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Ana Pina

Ana Pina arriscou largar o seu emprego estável e seguro num gabinete de arquitectura para ir atrás do seu sonho e alimentar a vontade de criar que tinha dentro de si.
Criou a sua própria marca de joalharia contemporânea e recentemente abriu o atelier de joalharia que é bem mais do que isso, Tincal lab é uma plataforma virtual e espaço de atelier|oficina aberto a outros criadores e um local que acolhe exposições e workshops.
Foi aí, em plena baixa do Porto, na rua de Cedofeita que nos recebeu e onde pudemos conversar e apreciar as suas bonitas peças.


Nheko: És mesmo do Porto?
Ana: Morava com os meus pais em Matosinhos e só quando vim estudar para a faculdade de Arquitectura, que fica no Campo Alegre,  é que comecei a viver o Porto, em pequena vinha ao centro com a minha mãe fazer compras.

Nheko: E já nessa altura tinhas gosto por acessórios?
Ana: Eu gostava das coisas normais que as meninas gostam, eu sempre fui uma criança muito séria, talvez até demais, era muito madura. Mas sempre gostei muito de desenhar, não pensava nisso em termos futuros, profissionais mas sempre adorei desenhar e experimentar materiais novos.

Nheko: A arquitectura surge naturalmente no teu percurso?
Ana: Eu quando cheguei ao 12.º ano não tinha dúvidas que queria seguir artes, sabia que era a área com a qual eu mais me identificava mas a escolha do curso não foi assim tão imediata e simples. Sempre gostei mais de pintura e das áreas artísticas mas o meu lado racional dizia-me que não era uma boa opção em termos profissionais, uma das saídas para pintura era o ensino e eu não me imaginava a dar aulas. Como tinha boas notas e também gostava de arquitectura acabei por optar por esse curso.




Nheko: E chegaste mesmo a trabalhar como arquitecta?
Ana: Eu fiz o estágio para a ordem e depois trabalhei num gabinete de arquitectura durante cinco anos só que cheguei à conclusão que não era aquilo que me imaginava a fazer para o resto da vida. Gostei muito, sobretudo do curso, acho que me deu ferramentas para tudo o resto que fui fazendo, tanto ao nível do desenho como do processo de criar, é um curso muito completo que me deu muito gozo fazer mas na chegada à vida profissional, sobretudo trabalhando em contexto de gabinete de outro arquitecto, deixei de ter contacto com o processo criativo, fazia desenhos técnicos e passava horas sem fim ao computador. Isto para quem gosta de criar é muito frustrante.

Nheko: E quais foram as soluções que encontraste face a essa sensação de frustração que a falta de criatividade do teu trabalho te provocava?
Ana: Criei um escape, comecei a criar peças em bijutaria por brincadeira e participava em feiras e mercadinhos. Primeiro comecei com a bijutaria e depois também com a ilustração, ganhei coragem e foi na primeira edição das Feiras Francas, penso que em 2010, que mostrei os meus desenhos pela primeira vez em público com intenção de os vender. Aconteceu que foram muito bem recebidos e isso foi o incentivo necessário para continuar. Entretanto na bijutaria comecei a sentir que precisava de saber mais e procurei uma formação especifica nesta área. Eu enquanto consumidora era algo que gostava muito, que comprava e admirava mas não pensava ainda que viesse a ser uma criadora. 



Nheko: E quando é que sentiste que esta podia ser uma coisa séria para a tua vida?
Ana: Eu fiz um primeiro workshop de iniciação na escola Contacto Directo e fiz em pós laboral, esta experiência deu-me para perceber que era algo que me entusiasmava mesmo, onde me sentia completa porque participava e controlava o processo todo: tinha a ideia, desenhava e construía com as minhas próprias mãos. Puder sujar as mãos, ver a peça a surgir, concretizar a ideia; Era o mesmo que eu sentia com a pintura e percebi que tinha muita vontade de aprofundar os meus conhecimentos na área da joalharia e tinha de procurar uma formação mais completa. Nesta altura também tomei consciência que enquanto estivesse no gabinete de arquitectura não me ia conseguir dedicar como queria e então sentii que tinha de arriscar: Saí do gabinete e dediquei-me a 100% a esta nova área.

Nheko: Contaste com o apoio da família nesta tua decisão?
Ana: Foi por minha conta e risco, eu vivia já com o meu namorado que me apoiou mas ainda assim foi uma decisão muito difícil. Os meus pais também me quiseram apoiar mas para eles era complicado, tinham medo era o partir para uma situação realmente insegura. Eu própria sentia que tinha investido tanto tempo na minha formação em arquitectura e agora ia cortar com isso... foi difícil. Mas inscrevi-me num curso profissional de Joalharia Contemporânea na escola Engenho e Arte e terminei-o num ano e meio, esse foi também um período de experimentação e no fim do curso lancei a minha marca de joalharia com o site e as minhas primeiras peças.


Nheko: Como é o teu processo criativo?
Ana: Normalmente surge a ideia, que pode ser uma peça mas que nunca vejo isolada, crio uma colecção, é como se uma peça desse origem a outra de forma natural, quando desenho as peças vejo como elas se podem ligar umas às outras, como se podem complementar. Penso que isto tem a ver com a minha formação em arquitectura, existe sempre um motivo para os elementos se relacionarem, existe uma medida, uma escala, uma proporção e isso em elementos que podem ser combináveis, quase como uma narrativa. Por este motivo numa colecção muitas vezes tenho peças absolutamente simples e são essas as peças chave da colecção que podem ser muito básicas mas que são fundamentais pois delas nascem os outros elementos mais complexos.




Nheko: E onde procuras a inspiração para cada colecção?
Ana: Não procuro muito, acontece tudo muito naturalmente. Pode também existir um pretexto como nesta última colecção em que o Tincal lab lançou um desafio no verão passado de criar uma colecção sob o tema - Joalharia e Arquitectura, o desafio foi lançado internacionalmente e as peças seleccionadas estiveram em exposição no fim do ano, aqui no atelier. A arquitectura já faz parte de mim e aqui foi mesmo o pretexto para a criação da colecção. Eu não tenho uma periodicidade regular para lançar as colecções, vou tendo disponíveis as anteriores e trabalhando sempre nelas, criar novas peças exige por vezes parar um pouco e dedicar-me a isso, como sou eu que faço tudo torna-se mais complicado e ter uma motivação externa por vezes acelera esse processo.

Nheko: Como é que tem sido o teu crescimento e afirmação como marca?
Ana: Tenho vindo sempre a crescer mas é um trabalho que demora a consolidar, a chegar às pessoas. A internet é óptima para divulgar o nosso trabalho mas é difícil chegar ao público certo. Comecei a sentir necessidade de ter um espaço de referência e também de trabalho. Até Junho do ano passado eu tinha o atelier em casa, num pequeno quarto concentrava tudo: as máquinas, a bancada, o computador. 




Nheko: O Tincal lab surge então para colmatar várias necessidades e vontades?
Ana: Fui sentindo necessidade e vontade de crescer. Por um lado o facto de estar sozinha é confortável em muitos aspectos mas pode acabar por ser cansativo e desmotivante, sobretudo nas áreas criativas, estar com outros é estimulante. Comecei também a ter clientes que queriam ver as minhas peças e tudo isto contribuiu para procurar um espaço. Ainda pensei que podia ser uma loja mas era incompatível ter uma porta aberta ao público e ter tempo para tudo o resto, para criar e produzir as peças e então surgiu este conceito misto que é um atelier num 2.º piso com a porta fechada mas visitável para quem quer ver as peças e conhecer o meu trabalho. Aqui tenho espaço para eu trabalhar e tenho também espaço para outros criadores que queiram arrendar uma bancada com acesso às máquinas que nem todos os joalheiros têm disponíveis, aqui acabo por ter várias respostas juntas e criar uma dinâmica que me permite contactar com outras pessoas.



Nheko: Aqui no Tincal lab também desenvolves eventos abertos ao público?
Ana: Uma vez por mês temos o Open Day, um sábado onde outro joalheiro é convidado a expor e isso promove o contacto com outros criadores, divulga o espaço e o meu trabalho e também traz mais público. Este ainda é um espaço recente e pouco conhecido mas o público tem crescido cada vez mais. A exposição do ano passado - Joalharia e Arquitectura, teve bastante impacto, recebemos propostas de mais de 30 joalheiros de 10 países diferentes, recebemos candidaturas do México, Brasil, Grécia, foi muito interessante, não foi uma iniciativa que tenha sido rentável em termos comerciais mas valeu imenso por toda a experiência que nos deu.

Nheko: Este é  um espaço polivalente que pode ser vivido de várias formas, quais os projectos que já tens desenhados?
Ana: O espaço atelier|Oficina pode ser utilizado de diferentes formas, as bancadas podem ser alugadas de forma bastante flexível, pode ser ao mês, à semana ou até por um dia ou horas, depende da necessidade de quem o procura. O espaço é também ideal para desenvolver espaços de formação, workshops específicos, eu gostava de poder oferecer aqui algo diferenciado do que já existe nas escolas de joalharia, gostava de convidar pessoas que pudessem acrescentar algo e que trouxessem o seu saber específico. Para Abril estou a preparar um Open Day com a Susana Teixeira que é cá do Porto mas que está a viver em Itália, ela utiliza muito a técnica das ceras perdidas e de uma forma muito particular, então vai haver um workshop de ceras que certamente vai ser muito interessante.





Nheko: A marca Ana Pina já está no mercado internacional?
Ana: Participei na Jóia Barcelona, uma feira de joalharia específica e a ideia foi ficar a conhecer melhor o mercado internacional. Estou representada em duas lojas nos Estados Unidos e vou estar na Bélgica numa exposição numa galeria de joalharia contemporânea agora em Março. A nível nacional estou em algumas lojas no Porto mas ainda não tive disponibilidade para ir conhecer pontos interessantes e estratégicos para ter a marca em Lisboa, ainda não fiz essa procura. Sou eu que faço tudo, desde a criação à produção, as fotografias, a comunicação etc, isso acaba por limitar a minha capacidade de produção e o meu investimento na divulgação e difusão da marca,


Fotografias Vitorino Coragem

Podem saber mais e conhecer as colecções Ana Pina no site ou seguir a página de facebook ou Instagram e também podem encontrar na nossa NhekoShop algumas peças escolhidas a dedo, as minhas favoritas.

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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