/ 16.5.16 / 11 Comments / , ,

Quem corre por gosto...



Dou por mim a reajustar aquilo que nunca pensei ser possível de sofrer alterações, esforço-me por não me sentir refém da minha própria liberdade e reafirmo o meu foco em voz alta para não sair do caminho.
Relembro-me que afinal fui eu quem procurou este mar revolto, troquei o marasmo das águas paradas pela agitação das marés vivas, fui eu até que preparei a tripulação para o que aí vinha e sou eu agora que me tenho de manter na rota que defini. 

Tento encontrar o equilíbrio.
Procuro-o na forma como ocupo o tempo e vivo a minha vida, procuro-o no que dou e no que recebo, no que espero e no que consigo, entre o que procuro e o que encontro.

Correr atrás de um sonho e depois transformá-lo num pesadelo é um risco demasiado grande.
Sinto que este querer mais da vida, arriscar fazer o que o instinto me diz pode facilmente empurrar-me para um abismo onde a queda é iminente. 
Imagino-me a olhar para baixo o tempo todo sem conseguir viver tranquila o facto de estar cá no cimo.
Arriscar é muito mais do que ter coragem, é aceitar viver com medo e conseguir transformá-lo em energia criadora, em auto motivação e em força.



Querer viver com paixão o que se faz, alimentar criativamente um projecto, organizar os tempos, ser tudo ao mesmo tempo sem tempo para ser cada uma das coisas são desafios constantes.
Além de que ser o próprio patrão e trabalhar em casa é um pau de dois bicos; há por um lado o conforto de gerir o tempo, de estar no melhor local do mundo, de poder parar para beber o chá favorito, ouvir a música que mais se gosta e usufruir do espaço próprio. Poder estar e responder sempre que os filhos precisam, almoçar bem e fugir à rotina muitas e muitas vezes, ir ao mercado a meio da semana, respirar o silêncio quando todos saem e tantas outras coisas tão boas e tranquilizadoras que me  fazem agradecer diariamente e sentir que sou uma privilegiada. 
E depois há também o outro lado, aquele que me impede de usar a pausa da manhã para beber o chá e ouvir a música e me empurra para a cozinha para tirar a loiça da máquina, pôr a roupa a lavar enquanto o ficheiro descarrega, tirar os brinquedos da sala no decorrer de um telefonema de trabalho, o lado de me atafulhar de coisas para fazer no tempo reservado para ir mandar encomendas ao correio e  que aproveito para tratar dos assuntos pendentes ou passar no supermercado. Acordar mais cedo e adormecer mais tarde, trabalhar sempre que há oportunidade para isso, sentir a cabeça a fervilhar e ter ideias a toda a hora.
E, de repente, é a linha que separa o tipo de tarefas que desaparece e já não há as coisas da casa e as de trabalho, há as coisas da vida e estão todas dentro de um mesmo saco pesado que carrego comigo para onde quer que vá. Uma mistura total que acontece porque sou aquilo que faço.
E este é o preço desta opção, este é um ritmo que, sem compassos certos nos exige muita disponibilidade e amor.

Depender totalmente do caminho que vou trilhando também não é pacifico, há uma sensação de impossibilidade de parar que muitas vezes é angustiante, como se houvesse uma bola de neve que rola atrás de mim enquanto corro. Sou eu que escolho a direcção em que sigo mas sei que, se abrandar o ritmo ou se parar para descansar, sou imediatamente esmagada. E há dias em que esta sensação se torna aflitiva mas noutros é muito estimulante e desafiadora. Certo é que correr acompanhado torna tudo mais fácil tal como olhar em volta e procurar na ligação com os outros a motivação necessária para continuar.

Ainda assim haverá sempre quem, confortavelmente sentado, veja a vida a passar a correr e arrisque dizer: Quem corre por gosto não cansa.
Cansa pois!


Fotografias Vitorino Coragem

Share This Post :
Tags : , ,

11 comentários:

  1. Cansa, e de que maneira! Sobretudo quando se vive com a sensação de que nunca se está no sítio certo, nem no momento certo, como era o meu caso há uns tempos.
    Agora, vivo numa ilha tropical com muito calor e pouco que fazer. Portanto, a vida é mesmo uma carrossel, pronto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma ilha tropical soa muito bem... Abraço e obrigada

      Eliminar
  2. Que texto tão bonito... pontualmente trabalho em casa e reconheço que é dificil distinguir as "duas vidas" mas acredito também que quando queremos conseguimos, que a força que nos move tem a capacidade de definir o prioritário... aos poucos fui conseguindo distinguir os dois mundos, casa/trabalho, espero que assim continue e também espero, de coração, que o consiga fazer.

    us4all.blogs.sapo.pt
    http://facebook.com/us4all/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Definir o prioritário é mesmo importante, obrigada pelas simpáticas palavras, abraço

      Eliminar
  3. Também gostei muito do texto. Talvez por me ter identificado com ele de uma forma tão intensa. Obrigada. Beijinhos, Alexandra.

    ResponderEliminar
  4. Confesso que sem empregada o trabalho da casa me ultrapassa e acabo por não ter tempo para as minhas próprias coisas. Beijinho grande , Sofia Costa

    ResponderEliminar
  5. Espectacular!!!! Andas-te a vasculhar a minha cabeça????? Sinto EXACTAMENTE O mesmo!!!! Parabéns pela escrita!!! É um dom que te assiste. Mts parabéns querida amiga.

    ResponderEliminar
  6. É tudo tão verdadeiro, identifico-me em cada palavra! Tem tanto de bom e tranquilizante como de desgastante e confuso :)
    Um grande beijinho

    ResponderEliminar

Sobre Nós

Apresentação

O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

A nossa loja

@nheko_

Seguir por e-mail

Pesquisar