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Raquel Castro e Tó Trips

Raquel Castrorealizadora e editora freelancer e Tó Trips - músico, dos Dead Combo e mais actualmente da banda Ladrões do Tempo.
Têm dois filhos, David e Simone, a eles junta-se Alice, filha do Tó para completar esta inspiradora família.
Falámos sobre a vida em família em geral e sobre uma questão em particular: "Há vida depois dos filhos".
Entrem, sentem-se e desfrutem desta nossa conversa.


Nheko: Há quanto tempo estão juntos?
Raquel: 10 anos, metade deles sem filhos, na verdade não foi sem filhos porque já tínhamos a Alice, filha do Tó, mas ela não vivia sempre connosco.
Tó: A Alice vivia com a mãe, mas nunca foi muito rígido, quando era necessário passava connosco períodos mais longos, se a mãe tinha de estar fora.

Nheko: E são casados?
Raquel: Sim casámos mas nunca tivemos isso como modelo ou objectivo, digo muitas vezes que casámos por causa da festa, queríamos comemorar e esta foi a melhor forma que encontrámos.
No nosso caso, depois de termos passado por não sei quantas histórias, termos conhecido várias pessoas e estado em muitos sítios, chegámos a um momento em que sentimos que estávamos a viver uma coisa diferente e fazia sentido celebrar, ter um ritual e criar um marco importante nas nossas vidas e foi isso mesmo que fizemos, casámos.

Nheko: A vida mudou muito com o nascimento dos filhos?
Tó: Então não??? Nós saíamos todos os dias, vivíamos estrategicamente entre o Bairro alto e o Johnny Guitar.
Raquel: Sempre gostámos de sair juntos, de estar com os amigos, beber uns copos, ir a concertos, nós gostamos das mesmas coisas.
Tó: Também sempre privilegiámos esse lado de termos o nosso espaço, achamos fundamental.
Raquel: E de nos divertirmos! Sempre fizemos um esforço por continuar a sair e a estar os dois juntos, mesmo tendo os dois miúdos tão próximos e sem contar com grandes apoios familiares, recorremos aos amigos e a babysitter e continuámos sempre a sair os dois.
Tó: A malta continua a ser as mesmas pessoas com as suas cenas, claro que não podemos continuar com a mesma vida, até porque morríamos mais cedo... (risota) mas é mesmo importante continuar a fazer o que gostamos, ir a concertos ou mesmo só sair para beber um copo e conversar. Agora fazemos mais jantares em casa com os amigos, a Raquel promove muito isso, eu gosto.
Raquel: Sim, gostamos de ter gente em casa, lembro-me de quando o David nasceu demos uma grande jantarada, ele era mínimo, tinha umas duas semanas se tanto... Acho que não podemos complicar, senão mais vale não ter filhos!


Nheko: Os vossos filhos têm pouca diferença de idade, pouco mais de um ano...
Raquel: Lembro-me de estar grávida da Simone e das pessoas me dizerem: "Que coragem..." e nós respondíamos sempre: "Coragem não, inconsciência!" (risota) A verdade é que a mim me fez muito sentido que assim fosse, para o género de pessoa que sou, eu sou super focada e descomplicada. Estive praticamente 2 anos grávida e a amamentar, dediquei-me e foquei-me muito, estive mesmo dedicada a esta cena. Sempre adorei estar com os miúdos, o Tó tem a vida que tem e está muitas vezes fora, há fases em que fica mais ausente com muito trabalho e eu sempre fui muito desenrascada, sempre gostei de estar com os miúdos, temos um grupo de malta com filhos pequenos também e combinamos muitos programas juntos. Adoro ser mãe mas também nunca me esqueci que é necessário um esforço para não nos anularmos a nós próprias e nos limitarmos a este papel, sou mais do que isto, nunca me esqueci de mim como mulher. Há muita gente que se esquece, e é muito fácil isso acontecer, mas não pode, perde-se o tão necessário equilíbrio, temos mesmo de fazer um esforço neste sentido.
Para mim o equilíbrio é fundamental, a procura e a luta por ele. Depois de teres filhos nunca nada volta a ser igual, nunca nada mais fará sentido sem eles, a existência deles na minha é uma constante.

Nheko: Incluir os filhos na vossa vida é uma premissa no tipo de educação que dão aos vossos filhos?
Tó: Sempre os levámos connosco a praticamente todo o lado, claro que se sentimos que determinada situação não é boa nem para eles nem para os adultos presentes, ai arranjamos outra solução e não vão connosco. Eu sempre fiz questão de manter algumas regras, por exemplo, se estamos a conversar, não curto que os putos estejam sistematicamente a interromper, isso chateia-me e acho que eles precisam de ser ajudados a perceber estas coisas, são questões básicas de respeito, como pai tento passar-lhes estas aprendizagens.
Raquel: Eu preocupo-me em dar-lhes uma grande diversidade de vivências, que tenham contacto com diferentes contextos e pessoas. E gosto que eles saibam estar em diferentes situações sem que todas tenham de ser as ideais para as suas idades, é fixe que consigam estar com adultos em contextos que se têm de adaptar - ficar tranquilos, em silêncio, respeitar o espaço dos outros - Obviamente que aceito que sejam crianças mas não acho que tenham de estar sempre a fazer barulho e a correr, é importante aprender a saber estar e a adaptar o comportamento a cada situação.
Uma vez fomos com o Tó à Madeira, ficámos numa estalagem maravilhosa, alto design, com uma paisagem única. O sítio era altamente silencioso, e eu respeito imenso o silêncio. Os nossos filhos eram as únicas crianças que lá estavam e eu andei o tempo todo em cima deles para falarem baixinho, para estarem calmos e não incomodarem as outras pessoas. No dia em que o Tó tocou estávamos todos e conhecemos um gajo estrangeiro que tinha estado a ver o concerto e nos veio dizer que estava na mesma pousada que nós e que nos tinha estado a observar, que tínhamos uma família altamente, etc mas que me tinha de dizer uma coisa; Ele disse que me tinha ouvido muitas mais vezes a mim a pedir aos miúdos para fazerem pouco barulho do que propriamente a eles... eu só pensei: Que chata que eu sou!!!!


Nheko: Sentem que são pais muito diferentes dos vossos?
Tó: Eu sou muito parecido com o meu pai naquelas coisas tipo: "Toda a gente sabe acender as luzes mas ninguém as sabe apagar!", o meu pai voltava a casa para verificar se o gás estava fechado ou se a porta estava trancada, eu não faço isso mas sou o gajo que olha para os bicos do fogão a ver se estão desligados antes de me ir deitar.
Raquel: Eu sou parecida com os dois em coisas diferentes, a minha mãe é a minha referência, uma mulher forte e decidida mas de feitio tenho muita coisa do meu pai.
Tó: Como pai tenho uma preocupação que o meu pai também sempre teve comigo e com a minha irmã, que é os meus filhos serem bem educados, dizerem bom dia, com licença, desculpe, obrigada, acho mesmo importante e acredito que se ganha em ser assim, o meu pai sempre me passou isso. Ele é um homem simples, teve um café e sempre foi correcto e falou bem com toda a gente, dava-se com toda a gente desde o director do IPO a qualquer outra pessoa e toda a gente o respeitava.
Raquel: O meu pai passou-me valores muito importantes, valores grandes em termos humanos, eu preocupo-me em transmitir isso aos miúdos e nunca deixar de os ter presentes na minha vida.
Tó: Há coisas que penso e que até são um bocado conservadores mas também me estou bem a lixar para isso, para mim é importante que os miúdos saibam estar à mesa, a mesa não é mais um sítio de brincadeira, estar à mesa é hoje em dia muitas vezes o único sítio onde estamos juntos sem interferências exteriores, um sítio onde podemos conversar sem outras distracções, nesse sentido acho importante que na mesa não se brinque, que se esteja mesmo uns com os outros. Também acho porreiro que os miúdos peçam para sair da mesa, é importante saber estar. Para mim é fundamental saber estar em qualquer situação, tanto num cocktail com o embaixador como na tasca ali em Alvalade, sem deixarmos de ser sempre a mesma pessoa mas a saber estar.

Nheko: Ser pais tem-vos dado algumas "lições de vida"?
Raquel: Sim, uma delas tem a ver com a facilidade com que criticamos os outros, lembro-me que achava que nunca ia recorrer a "esquemas" para dar a sopa aos meus filhos até ao dia em que percebi o quanto isso me podia facilitar a vida, passei a utilizar uma aplicação excelente no telemóvel e despachava a sopa num abrir e fechar de olhos, claro que hoje não preciso disso mas em pequenos muitas vezes recorri a essa ajuda.
Tó: Eu não sei, ser pai fez-me mudar de hábitos mas não tanto como pessoa, nunca fui muito de olhar para os outros.

Nheko: Como é que vocês reagem quando se chateiam um com o outro? Conseguem ir dormir zangados?
Raquel: Eu agora até já consigo "dar um tempo" mas a minha tendência é falar, falar, falar até resolver. Quando era miúda e me zangava com os meus pais ia para o meu quarto chorar e depois escrevia-lhes uma cartinha a explicar as minhas razões e deixava debaixo da porta do quarto deles, Sempre fui assim, detesto estar chateada com as pessoas que para mim são importantes, tenho de resolver tudo o quanto antes. O Tó não, ele abstrai-se totalmente.
Tó: Sou mais do tipo solitário, o da fuga. Fecho-me no meu mundo e tudo passa.
Raquel: Eu penso muito e sou muito auto critica, sinto-me sempre culpada de tudo, questiono-me imenso e nunca estou satisfeita comigo própria, é cansativo.



Nheko: Como vivem, na vossa relação, as constantes ausências do Tó?
Raquel: Sabes que eu acho que é fixe, sobretudo depois dos filhos, já achava antes mas tinha sempre vontade de ir também, agora também tenho mas é diferente, fico bem. Sempre me orientei muito bem cá sozinha e acho que estas ausências até ajudam a equilibrar a vida, nós sempre nos demos bem assim.
Tó: Também são ausências curtas, saídas pequenas de 2-3 dias, raramente são períodos longos.
Raquel: Eu também tenho, algumas vezes, de sair em trabalho e gosto muito, gosto dessa inversão de papeis e o Tó fica muito bem sozinho com os miúdos. Eu tenho imensas saudades deles mas sabe-me muito bem, gosto de ir assim para um sítio fora e estar completamente focada no meu trabalho, isto é raro acontecer, poder estar 100% concentrada no meu trabalho, para mim é super importante poder fazê-lo.
Tó: Eu quando fico sozinho organizo-me melhor, se estamos os dois, apoio-me na Raquel. Quando estou só com eles sei o que tenho de fazer, vou buscá-los à escola, levo-os ao parque e venho para casa, não faço grandes programas tipo ir ver espectáculos para putos, isso a Raquel é que faz.
Raquel: Há coisas que enervam o Tó, coisas clássicas dos miúdos...
Tó: Epá sim, não há restaurante onde vá que não conheça as casas de banho, e é sempre que a comida chega à mesa que um diz: Quero fazer cocó!
Raquel: Há situações chatas e difíceis de gerir quando estamos sozinhos com os dois mas não dá para complicar, eu prefiro sempre arriscar!
Tó: A Raquel só se passa quando algum se aleija, se há sangue então, passa-se mesmo!
Raquel: O Tó fica muito mais calmo, eu fico fora de mim, se há sangue entro em pânico... mas já estou melhor!



Nheko: Passados 10 anos o que é que se perde numa relação?
Raquel: Sinto falta da côrte do início da relação. Acho sempre que nos devemos preocupar em trazer a criatividade que temos para dentro da nossa relação e não dar tudo como adquirido. A vida é uma aprendizagem, saber como se olha para o outro com surpresa passados 10 anos é uma aprendizagem que temos de estar sempre a fazer.
Tó: Eu digo-lhe que ela é gira, e digo-lhe muitas mais vezes que ela a mim, é verdade!
Raquel: Nós as mulheres se calhar precisamos mais dessas coisas.
Tó: A verdade é que gosto muito dela e sei que gosta de mim e acabamos por viver isso como um dado adquirido.

Nheko: O que mais vos fascina um no outro?
Tó: O lado desenrascado e de girl power que tem. A Raquel sabe sempre estar, seja aqui seja na Tasmânia, não tem problemas nenhuns em falar seja com quem for, Admiro muito isso. E confio bué nela.
Raquel: O Tó é uma pessoa super integra, é um gajo bom! Admiro também muito a sua capacidade de trabalho, é incrível, é mesmo um modelo para mim. 


Nheko: Que viagens têm feito juntos?
Raquel: Há 10 anos, estávamos juntos há um mês e pouco e fomos a Nova Iorque, foi maravilhoso.
Na lua de mel também fizemos uma bela viagem, no dia a seguir ao casamento fomos para Barcelona porque o Tó tocou e dai seguimos para o Cairo, ficámos lá uns dias e depois fomos para um outro sítio, no Mar Vermelho, o caminho foi assustador, percorremos cerca de 30 km´s de estrada com empreendimentos embargados e abandonados de um lado e outro, foi mesmo mau! Só me lembro do Tó perguntar "Baby, para onde é que nós viemos?" e eu estava em pânico absoluto. Depois de 30 km's de obras inacabadas e abandonadas o último empreendimento - o nosso, era incrível, umas casinhas lindas com piscina e jacuzi privado, tudo impecável.
Também já fomos a Londres duas vezes, às vezes aproveitamos os concertos do Tó para viajar.
Desde que temos os miúdos é mais complicado, é uma ginástica, a minha mãe é quem nos vale nessas situações mas ela tem uma vida agitada e gosta da sua independência, não vive cá o que dificulta mais mas conseguimos, já aconteceu ela vir para nossa casa e ficar com os miúdos para nós viajarmos. Os miúdos ainda são pequenos e só têm 1 ano de diferença, funcionam como pacote, onde vai um, vai o outro, acho que assim também se apoiam um ao outro e suportam melhor a nossa ausência.

Nheko: Imaginam-se a viver noutro sítio, noutro pais?
Raquel: Eu sim, completamente, sou muito aberta à possibilidade de irmos viver durante um período de tempo noutro pais, gostava dessa experiência. Eu saí de casa com 17 anos, sou de Viseu, há uma música do Lou Reed que eu achava que tinha sido escrita para mim, a letra diz: "When you're growing up in a small town, you know you have to leave", eu sempre pensei em viajar, viver no mundo, às vezes ainda faço umas propostas ao Tó mas não é a cena dele...
Tó: Eu acho fixe e romântico mas penso no que tenho, no que construí aqui, acho que sair só para ir, sem nada, acaba por pôr em causa o que construíste. A cena económica preocupa-me, eu ganho pelo que faço, aprendi a viver assim e dou muito valor ao que tenho, ao que consegui a fazer aquilo que gosto.
Raquel: Eu sou uma romântica!

Nheko: Há um lado bom em serem os dois freelancer's?
Tó: Sim, ainda hoje estava a dizer à Raquel que temos uma vida muito porreira, eu posso ir buscar os miúdos à escola e ir ao parque às 5 da tarde, trabalhei mais de uma década em publicidade e tinha uma vida desgraçada, não fazia ideia o que era estar com a minha miúda a beber um café a meio da tarde no Chiado, temos muita sorte, mesmo!
Dou muito valor a isso, e a fazer o que gosto. quero muito que os meus filhos tentem fazer o que gostam, seja lá o que for, não têm de ser artistas, aliás para mim ser artista é um trabalho como outro qualquer, como o de um pasteleiro.



Nheko: Gostavam de ter mais filhos?
Raquel: Estou óptima. Sinto que tenho muita coisa para fazer, sempre fui muito independente e autónoma e adorei viajar, era a miúda da mochila às costas a sonhar com o mundo, sei que foi surpresa para muita gente esta minha opção de casar, ter filhos, eu não cumpro os requisitos da "mãe-tipo", mas eu sempre soube e sempre tive bem claro que queria ter filhos e foi uma opção muito boa termos tido os dois seguidos, agora temos uma vida pela frente para a podermos viver juntos.
Tó: A Raquel é uma Super-Mãe, eu sou suspeito mas acho mesmo, sei que com ela os miúdos estarão sempre em boas mãos!

Nheko: Há alguma fase do crescimento que vos provoque mais medos e "dores de crescimento"?
Raquel: Isto é um dia de cada vez, já me preocupa tanto o presente, eu ganhei imensos medos desde que fui mãe, tenho medo da morte, preocupa-me a segurança, afligem-me os perigos...
Tó: Eu gramava muito que os meus filhos falassem abertamente comigo em relação às coisas que os preocupam, gostava de ser amigo deles além se ser pai.
Raquel: Eu tenho mesmo esse objectivo como mãe, ter uma relação boa com os meus filhos, próxima. Tenho uma boa relação com a Alice, a filha do Tó, ela tem 14 anos e é uma excelente "compincha", além de ser uma ajuda óptima é uma irmã mais velha maravilhosa para os meus filhos, é também uma uma boa companhia para mim, partilhamos muita coisa. Ela vem para nossa casa mesmo quando o Tó não está, é a casa dela. Foi uma conquista esta relação, ela tinha 4 anos quando eu comecei com o Tó, a principio não foi fácil, foi um caminho que construímos. Hoje somos mesmo amigas, gosto muito dela, é minha "meia" filha.

Fotografias Vitorino Coragem
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2 comentários:

  1. Adorei. És tal e qual Raquel. Uma grande mulher, supermãe, decidida desenrascada, amiga, adoro-te prima.
    São um casal muito bonito. E os priminhos maravilhosos e felizes. Transmitem o bem estar e a educação que vocês lhes dão.
    Pena estarem longe.
    Beijos aos 4!
    Bom Ano.

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  2. Curti.depois de ler, fez me pensar ter putos, mas mesmo assim ainda nao sei :)mas esta aqui um bom exemplo de casal com Pica.Sigam !

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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