/ 24.3.16 / 7 Comments / , , ,

A vida responsável


6:45, acordo naturalmente, faltam 15 minutos para o despertador tocar, mas a cabeça dispara imediatamente sobre as responsabilidades que o novo dia reserva.
"Está a chover, a roupa não seca, tenho de ir à lavandaria, de caminho passo na farmácia, o Bonheko tem de voltar a fazer o tratamento dos piolhos, avisaram na escola que há meninos outra vez com piolhos, voltaram a insinuar que ele devia cortar o cabelo, se fosse uma rapariga ninguém chateava como tamanho do cabelo, eu também devia cortar o meu, já faz quase um ano que não vou ao cabeleireiro, talvez para a semana consiga ir, assim podia aproveitar e levar os sacos de brinquedos que temos para dar ao centro de recolha para os refugiados, gostava que as miúdas fossem comigo. Não levantei dinheiro ontem, elas vão precisar para levar para a escola, tenho de as lembrar da senha do passe. Devia passar na via verde, está a dar sinal amarelo há mais de um mês. Também tenho de ir à GalpEnergia por causa do recibo estranho que recebi. A tomada da cozinha está avariada, tenho de tratar disso, telefonar ao Sr. José para passar por cá, aproveito e falo-lhe também das fechaduras dos quartos que estão a fechar mal. Não me posso esquecer de ligar à directora de turma da Eva e da Alice para marcar uma hora, não fui à reunião de pais. Tenho também de falar à dentista, o tratamento da Alice parece não estar a resultar como devia. Hoje vou ao supermercado, falta-me fazer a lista de compras e pensar nas refeições desta semana.
Só vou ao correio à tarde, tenho 2 encomendas para enviar e tenho de falar com o contabilista. A sessão de fotografias de amanhã é cedo, levo a Rita ao liceu e sigo directa. Será que os meus pais podem ir buscar o Raul à tarde? Tenho de pagar a escola. Faltam dois dias para o Nuno Rafael voltar. Vou marcar um jantar cá em casa, não me posso esquecer disso quando for ao supermercado..."
Desligo o despertador, ainda faltam uns minutos para tocar mas levanto-me e vou tomar duche. A cabeça continua a mil, nunca abranda e é assim  o dia todo, há alturas que imagino que vai explodir, que eu vou rebentar e transformar-me em minúsculas partículas de pó brilhante.
Este é o ritmo da vida responsável, há dias que sinto que é urgente parar, parar a cabeça.
Os meus dias são cheios, mas de coisas que gosto; são muito preenchidos mas de momentos bons, sou uma privilegiada, vivo num sítio muito bonito com uma paisagem natural absolutamente incrível, tenho a vida que desejo e o nosso ritmo é tranquilo comparado com a maioria das vidas que conheço, passo muito tempo com os meus filhos, trabalho em casa em projectos que me preenchem e procuro diariamente um equilíbrio entre o que dou e o que recebo, mas tenho alturas que me sinto esgotada, cansada de chegar a todas as frentes, de chegar aos outros, mediar conflitos, responsabilizar, ajudar a crescer enquanto não me posso esquecer a consulta do dermatologista, o pagamento da Meo, o aniversário do cunhado, a roupa para lavar, o leite em falta e tantas mas tantas coisas que me "comem a cabeça". 

Gostava de desligar, de conseguir não pensar em nada nem que fosse uma hora por dia. 
Há quem o consiga fazer com meditação, eu nem pensar nisso, nas poucas aulas de ioga que faço passo o tempo todo a criar listas de supermercado quando devia estar a relaxar, há também quem corra e se sinta bem com isso, eu não o faço desde o 9.º ano e só andar depressa já me dá "dor de burro".
Muitos dias sinto que nem a dormir descanso, acordo sobressaltada com a responsabilidade de alguma tarefa que deixei esquecida.
Preciso de procurar novas soluções para viver de forma mais serena, para não me atropelar a mim mesma, para deixar de ter esta sensação de ter a cabeça a girar a grande velocidade ameaçando despistar-se.
Enquanto isso tento manter o foco e sigo viagem.

Fotografias Vitorino Coragem

"Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorizantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
em não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas folhas
e estou-me nas tintas para elas,
retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta do pediatra,
responder ao correio, estender roupa,
declarar rendimentos, ler uns livros,
fazer umas chamadas telefónicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo todo que quisesse
para fazer só coisas esquisitas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura."

Amália Bautista
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7 comentários:

  1. Amiga, identifico-me bué!!! Mas, hoje em dia, acredito que devido à terapia, já consigo desligar bastante e ter alguns momentos onde só estou a navegar na minha maionese....é uma experiência maravilhosa! Bjinho e uma Santa Páscoa

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    1. A terapia é certamente uma boa ajuda, acredito. Abraço Joana

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  2. Este post so de ler deixou.me em stress, quanto mais viver! Cada vez acho mais que as mães sao super mulheres (eu n sou mae e questiono.me se um dia conseguirei ter assim a cabeça a mil) �� mas que o desporto a ajudaria la isso não duvido e la por correr estar na moda o importante é mexer a correr a caminhar step cardio... �� muitos parabéns pela escrita
    Us4all.blogs.sapo.pt

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    1. :-) é uma bola de neve, começa devagarinho e quando damos conta é maior que nós!
      Obrigada pelas palavras e acredito que mexer-me ia mesmo ajudar a encontrar um equilíbrio, vamos ver do que é que sou capaz. Abraço.

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  3. Acho que muitas mulheres se identificarão com este post. Eu tento desligar à hora de almoço quando vou ao ginásio... mas a vida nem sempre permite!

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    1. O problema é esse, desligar! Eu até no ginásio tinha a cabeça ao serviço da vida responsável... um cansaço! Acho que talvez caminhar e ouvir música me ajude... vou experimentar.Abraço

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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