/ 11.2.16 / 2 Comments / , , , ,

Isabel Saldanha

Isabel Saldanha, é fotógrafa profissional mas já foi muitas outras coisas. É uma mulher assumidamente feliz e faz por isso. Tem uma energia do caraças e ocupa cada segundo da sua existência com palavras ditas ou escritas organizadas de uma forma própria, encaixa a poesia na crueza dos dias e transforma a vida numa história encantada. 
A Isabel tem duas filhas, um ex marido, um namorado (que entretanto passou a noivo) e recebeu-nos na sua casa no reboliço de um dia de vida em família. Ainda assim a conversa foi longa e regada com um branco fresco.


Nheko: És uma mãe preocupada?
Isabel: Preocupo-me. Não há mães sem preocupações. Mas não sou tensa. Agora como estou mais sozinha, porque o pai das loiras está a viver na África do Sul, fico mais preocupada e tento andar mais em cima. Isto é horrível, desde que entraram para a primeira classe, quais dores de parto, quais biberões, quais quê... a minha vida virou-se de pernas para o ar no dia em que começaram a escola séria. 
Nós estamos sempre a estrear-nos, cada filho é único, não dá para aplicar a mesma receita em ambos os filhos, vamos experimentando a nossa abordagem e depois fazemos afinações. Já experimentei ser mais demissionária e delegar para a escola o grande papel de educador mas percebi que não resultava, depois tentei ser intrusiva mas esse não é muito o meu feitio; eu nunca serei a mãe da associação de pais, teria de vestir uma segunda, terceira, quarta, quinta pele para ser essa mãe; eu sou a mãe que as amigas das minhas filhas querem ter, isto tem um lado bom e outro mau. 
Enfim, isto é muito difícil, uma pessoa vai fazendo uns ajustes mas o grau de dificuldade vai subindo, cada ano tem exigências diferentes e elas também se vão transformando ao longo dos anos, tal como nós, que nos vamos impacientando porque entretanto a malta vai envelhecendo, é normal, e queres é sopas e descanso e tem tudo menos isso, portanto vamos no sentido inverso.
Eu às vezes até tenho momentos em que penso Caraças eu devia aproveitar este momento para educar, é um momento flagrante, um grande momento pedagógico, seria perfeito para abordar questões como o amor pelo próximo, a partilha entre irmãos, etc , mas depois penso: Opá que se lixe! hoje estou cansada. Amanhã há de haver outro igual.


Nheko: Como é que surgiu o desejo de seres mãe?
Isabel: Eu tenho quatro irmãs e um irmão, a minha mãe achava que eu ia ser a única que não ia ter filhos, nunca fui a menina que sonhava ser mãe,... eu gosto de capitalizar as coisas que a vida nos dá, e a determinada altura, quis muito fazer parte de uma família. Fui mãe aos 27 e gostei muito de lhes dar uma parte da minha juventude, da minha energia, agora seria uma mãe diferente, mais madura em algumas coisas mas não necessariamente melhor.
A minha mãe foi mãe pela primeira vez aos 18 e a última com 43 e era uma mãe muito mais insegura aos 43, carregava a responsabilidade, já sabia muito da vida e estava com muitos mais medos.
As mães tardias têm muita deontologia, é tudo muito estudado, tem tudo muita técnica, muito pormenor e detalhe. Mas com tanto saber, vem a insegurança, que a juventude toma como experiência. Brinquei muito sendo mãe e isso fez delas crianças felizes, de uma mãe criança.


Nheko: Pensas em ter mais filhos?
Isabel: As loiras pedem imenso para eu ter mais um filho mas eu não me imagino. Neste momento quero apenas gozar a vida boa que tenho com as minhas filhas. Concentrar-me me dar-lhes as boas circunstâncias para se tornarem bons adultos e seres humanos de coração grande. Quem sabe um dia. 

Nheko. Como é a tua relação com o teu ex marido, o pai das tuas filhas?
Isabel: É muito boa, mesmo quando nos separámos há quatro anos, acho que chorámos os dois juntos o fim da relação, nós não nos enraivecemos e eu sempre fiz questão de trabalhar muito a nossa amizade, é uma coisa que dá trabalho, especialmente nos tempos logo a seguir à separação, o não cederes ao conflito, à tentação de lavar coisas do passado quando elas surgem, aprenderes a engolir certos sapos e não responder e pensar que um dia vais colher os frutos de todo o esforço que estás a ter. Nós soubemos distanciar-nos com muita tranquilidade, somos amigos, falamos muito ao telefone e damos-nos mesmo muito bem, confiamos muito um no outro. Sempre pensei muito nas miúdas, a relação com o pai delas será sempre uma herança para elas e fiz disso um dos meus maiores investimentos.



Nheko: Como lidas com os conflitos que surgem no dia a dia com as tuas filhas?
Isabel: Vou exemplificar, no outro dia marquei uma ida ao cabeleireiro porque estavam mesmo a precisar, marquei para a quinta feira que antecedia o halloween, a Camila, bem ao estilo feminino saltou imediatamente para o drama: exaltação dos sentidos, lágrimas, choro, fim do mundo: Precisava dos cabelos grandes para a sua máscara de bruxa, etc. Eu compreendi e achei que tinha alguma legitimidade, percebi os argumentos aos quais até juntei o facto de irem sujar os cabelos todos com tintas e porcarias logo no dia seguinte ao cabeleireiro; Mas como saltou logo para o drama apeteceu-me fazer-lhe frente, não me apeteceu ceder por ela ter partido imediatamente para a cena dramática, afinal de contas esta pirralha tinha de perceber quem é que mandava. Por outro lado senti que me apetecia ceder, que fazia sentido. E na minha cabeça acontecia esta luta: Se cedo sou demasiado liberal, mas se insisto estou a ser intransigente e radical.
E é esta luta constante, elas nem imaginam, uma pessoa está ali a ouvi-las e a processar, a pensar e lá vai soltando uns sons, dizendo umas palavras e decidindo como vai reagir daquela vez, as questões atropelam-se: será que estou a ser preguiçosa? será que devo ser compreensiva? É muito lixado! E isto acontece perante milhões de situações diferentes. Mas nunca fui ingénua de achar que seria diferente. E tenho a consciência que a procissão vai no adro :)

Nheko: Temes a adolescência delas?
Isabel: Eu temo o fim dos colégios internos (risota). Não sei, não penso nisso, isto já é tão complexo, o presente, eu não consigo antecipar. Isto é a coisa boa das pessoas felizes: Não viver nem muito do passado nem muito do futuro, é o poder do agora (isto é nome de livro de bomba de gasolina...), de facto acho fundamental essa âncora no presente, se me atiro demasiado para a frente corro o risco de viver em ansiedade. Eu sou zero em memórias, esqueço-me de tudo, tenho de por um post-it a relembrar-me que estou chateada com alguém senão esqueço-me, na minha vida não tenho saco para esse tipo de coisas nem tão pouco para ser infeliz.
Eu acho que nos damos muita importância na vida e até mesmo no processo de educação dos nossos filhos. Há muita coisa que não vamos dominar e que vai interferir e ajudar nas grandes decisões deles Sinto isso comigo. Temos de entregar a vida à vida e não podemos estar sempre a ver em tudo o que fazem, um reflexo da nossa actuação, a procurar sinais e a querer corrigir nos nossos filhos as nossas falhas, a ver neles o reflexo do nosso carácter. Isso é muito duro, traz uma grande culpabilidade. Acho que o pior de tudo hoje em dia é esta questão da culpa. É o grande drama da educação, por mais que faças e que dês, nunca chega. É horrível mas não conseguimos deixar de a sentir. 
Eu acho que as pessoas em vez de recorrerem a ajudas para serem melhores deviam seguir mais os seus instintos. Sem estar permanentemente a validar se a estratégia que aplicam é a mais correcta. Amar devia ser mais fácil.


Nheko: A maternidade é o centro da vida de muitas mulheres, isso pode ser um problema?
Isabel: A maternidade é fantástica e tem coisas absolutamente deliciosas mas é apenas uma parcela do meu todo, é apenas um queijinho do meu trivial
Há um grande número de pessoas que está esvaziada da sua importância noutras áreas porque não é valorizada e mais tendência tem em pôr o peso sobre a maternidade que é um exercício que nos compete a nós totalmente; Aqui eu sou patroa! Mas depois é uma grande chatice porque tens de cuidar bem dos teus empregados e tens de os sentir e de os ouvir e a firma tem de funcionar, depois nem sempre dá o lucro que tu queres e achas, então mas eu estou aqui tão dedicada e os testes vêm todos com satisfaz menos? então como é que é isto? - E depois, vais fazer o quê? demitir-te não podes, (num emprego até podias), podes transformar-te num pai liberal mas depois vem o custo dos recibos verdes, é igual! Há sempre uma factura qualquer que se paga. E o segredo está em praticar um bocadinho o desapego.

Nheko: Essa é uma das tuas máximas de vida?
Isabel: Sim, mas não quer dizer que eu saiba praticá-lo totalmente, tento cultiva-lo. Se estou fora não falo com as miúdas todos os dias, quando passavam uma semana com o pai falávamos uma, duas vezes nesses dias, eu sabia que elas estavam bem e não sinto a necessidade de marcar o território, elas sabem que estou e estarei cá sempre.


Nheko: És uma mãe muito diferente da tua?
Isabel: Sim, a minha mãe foi mãe muito nova e talvez fosse mais insegura. Educou cinco filhos sozinha. Não é fácil. Não imagino sequer o que seja. Eu nunca pensei conscientemente que queria fazer diferente do que ela fez mas sempre disse que ia fazer à minha maneira.

Nheko: Nunca ouves a tua mãe nas tuas palavras?
Isabel: Não e isso é muito bom! Carregar o modelo dos pais ou a responsabilidade de o evitar é horrível. Eu também nunca li nenhum livro sobre parentalidade e acho que isto é um bocado como as viagens, as melhores foram as que menos preparei. Vou confiar que há uma certa luz nesta frase :)


Nheko: E no dia a dia? Como convives com as rotinas?
Isabel: A mim não me assusta nada. A rotina é como a grelha da vida, depois o que acontece dentro de cada um dos quadradinhos sou eu que faço acontecer, eu dou muito espaço para imprevistos e vivo de forma intensa os dias. O Gonçalo, o pai da loiras, dizia-me muitas vezes: Tu acordas sempre como se fosse véspera de Natal! - Tenho esta forma de estar, entusiasmada com a vida e isso é muito bom, eu acho que a vida se dá a quem se dá à vida. A mim não me assusta ter um calendário com as orientações sobre o que há ente as nove e as cinco o que me assusta é saber exactamente tudo o que vai acontecer e não dar espaço para o imprevisto e para que os acontecimentos possam ser causadores de novas situações e sejam essas que recheiam os quadradinhos dos meus dias. 


Nheko: E as tuas filhas são assim "frenéticas" como tu?
Isabel: Sim. Muito., A verdade é que sempre as habituei a este meu ritmo, às vezes reclamo mas elas nisto são o reflexo da minha forma de ser e estar. Elas são miúdas de rua, do contacto com as pessoas, de falar e acho isso muito bom. Levo-as a todo o lado. Conhecem muitas pessoas, viajam muito e deitam-se todos os dias com beicinho só porque o dia acabou por hoje. Tal como eu.

Nheko: Saíram de Alfama onde isso era mais possível, foi uma decisão difícil?
Isabel: Sinto muito a falta de Alfama, sinto imensas saudades da rua. Esta casa onde estamos agora é óptima, o Pedro também tem dois filhos e esta casa tem espaço para todos, tem uma excelente localização e depois é tipo o bairro do Noddy, tem os bancos, os correios etc, tem tudo aqui a dois passos, ponho-me em dois segundos em qualquer sítio os acessos são fantásticos. Mas falta a dimensão de bairro, as miúdas estava habituadas a ir comprar pão e laranjas a pé, toda a gente se conhecia, aqui ninguém quer saber de ninguém, é assim, é tudo muito sofisticado, em Alfama vestia um casaco por cima do pijama e ia beber café, aqui isso seria impensável, esta artéria da cidade é para pessoas bem postas! Mas não se pode ter o melhor dos dois mundos, Alfama tinha muitos problemas, ir levar as miúdas à escola era uma dor de cabeça, os acessos eram terríveis. Deixei lá a minha alma de bairro, mas um dia regresso.



Nheko: Como foi a escolha da escola das tuas filhas?
Isabel: Não andei a tentar saber muito, apenas queria que a escola fosse suficientemente cuidadora para eu poder ser suficientemente demissionária em relação a algumas coisas. Queria que elas fossem bem controladas, eu tinha acabado de me separar quando a Caetana foi para a primeira classe, estávamos a viver tudo ao rubro, a mudar de casa e achámos por bem optar por uma escola particular para tentar assegurar mais apoio e procurar garantir que teria um professor fixo que não ia desaparecer ou entrar em greve, a Camila quando entrou no primeiro ciclo ainda foi para a escola pública, apanhou logo estes problemas todos, esteve sem professor um mês e o Gonçalo que ia trabalhar para fora, para a África do Sul com uma boa proposta de trabalho, propôs que a Camila também fosse para a escola onde já estava a irmã. A escola é grande mas todos são próximos e oferecem muito apoio, o pior são os trabalhos de casa!
O meu sonho era viver com elas de saltimbanco e ensiná-las em casa, adorava e revia-me numa coisa dessas mas isso exigia outro tipo de vida e outro tipo de disponibilidade que também sei que não tenho. Sou muito sonhadora, mas muito consciente :)



Nheko: Em termos profissionais qual a tua situação actual?
Isabel: Sou freelancer, fiz parte desde o início da equipa do Daily Cristina e continuo ligada a ela, somos amigas acima de tudo. Mas sempre soube que não queria estar demasiado colada à Cristina, tenho uma grande admiração por ela mas somos muito diferentes, e tanto ela como eu sabemos que eu não sou apenas "a fotógrafa da Cristina Ferreira".
E eu não quero nem nunca quis ser uma figura pública, para mim tem tudo de ser muito natural, sei bem o que não quero. Tenho milhares de projectos associados à escrita, às viagens, às narrativas e continuo a ser fotografa. Vivo como um peixe feliz dentro do seu aquário.


Nheko: Trabalhas muito e tem sempre mil projectos, tens tempo para namorar?
Isabel: Já tive mais, antes das loiras estarem comigo a tempo inteiro. Eu fui feita para ser mãe com custódia partilhada, é óptimo, durante metade do mês tu não és mãe de ninguém! Eu conseguia isto também porque as minhas filhas têm um pai que não é um pai, é uma mãe, a pediatra costumava dizer isso. Eu levei um grande baque com esta alteração na minha vida, o Gonçalo é um paizão, o pai brinquedo que adora estar três horas a brincar às princesas, é ponderado, dedicado e balançava muito as coisas. Agora estamos assim, há sacrifícios que têm de ser feitos, ainda assim a minha situação é muito melhor do que a dele, eu não vivo privada da presença delas, é ele que não assiste diariamente ao crescimento delas, há coisas absolutamente maravilhosas, episódios, conversas. 
Por mais que não me reconheça no papel da mãe super completa. É a mãe que sou. E não suportaria estar longe delas.



Nheko: Qual a idade dos filhos do Pedro?
Isabel: O Pedro tem dois rapazes, com 4 e 6 anos, quando estão todos juntos é uma confusão. Eles são mais bem comportados e arrumados do que elas, são mais disciplinados e até mais bem educados, elas fazem muito, mas muito mais estrilho, é incomparável. Quando temos os quatro fazemos muito menos programas, comer fora sai caríssimo, jantas fora e gastas no mínimo 40€ só em pizzas e aguas para os 6€?!!?! Tentamos equilibrar. Como são mais também se entretêm. 



Nheko: As tuas filhas são "bons garfos"?
Isabel: Ainda estão naquela fase da esquisitice, a Camila prova tudo e é curiosa mas depois é influenciada pela irmã, segue o rasto da outra em tudo. Tecer menus familiares é tramado, comer bem... eu sou mais salpicão que papaia! Muitas vezes compro coisas só pelo descargo de consciência e acabam por apodrecer no frigorifico junto das minhas boas intenções. Eu também já cozinhei mais, já tive mais tempo, quando casei fazia as receitas completas da Pantagruel, ás vezes acordava a meio da noite sem sono e punha-me a fazer peixe assado no formo, assim ás três da manhã. Agora temos quem nos ajude e entrei noutro circuito de vida, quando temos tempo e estamos sem crianças vamos comer fora, experimentar coisas novas, aproveitar para sair 



Nheko: O humor está muito presente na tua escrita, é algo que faz sempre parte da tua vida? Tu és mesmo assim!
Isabel: O humor está cá sempre! Nós tínhamos uma empregada muito querida que dizia que a nossa era a "casa do amor", adorava estar connosco porque se divertia sempre imenso, dizia que estávamos sempre bem dispostas e a rir. A nossa casa é mesmo uma casa mega feliz, sei que isso passa no que escrevo e partilho e não é de todo bluff, somos mesmo assim! 
Eu tento sempre abordar a vida e também o que escrevo sob o ponto de vista humorístico, tento ter sempre uma carga positiva. Recebo um retorno incrível do meu público, recebo mensagens maravilhosas e muitas referem a minha genuinidade, as pessoas surpreendem-se com isso com o facto de ser exactamente como escrevo. É verdade, sou assim, claro que reservo-me o direito de expor os meus melhores momentos ou aqueles que quero partilhar, mas tal como na vida eu não sou pessoa de me queixar ou de enaltecer o lado mau das coisas, eu sou uma pessoa muito feliz, sou mesmo! Somos mesmo!


Novembro 2015, Fotografias Vitorino Coragem

Podem seguir o trabalho da Isabel Saldanha através do Site,  Blog , Facebook e Instagram.
E espreitem a sua mais recente aventura: Amor Parasita, a colecção de jóias que resulta de uma parceria com HLC Jewellery.

Share This Post :
Tags : , , , ,

2 comentários:

  1. Gosto muito da Isabel e do seu trabalho.
    Parabéns pela entrevista. Gostei muito.

    ResponderEliminar
  2. Entrevista 5* e excelente trabalho o da Isabel! Muitos Parabéns!
    us4all.blogs.sapo.pt

    ResponderEliminar

Sobre Nós

Apresentação

O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

A nossa loja

@nheko_

Seguir por e-mail

Pesquisar