e podemos arriscar, escolher, mudar... também sei que há a necessidade de ganhar dinheiro mas, em relação ao teatro nada do que possamos fazer em paralelo é prejudicial, antes pelo contrário muitas experiências servem para nos reforçar e para nos alimentar, eu não consigo afunilar tudo numa opção só mas é óbvio que o caminho são as artes, fazer qualquer coisa em paralelo que esteja ligada à criação, pode ser na escrita, na fotografia. Há uma forte ligação à fotografia na minha família da parte da minha mãe, a fotografia é algo que me acompanhou desde sempre, houve uma altura em que andei apaixonada pela fotografia de guerra, pelo fotojornalismo.


Nheko: Vem daí o teu interesse pelas causas sociais?
Sara: É mais recente a minha reacção-actuação nessa área mas a paixão pela observação de perto das situações vem de há muito tempo e surge pela fotografia, essa coisa de estar presente, de testemunhar e trazer ao mundo. Claro que é uma situação idealista, o que se regista para trazer ao mundo, nem sempre este movimento se dá assim, existe a manipulação, o ruído todo que se sobrepõem a esta verdade mas no meu mundo ideal de adolescente a fotografia era a prova que se trazia ao mundo.

Nheko: E como foi a tua adolescência?
Sara: Normal e com tudo de direito: As dúvidas existenciais, quem era eu? foi a altura em que surgiu a escrita na minha vida. Há pouco tempo fiz o exercício de reler o que escrevi nessa fase e é interessante encontrar esse "sítio" que é a adolescência onde tudo é tão martirizado mas também muito idílico. A escrita foi muito importante para mim nessa fase, depois parei e gostava muito de recomeçar. É um treino.


Nheko: Onde é que sentes que colocas mais a força da tua emoção?
Sara: Há alguns sítios onde coloco essa força da emoção, ter descoberto a encenação foi para mim muito importante, descobri que é algo que me faz feliz, às vezes até mais do que a interpretação apesar de achar que as duas coisas se alimentam. Quando estou a encenar eu gosto muito de receber - e aí está o afecto - o que os actores têm para dar, não sou nada de recorrer a esquemas pré feitos, claro que tenho as ideias mas não levo certezas nem caminhos definidos, há aqui também um jogo com as pessoas que escolho, a forma como me relaciono com elas, espero que aconteça alguma coisa entre todos, acho que aqui está um sítio bonito dos afectos com a paixão pelo que faço e pelos outros. Depois eu sou hiper-mega-ultra romântica, há um romantismo enorme em mim.

Nheko: Viveste uma experiência muito marcante que foi uma viagem a Atenas para ires ao encontro de grupos de refugiados Sírios, como é que isso aconteceu?
Sara: Fui com a minha mãe. Ela queria ver esta realidade de perto e eu sabia que se não fosse com ela não iria depois sozinha. Não há explicação para o que se sente quando estamos perante aquela realidade, claro que há coisas que já sabes mas que nunca as vais sentir como eu as senti, ver como eu as vi. Fomos pouco tempo, não tínhamos muita margem, havia um contacto na embaixada que nos ajudou a chegar a alguns dos locais que queríamos, fomos ao porto de Atenas, a uma praça muito importante "Victoria Square" e a um centro de acolhimento para refugiados.
Perceber até onde ia o contrabando dos materiais, dos coletes, dos barcos, etc, aliás ainda nem tinha saído a notícia dos coletes falsos e foi um choque gigante, como é que podia acontecer? aquele material não só não flutuava com ficava cada vez mais pesado com o contacto com a água, este confronto foi terrível. Mas talvez a maior lição tenha sido sentir que apesar de estarmos ali com o coração aberto, a tentar não parecer abutres que se alimentam de toda esta desgraça, ainda assim quando estivemos no centro de acolhimento um rapaz fez-nos a visita guiada e nós não olhámos bem para este rapaz. A certa altura ele disse que era médico cardiologista e eu senti que nunca na vida eu teria olhado para ele assim, e senti que apesar de estar ali supostamente livre não o consegui estar.Foi estar noutro mundo. Quando estás numa praça não percebes quem é quem, há uma atitude de dignidade na reacção física, uma verticalidade. Mas depois há a fome. E há as crianças, há os olhos das mulheres.
Foi uma experiência muito marcante. Eu tentei escrever. Também gravei, queria registar algumas coisas mas é difícil de ouvir, sou imediatamente transportada para lá. Estou a tentar pegar nisto e fazer alguma coisa, talvez um dia apareça num espectáculo ou noutra coisa.
Esta experiência fez-me, ao voltar, procurar algumas pessoas de diferentes áreas com diferentes tipos de intervenção, tentei perceber quais as instituições que funcionam, conheci grupos informais de gente que, por não se identificarem com nenhuma das instituições existentes, se constituíram como associação e procuram ter uma actuação séria à medida das suas capacidades, são pessoas de diferentes áreas, são mães, são pessoas incríveis com uma capacidade e força inesgotável.
Escrevi uma carta aberta com ajuda de muitas outras pessoas com o objectivo de chamar à atenção, tentei agitar e fazer falar sobre este assunto que é difícil. 
Não é óbvio perceber o momento em que nos tornámos indiferentes ao sofrimento dos outros. Eu voltei muito diferente desta viagem, eu que me considero uma pessoa informada e consciente precisei de fazer esta viagem para me sentir verdadeiramente mudada e para perceber que temos de romper com certos comportamentos que se foram instalando dentro de nós sem darmos conta. Não sei por quanto tempo vou conseguir manter esta energia, gostava de transformar esta experiência num produto criativo, para já tenho estado a utilizá-la no que estou a fazer sem me conseguir dissociar disso.


Nheko: Quais são as ideologias e crenças que estiveram presentes na tua educação ou que encontras hoje em ti?
Sara: Não percorri nenhum caminho, não sou baptizada etc. Também não tenho nenhuma fricção sobre o assunto, não lido de forma negativa com isso mas não atribuo nomes a nada, acho muito bonita a presença da fé no material literário com que trabalho mas acho que eu não penso muito nisso. Gosto de imaginar que a energia que oferecemos ao mundo nos vem devolvida numa outra forma. Aceito com tranquilidade as vicissitudes da vida por ter a crença que nada acontece por acaso e tudo tem um propósito mesmo que na altura não o consigamos vislumbrar.
A minha mãe conta que as minhas questões em miúda estavam muito ligadas a conceitos como o infinito, a dimensão, o universo. A ciência e o discurso dos cientistas sempre me fascinou. Há uma pessoa muito importante na minha vida, a Ana que vivia com o meu pai e é minha mãe também e que é a pessoa que mais diz "vejam este documentário" "leiam este artigo", ela adora partilhar e provocou-me este gosto por procurar diferentes pontos de vista para cada assunto.
Depois acho que encontrei sempre muitas respostas na ficção, no belo, na arte, isso foi fundamental para o meu equilíbrio.

Nheko: Tens alguma linguagem criativa|artística que te toque mais ou alguém que te tenha marcado significativamente?
Sara: Não posso fugir a uma pessoa com quem me cruzei, conheci e me deu conselhos fantásticos: A Pina Bausch.
Aqui reconheço que o ambiente em que sempre vivi e as pessoas que conheço me facilitaram o acesso e ajudaram na criação das condições para esta aproximação. A Ana convenceu-me a oferecer-lhe um presente, dei-lhe um desenho do meu pai e num jantar onde estivemos ela veio sentar-se ao pé de mim e disse-me: "Se puderes vai para fora, vai para um sítio onde não sejas protegida por ninguém" e disse isto como se me conhecesse desde sempre e se soubesse tudo sobre mim. Disse-me que também ela tinha feito isso, que tinha ido para NY sem sequer saber falar inglês. 
Depois estive em Wuppertal e conheci mais de perto a sua companhia, tenho um livro que ela me deixou. Estivemos juntas umas cinco vezes mas ela tinha uma coisa, uma forma de te fazer sentir especial e único, um amor e um cuidado. 
Humanamente e artisticamente é para mim uma referência, alguém que trabalhava com o amor que o outro lhe dava, além de que era muito conhecedora, tinha muita técnica, estudou e trabalhou imenso mas tinha esta coisa de ser uma boa impulsionadora da criatividade dos outros e uma óptima montadora do que os outros dão e isso também é muito importante porque podes ter em mãos excelente material e não conseguires fazer nada de extraordinário. Nos espectáculos dela há algo de universal de maior, há o belo.


Nheko: No teu trabalho tentas também ter sempre presente várias linguagens e criar uma ligação entre elas?
Sara: Há trabalho coreográfico que se encontra com o trabalho de interpretação, eu tento que haja sempre estas duas vertentes talvez porque também gostava de ser ambas. Os meus pais também aqui foram grandes referências, a forma como o meu pai encena é-me muito familiar, eu gosto muito da relação que procura com a pintura, com a música...

Nheko: Tens os teus pais como uma presença constante em ti, já pensas em ti como mãe?
Sara: Já pensei mas para mim não é fácil porque sou gay e não posso simplesmente partir para aí. É um processo mais complexo, eu realmente gostava que fosse mais natural e orgânico, mais biológico entre mim e a pessoa que amo. No sentido prático chateia-me ter de pensar nisso mas é assim. Eu já pensei nisso mas também acho que é muito cedo, embora já tenha sentido um apelo que é irracional.
Gosto de pensar em ter uma família, sinto muitas vezes que a minha é pequena, gostava que fosse maior com mais partilha.

Nheko: Foi doloroso o teu processo de construção da identidade sexual?
Sara: Foi doloroso quando tive de descobrir que essas coisas tinham nomes, antes não me era estranho, era assim natural e só tinha a ver com atracções entre pessoas.
Depois há as dúvidas que são colocadas pelos outros, se "é uma fase?" Eu não tinha feito nunca esse tipo de questionamento, foi qualquer coisa que surgiu de fora, para mim era tudo muito natural e, felizmente, eu não tinha comigo mesma um problema com isso.
Mas causa fricções até desconforto e acho que é a primeira vez que, numa entrevista o digo assim mas estamos a falar de mim e é-me natural. Sinto que muita gente opta por não falar abertamente sobre o assunto para evitar julgamentos e consequências mesmo que esteja bem resolvido consigo próprio. Infelizmente ainda é muito complexo e conflituoso, tenho muita pena que assim seja, por vezes até penso que devia falar mais do assunto, ser mais activa, mas chego à conclusão que o sou ao falar de forma natural, ao agir naturalmente e mostrar o amor que tenho por outra pessoa de forma pública e descontraída. Não tenho grandes problemas com os outros talvez por não os ter comigo. Se toda a gente falasse das coisas com mais naturalidade elas iam ganhando essa forma aos olhos dos outros.


Nheko: Sair de Portugal é fundamental para pensar o mundo?
Sara: Eu fui educada a pensar o mundo, viajar é fundamental. Ganhei um prémio fantástico de 5000€, do Estoril Film Festival e era um prémio que podia ser usado como quiséssemos na nossa profissão e formação. Eu guardei este dinheiro e esperei pela altura certa para ir, para sair do país. 
Conheci em Évora uma pessoa muito especial, a Professora Polina Klimovitskaya com quem me identifiquei muito e que soube que dava aulas em NY, resolvi então e de uma forma inesperada ir ter com ela por um período indefinido e fui. Nesta altura lembrei-me das palavras da Pina Bausch, foi para mim muito importante esta experiência, nesta cidade acontece tudo, tanto à tua volta como dentro de ti, foi muito bom ter estado com esta professora que me ensinou muito. É fantástico ter alguém que é para nós como um mestre que ambicionamos conhecer e aprender com. Para mim foi muito importante sair dos sítios onde todos me conhecem e lidar com esta realidade nova.
Eu não fui para NY a pensar em ficar e isso ajudou-me porque eu não tinha esse peso, foi uma experiência fantástica. 
Londres também foi e é importante para mim, uma cidade com a qual eu me identificava mais e onde até me imaginava a viver. Foi a Beatriz Batarda que me deu o empurrão certo para eu avançar e sair à procura de escolas, bater às portas e perceber como funcionava. Tenho ido sempre que consigo mas ainda não fiz nenhum tipo de investimento para ter um agente ou fazer esse tipo de contactos, fui sempre numa procura pessoal de ver coisas e fazer workshops, é claro que para isto é preciso ter dinheiro e ter este objectivo como prioritário. Participar nestes workshops é fabuloso não só pelos formadores mas pelas pessoas que se cruzam, pelas relações que se criam e pelas inúmeras possibilidades de encontro, são grupos com pessoas muito diferentes, são mini amostras do mundo.
Tenho um sonho de vir a fazer um espectáculo onde reúna todas estas pessoas que tenho vindo a encontrar e a conhecer ao longo destas minhas viagens, sei exactamente quem são. Era extraordinário conseguir isto.

Fotografias de Pau Storch no Teatro São Luiz
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