/ 22.4.16 / 4 Comments / , , , , , , , ,

Para onde vamos quando desaparecemos?



Por vezes a vida dá-nos algum tempo para nos irmos preparando para o que vai acontecer, outras vezes é no meio de um dia de sol que chega a notícia avassaladora.
Aquela pessoa que faz parte da nossa vida, de um momento para o outro... já não está viva, e de um segundo para o outro tudo muda. 
A dor profunda da perda, a procura das justificações, a revolta, a raiva, a culpa, a tristeza, o medo, tudo se mistura e se apodera de nós.

Só vivi este sentimento já crescida, durante a minha infância não perdi nenhum ente querido, só em adulta, enquanto esperava a minha primeira filha, morreu o meu querido avô, que era uma peça fundamental na minha vida, e pouco tempo depois seguiu-se a minha avó. 
Foi um processo lendo daqueles que nos dá tempo para antecipar o momento; tantas vezes me sobressaltei com o toque do telefone, tantas vezes me encaminhei para o hospital a pensar se seria a última vez, tantas vezes tentei ensaiar a dor.
Senti e vivi tudo de uma forma surpreendentemente tranquila e serena, foi como se a vida me estivesse a empurrar escada acima e no momento em que fazia de mim mãe, me retirava o direito de ser neta. Aceitei sem mágoa, nasceu em mim uma saudade que ainda hoje me visita todos os dias.
A ausência de quem muito amava passou a fazer parte da minha vida e, consequentemente, da vida das minhas filhas. Em pequenas sempre ouviram falar da avó Mathilde e do avô Leonel como se, a qualquer momento, eles pudessem estar ali, à mesa a ajudar a arrefecer a sopa delas.



Outras perdas muito significativas aconteceram na nossa vida durante a infância das minhas filhas e foi com elas que fomos construindo um caminho na dor e na saudade. 
Fiquei a perceber a imensidão da sensibilidade das crianças, da estreita ligação que têm com tudo o que as rodeia e que ultrapassa o plano perceptível da existência, elas sentem muito antes de lhes traduzirmos em palavras o que está a acontecer e conduzem os seus lutos à sua medida e totalmente de acordo com as suas próprias características, nas três meninas vi três formas distintas de lidar com a dor e com a ausência. Há quem fuja para a frente e se recuse a aceitar a dor, quem interiorize e a tente esconder dentro de si e quem se revolte e indigne com a situação, quem grite, chore e fique sem comer.
Chorámos sempre juntos e essa foi a nossa forma de viver, de aceitar e de ultrapassar, de incluir no nosso dia a dia quem já não podia estar entre nós, fazer da ausência uma presença que é invocada sem peso e sem receio por qualquer um de nós. Cá em casa sempre falámos dos mortos de uma forma natural e sempre os lembrámos com frequência. As frases feitas da avó Mathilde fazem parte dos nossos dias e estão fortemente enraizadas na memória dos meus filhos. Ver fotografias de quem já não pode aparecer para jantar e relembrar a sua presença sempre fez parte dos nossos dias, optámos por não fugir à dor da saudade nem tão pouco a guardar fechada num sítio longínquo da nossa memória.
Tivemos um gato que muito amámos e que subitamente adoeceu e morreu, aconteceu numa altura em que as meninas já eram crescidas e se começavam a debater com as grandes questões filosóficas da vida. Foi uma perda dura e novamente vivida de forma muito diferente por cada um de nós, é interessante como a uns activa a capacidade de fazer coisas e a outros puxa para uma introspecção quase assustadora. Estes momentos são tão intensos na vida de uma família, são alturas em que o respeito e a auto ajuda são as únicas armas que, juntamente com o amor, nos fazem regressar a uma normalidade onde nunca mais nenhum de nós será o mesmo que era antes.



O facto de não termos uma teoria pré feita para o que acontece depois da morte deu aso a muitas conversas cá em casa, permitiu cada um apresentar a sua visão das coisas e construir um imaginário próprio à volta deste mistério, temos alguns livros que são importantes e assistimos a espectáculos absolutamente marcantes ao longo dos anos.
Que o meu nome não te assuste, da companhia espanhola Títeres de María Parrato e A caminhada dos elefantes, do Miguel Fragata e da Inês Barahona que recentemente esteve no Teatro São Luíz são os que mais destaco e que mais me tocaram mas houve outros que nos ajudaram a arrumar as emoções e a viver de forma mais apaziguada com este confronto que é também a fragilidade da nossa própria existência.
Para onde vamos quando desaparecemos do Planeta Tangerina é a mais recente publicação que cá chegou a casa e também à nossa loja e que, não sendo directamente sobre a morte, aborda o tema do desaparecimento: das pessoas e das coisas. É um livro fantástico para divagar, para reflectir, para procurar respostas para perguntas sem resposta que ainda fazem nascer mais perguntas.

"Para onde vamos quando desaparecemos? aborda de forma subtil o tema da ausência, do desaparecimento e da morte. Não trazendo respostas definitivas, abre as portas à imaginação, tornando o tema (mesmo que por breves instantes) um pouco mais leve. (...)

Para que alguma coisa desapareça são precisos sempre dois (um que fica e um que desaparece)."

Fotografias Vitorino Coragem

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4 comentários:

  1. O" livro tibetano da Vida e da Morte", achei fundamental para perceber a dor da morte , apesar de até aos meus 36 anos só ter vivido a morte de uma tia maravilhosa, e foi tudo muito sereno.

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    1. Olá Patrícia, vou procurar, qual é a editora? Obrigada.

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  2. Nem sempre consigo passar por aqui e, por vezes, escapam-me publicações. Quase que me escapou esta.  Obrigada pela partilha.
    Descobri, muito recentemente, um livro que aborda este tema de forma subtil, uma vez que o tema principal é a diferença entre religiões. Fala de um Gentio, ou seja, de um homem que, não acreditando que existe alguma coisa depois da morte, parte à procura de respostas. Encontra 3 sábios, cada um de sua religião; a partir daqui desenrola-se a narrativa. Adorei este livro (falo dele no blogue), porque apesar de ser baseado numa história muito antiga, é muito atual, pelos piores motivos, já se sabe. Aqui fica o link, caso não conheça: http://www.fragmenta.cat/pt/pequena_fragmenta/pequena-fragmenta_438340/494779
    Também não conhecia esta editora e foi uma agradável surpresa.
    Obrigada.

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    Respostas
    1. Olá, não conheço não e vou procurar.
      Obrigada, abraço

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