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Fecho os olhos e reúno forças para recomeçar


Não gosto especialmente desta altura do ano. Nunca gostei do inverno e o primeiro período escolar consome-me bastante, demoro a sentir-me confortável nas rotinas e a falta de sol faz-se sentir na forma como encaro os dias.
Não costumo fazer grandes planos, nem promessas nem mesmo listas de objectivos para o ano que começa, na verdade para mim o ano começa em Setembro, talvez isto aconteça por me centrar muito nas rotinas dos meus filhos ou porque sempre trabalhei em contextos ligados à Educação onde o ano era lectivo.
No início de 2015 estava em verdadeira ebulição, a minha vida ia mudar drasticamente e ia dar início a uma nova fase, um percurso "por minha conta". Passados 12 meses consegui concretizar o projecto que desenhei nos meus sonhos, comecei há três meses este espaço de partilha sobre a vida em família e estou muito grata por tudo o que este trabalho me tem proporcionado. 
Tenho-me cruzado com pessoas fantásticas e conto com a cumplicidade de um grande profissional que se tem tornado mais do que um simples amigo mas um novo elemento da nossa família Nheko.
Os meus dias são cheios de desafios interessantes, de tarefas estimulantes, de momentos importantes neste projecto que ainda agora é uma criança. Mas os meus dias são também cheios daquilo que nunca deixou de ser a minha prioridade e que dá sentido à minha vida e a este meu projecto de vida: a minha família. 




Os meus filhos estão muito habituados a ter a mãe presente nos seus dias e eu gosto disso, tento que a minha forma de estar os estimule e os empurre para uma cada vez maior autonomia e responsabilidade, faço esse trabalho com todos, independentemente das diferenças de idade entre eles. Não evito uma única guerra e essa tem sido uma opção muito desgastante, a minha filha mais velha, o auge dos seus 15 anos, consome-me as forças e deita-me ao chão muitas vezes. Procuro não perder o ânimo e tentar entender o que está para além do evidente, sinto-me a remar contra uma maré muito forte, numa tempestade constante cujos períodos de acalmia apenas me permitem encher os pulmões de ar antes de uma nova luta.
Penso muitas vezes que tenho de abandonar o barco, de subir ao farol e ficar só a orientar de longe sem a proximidade que permite constantemente dar a mão e afagar os cabelos. Sinto-me muitas vezes desgastada nesta luta desigual. 
Tem sido muito dura esta viagem pela adolescência da minha filha mais crescida.
Mas ter vários filhos é um "pau de dois bicos", se por um lado é muito trabalhoso e exige muita atenção a cada um, uma constante disponibilidade e vontade de fazer mais e melhor, tem o outro lado altamente gratificante que é o alimento diferente que cada um nos dá. A minha relação com cada um dos meus filhos é muito diferente, dou e recebo coisas muito diferentes de cada um deles.
Sou uma mãe diferente para cada um dos quatro, tento ser justa mas nunca sinto que consiga ser imparcial, sou demasiado emotiva para o conseguir, tenho graus de exigência diferentes e vejo-me demasiadas vezes com várias verdades onde só deveria haver uma. Tenho muitas dificuldades neste exercício da parentalidade, gostava sem dúvida de ser mais assertiva.
Ser mãe ocupa-me muito, tenho poucas regras pré definidas e avalio cada situação como se fosse a primeira vez, isso é desgastante mas para mim mais real e mais correcto. 
Acordo todos os dias com a esperança de que vou ser melhor e que vou conseguir ser mais justa e mais par.
Faço promessas para o dia que começa. Faço promessas para o ano que começa.



Acordo cedo de manhã, não me levanto logo. 
Fico a fazer planos e promessas para o dia que começa.
Quero ser mais tolerante. Respiro fundo e repito em silêncio, hoje vai ser um dia bom, hoje vou ser mais paciente, gentil e ajudar a ultrapassar os problemas. É esse o caminho.
Fecho os olhos e reúno forças para recomeçar.

À noite deito-me tarde, demasiado tarde... descansar faz-me falta mas é à noite que consigo fazer muitas das coisas que não priorizo fazer durante o dia.
Quando deito a cabeça na almofada faço a revisão ao dia que vivi. Suspiro e relembro todas as situações em que não fiz o que devia, em que disse o que não devia, em que falei alto demais ou em que simplesmente falei demais.
São também assim os dias com eles, com elas sobretudo. Os conflitos surgem do nada e trazem uma onda de agressividade que só eu posso parar mas que, por vezes, ainda mando mais "achas para a fogueira", dias em que me perco e em vez de acalmar, de ajudar, dou por mim a gritar, a acusar a julgar. 
Quando isto acontece sinto-me tão perdida...
À noite, vou a cada quarto e despeço-me, desejo boa noite. Afago-lhes os cabelos e às vezes conversamos baixinho sobre o dia que tivemos, às vezes peço desculpa, outras vezes são elas que o fazem. Lembro-me que quando eram pequenas queriam sempre que eu lesse uma história, agora já não querem, agora falamos de outras coisas.
É a adolescência, uma altura maravilhosa de grandes emoções, certezas e intensidade mas também uma fase difícil, sempre soube disso, a minha foi.

Não são sempre assim os dias, são só quando durmo pouco, quando ando cansada, quando sinto que precisava de ter mais tempo para mim, para não ter de roubar ao descanso as horas que tanta falta me fazem.
Nestes dias...
Acordo cedo de manhã, não me levanto logo. 
Fico a fazer planos e promessas para o dia que começa. Quero ser mais tolerante, respiro fundo e repito em silêncio, hoje vai ser um bom dia, hoje vou ser mais paciente, gentil e ajudar a ultrapassar os problemas; É esse o caminho.

Fecho os olhos e reúno forças para recomeçar.


Fotografias Vitorino Coragem
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11 comentários:

  1. Gosto imenso de ler o que escreve! Parabéns pela forma como partilha o seu dia/dúvidas/família
    Revejo-me em muitas coisas, para mim e pelos mesmos motivos o ano "começa" em setembro.. também tenho uma adolescente em casa e muitas vezes começo/termino o dia com planos para ser mais paciente.

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    1. Obrigada Ana, que bom que é saber que encontro eco noutras vidas, a adolescência é mesmo um osso duro de se roer e ser mãe um papel difícil, estas partilhas ajudam-me a arrumar a cabeça e a deitar cá para fora algumas angústias que me atormentam, a vida por aqui é assim, com tudo a que temos direito ;-) Muito obrigada pelas palavras simpáticas. Abraço, Alexandra

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  2. Faz-me bem ler as suas dificuldades. Claro que não me alegra que as tenha! Mas, para além de me sentir acompanhada neste caminho tantas vezes tão difícil, aprendo ainda com a sua humildade. Obrigada e um beijinho, de mãe para mãe. :)

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    1. Muito obrigada Carla, a mim faz-me bem ler estas suas palavras ;-)

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  3. Gosto de passar por aqui e ler aquilo que escreve, especialmente sobre as dificuldades que sente em relação à comunicação com a sua adolescente... Sinto-me menos só nesta luta diária... É tudo tão difícil que às vezes sinto que perco as forças, mas depois ela sorri para mim e ainda consigo ver lá dentro a doce menina que é. É o meu balão de oxigénio para aguentar o próximo embate, que neste momento é diário... Estamos juntas ;)

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  4. Revi-me completamente nas suas palavras. Sou mãe de três e o meu filho mais velho que já tem 18 anos tem sido muito difícil, exasperante mesmo. E todos os dias procuro ser melhor, procuro onde terei errado...é um sofrimento silencioso e continuo. Vou abaixo mas não desisto. Ser mãe é talvez o papel mais difícil que temos, mas o fato da Alexandra fazer esta reflexão só mostra que se preocupa e é uma boa mãe. Beijinhos e força para esta árdua tarefa.

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    1. Obrigada Sandra, é uma fase que exige mesmo muito de nós, é difícil o equilíbrio entre o ir largando mas não deixar de segurar. Todos os dias tentamos fazer melhor, é assim. Abraço

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  5. ADORO, Adoro ler-te....identifico-me tanto que até fico com inveja de não saber escrever como tu!...mas é de uma riqueza enorme aquilo que tu me dás ao partilhar assim a tua vida....Não pares NUNCA! Bjão

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  6. ADORO, Adoro ler-te....identifico-me tanto que chego a ficar com inveja de não conseguir escrever como tu....é de uma riqueza enorme receber a partilha que tu fazes de ti mesma, da tua vida e da tua família. Isso ajuda-me mesmo a ser uma melhor pessoa, ou pelo menos a esforçar-me para o ser! Não pares NUNCA! Bjão

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  7. "Conheci-a" ontem e estou a adorar... com 2 meninas pequenas e um horário de trabalho das 9h às 18h é uma correria o meu dia a dia. Algum stress que sei que estou a passar para elas mas começo a tentar focar-me no hoje, no agora. Vivo e respiro as minhas meninas e só assim me sinto feliz. Agora vejo que não estou sozinha :)

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  8. Tão inspirador! Por vezes sinto nessas as palavras da minha mãe na adolescência, aquela casa nalguns momentos foi palco de guerras que fariam desabar paredes menos sólidas, e no fundo era só eu que queria crescer e o amor dela que queria orientar. E eu sei que não fui das mais problemáticas mas é preciso pulso forte nesses momentos!
    Acho que não quero ter filhas adolescentes, não vão elas sair à mãe...

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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