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Emanuel San e as Santa Cecília

Emanuel Santos é artista plástico, fez o curso de escultura, esteve ligado ao teatro tanto na interpretação como na cenografia, é músico e professor educador na área das expressões artísticas. Pai de duas meninas a Cecília e a Olívia que são quem dá nome às guitarras que constrói. 
Em 2012 lança a marca Santa Cecília e oficializa a sua paixão pelas Cigar Box Guitar's que andava a namorar desde 2010.
Estivemos à conversa na "Fábrica da Alegria", no Porto, o local onde tem a sua oficina. 




Nheko: Como é que estas guitarras aparecem na tua vida?
Emanuel San: Foi a propósito de um espectáculo do TUP, Teatro Universitário do Porto, que se chamava Alan e era a partir da vida e da obra do Tom Waits, andávamos a fazer pesquisas, a ouvir e a ler tudo o que havia sobre ele e eu encontrei as cigar box guitar's. 
Neste espectáculo eu estava a fazer a cenografia mas também a interpretação e havia a ideia de ter uma coisa musicada, decidimos criar um ambiente tipo cabaré com música ao vivo, com percussão, guitarra e voz e foi aí que criei um primeiro instrumento deste tipo.
Estes instrumentos fazem parte da cultura popular Americana, estão associados ao nascimento do Blues, do Bluegrass a cena da guitarra de slide também associadas aos músicos pobres do sul da América que construíam os seus próprios instrumentos. Isto surge por volta de 1840, 50 na altura da guerra civil americana, quando os cigarr's - os charutos, começam a ser vendidos não só a avulso como à caixa, é um puro aproveitamento de material, os primeiros cordofones que surgem são chamados Diddley Bow que são um topo de vassoura com uma corda de arame que é tocado com o Bottleneck que é um gargalo de garrafa cortado e dá um som extraordinário. A partir daqui a coisa começa a crescer até que começam a surgir os primeiros construtores de instrumentos em série com a revolução industrial e isto cai em desuso, acaba por ficar uma coisa datada ligada a uma época, depois tem um primeiro ressurgimento em 1920, aproximadamente, com a grande depressão e depois um novo aparecimento nos anos 80, 90, nos estados unidos e depois um pouco por todo o mundo.
Comigo, o que começou como uma necessidade de construir um adereço para um espectáculo, revelou-se depois numa paixão, eu gosto muito de fazer isto!





Nheko: E há quanto tempo é que isso aconteceu, como foi o caminho até à criação da marca Santa Cecília?
Emanuel San: Foi em 2010, na altura eu nem a fiz com uma caixa de charutos, utilizei uma caixa de madeira crua daquelas que se vendem para pintar e para guardar jóias, ficou meia estranha com um som que causava muita estranheza mas que toda a gente achava fantástico, eu gosto muito dela mas olho e penso que é a vassoura mais chunga que já fiz, um dia ainda a vou recuperar e dar-lhe a dignidade que ela merece. 
Depois de 2010 houve um período de interregno mas depois comecei a fazer mais, a aperfeiçoar-me até que assumi verdadeiramente o que estava a fazer, contei com a ajuda e o empurrão da Tânia Santos da CRU e criei o nome, a página de facebook e marquei uma data para ter uma série de guitarras feitas e fazer o lançamento oficial. A partir desse momento tive algum mediatismo, a comunicação social interessou-se e fiz algumas entrevistas, uns directos e mesmo a imprensa escrita fez algumas publicações online e tudo isto me deu o reforço necessário e a vontade de continuar.





Nheko: E qual a história por de trás do nome Santa Cecília?
Emanuel San: Cecília é o nome da minha primeira filha que tem o nome da avó materna que se chamava assim por ter nascido no dia 22 de Novembro, dia de Santa Cecília, a padroeira dos músicos. Santa Cecília é uma mártir cristã que morreu na fogueira mas que morreu a cantar. Cecília é um nome latino tal como Olívia, o nome da minha filha mais nova e das novas guitarras que ando agora a construir. São dois nomes que casam bem.
Sou uma pessoa que, mais do que dar significado às coisas, eu gosto de o dar às pessoas e esta homenagem às minhas filhas faz-me todo o sentido.




Nheko: Quantas Santa Cecília já fizeste e quem é que as procura?
Emanuel San: Já fiz mais de trinta, umas trinta e cinco... tenho uma média de uma por mês desde que, em 2012, lancei a marca. Estas guitarras são feitas com boas madeiras, utilizo componentes electrónicos fiáveis, procuro bons materiais e gasto muitas horas a fazer cada uma delas que é única. Eu não ganho muito com cada uma, dão-me mais gozo que dinheiro, tive de tentar aproximar o valor delas ao preço das guitarras feitas em série na China, onde são feitas quinhentas mil por dia, este é um objecto especial mas o valor não pode fugir muito.
Normalmente quem as procura são músicos, mais ou menos activos mas pessoas que lhes vão dar uso. A Rita Red Shoes tem uma, a mim enche-me de orgulho ver músicos a utilizá-las, encheu-me o coração ver o Nuno Rafael a tocar uma música do Zeca Afonso, cantada pelo Sérgio Godinho com uma guitarra feita por mim.





Nheko: E de onde vêm tantas caixas de charutos?
Emanuel San: De uma loja que se chama Cigar World, tem loja online e duas lojas físicas, uma em Gaia e outra em Lisboa. Quando fiz a apresentação do projecto das Guitarras Santa Cecília enviámos um press release e ligaram-me da Lusa, fiz uma pequena entrevista telefónica que se espalhou e o representante da loja soube e apareceu no lançamento, falámos e ele disponibilizou as caixas, eu fiz-lhes uma guitarra que têm exposta na loja e são o meu fornecedor regular.
Aproveito algumas também para guardar e organizar o material que utilizo, agora vou começar um lap steel guitar, é o primeiro que vou fazer e já comecei a guardar o material necessário numa caixa e a trabalhar a madeira. A cena fixe destas guitarras feitas com caixas de charutos é que são a iniciação da construção de instrumentos de cordas, a partir daqui podemos experimentar outras coisas, eu estou sempre a inventar coisas novas e a querer melhorar, há modelos que já têm pickups e conseguem um som mais nobre que permite melhor controlo da equalização, etc. Agora estou a construir uns modelos de guitarra eléctrica, as Olívia.





Nheko: Qual é a tua formação?
Emanuel San: Eu venho das Belas Artes, fiz escultura, mas o gosto por construir está mais ligado ao teatro, à cenografia, objectos de cena, montagens de espectáculos e há também a música, eu tocava em bandas de garagem, metíamos tudo no carro e íamos dar concertos. Ainda tive umas aulas de clássica mas eu queria era guitarra eléctrica, queria tocar com palheta, ainda por cima tinha um professor de guitarra que me punha a ouvir Deep Purple, Jimi Hendrix...
Além disto eu dou aulas de artes plásticas em várias escolas públicas do pré escolar num projecto da Câmara Municipal do Porto que se chama Porto Crianças. Somos vários formadores, este ano temos oficinas de pintura, teatro sombras, filosofia para crianças. Trabalhamos directamente com as crianças e em paralelo com os educadores. 
A Fábrica da Alegria que é este sítio onde estamos e onde tenho a oficina, está à espera para se mudar para um espaço novo e aí vão ser ainda mais os projectos e as ideias para fazer acontecer.

Fotografias Vitorino Coragem

Podem seguir a página de facebook Santa Cecília e espreitar a participação do Emanuel San no programa Makers na RTP2.

A partir de hoje podem também encontrar uma Cigar Box Guitar Santa Cecília na nossa NhekoShop, para mais informações ou encomendas personalizadas basta enviar mensagem para shop@nheko.pt
Obrigada.
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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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