/ 24.11.15 / 4 Comments / , , , , ,

Ser presente no Natal


Na minha infância o natal era uma festa onde a família se reunia e trocávamos presentes, era uma noite divertida, os avós e os tios iam lá jantar e todos nos deitávamos tarde. Depois os avós envelheceram e os tios deixaram de ir, já não nos deitávamos tão tarde nem era assim tão divertido e na fase da adolescência, era apenas uma noite em que não podíamos sair nem para namorar nem para estar com os amigos e já nem os presentes compensavam, o excessivo consumismo da época enjoava-me e a figura do pai natal era o símbolo de uma sociedade enganada pela coca cola e pelo capitalismo.
Cresci com uma relação pouco significativa com esta quadra e quando me tornei mãe fiquei sem saber bem o que fazer. Nunca tive uma educação católica pelo que não me fazia sentido de repente começar a ter presépio em casa e a contar a história do menino Jesus, procurei a origem do Pai Natal e tentei criar uma nova versão para nós. 


A vida e as reuniões com a família alargada começaram a fazer cada vez mais sentido e a serem mais sentidas, as crianças trazem uma certa magia a esta época e inundam-nos de amor deixando-nos bem mais lamechas e disponíveis.
Rapidamente a minha família cresceu e apenas três anos depois da Rita ter nascido já eram 5 os pequenos primos que se reuniam no nosso natal e tudo ganhou outra alegria.
Os meus problemas existenciais continuavam mas agora eu sabia que os queria resolver de forma positiva e reconciliar-me de vez com a quadra natalícia.



Começámos então a criar as nossas pequenas tradições, atempadamente faziamos a lista das pessoas a quem queríamos oferecer alguma coisa nesta altura, nunca senti obrigação de dar presentes a ninguém, as coisas para nós tinham de ser verdadeiras, era a única forma de criar algo valioso nesta quadra (para mim) tão duvidosa. Fazer os presentes e permitir às crianças participarem foi uma premissa desde o início desta nova era, os que melhor me lembro foram uns sacos com um jogo do galo, eram em feltro colorido cozidos com cores contrastantes e com uma fita de veludo, dentro tinham 8 botões de plástico grandes em 2 cores e um pano onde o jogo estava desenhado. Outra coisa muito gira que fizemos foram uns calendários, comprámos uns calendários com os meses impressos mas o resto em branco, (no caso até eram em preto) e colocámos em cada 12 diferentes fotografias que seleccionámos e imprimimos tendo em conta a pessoa a quem se destinava, durante anos tivemos amigos que os mantiveram nas suas casas, ficaram mesmo giros!
Além disto começámos a criar um momento de entretenimento para a família, o pai Nuno Raf fazia o cenário e a sonoplastia, eu e as filhas éramos o elenco, ensaiávamos uma história seleccionada pelas meninas e fazíamos uma formal apresentação na noite de natal.



Já muitos anos passaram mas ainda hoje eu tenho uma relação de amor-ódio com esta quadra. Por um lado, detesto ser bombardeada pelas campanhas de natal, incomoda-me o mau gosto generalizado e chateia-me muito o consumismo desenfreado ao qual não consigo fugir totalmente, nem eu nem muito menos as miúdas. Tento chamar-lhes à atenção para valores bem diferentes dos valores materiais, especialmente nesta época, mas é um equilíbrio difícil. Fico, todos os anos, com a sensação de que podia ter feito melhor... Eu gosto de escolher a dedo cada presente que ofereço mas nunca tenho o tempo suficiente, evito ao máximo gastar muito. Depois fico angustiada quando não encontro o que quero para esta ou aquela pessoa que gosto e acho sempre que se gasta demasiado. Aborrece-me quando alguém me oferece um presente e não tenho nada para a troca. continua-me a irritar a figura do pai natal e não fazemos presépio. 


Por outro lado, adoro as férias de inverno, as reuniões de família, os jantares com amigos, o bacalhau, os sonhos de abóbora e as fatias douradas, a lareira, os pijamas e as pantufas, fico emocionada quando vejo a nossa mesa tão cheia, gosto de oferecer coisas bonitas que assentem como uma luva, gosto de pensar em cada um, de dar e receber mimos e abraços dos meus sobrinhos, gosto das viagens e da sensação de chegar onde nos esperam, gosto dos pequenos almoços do dia de natal e de ver filmes lamechas, gosto dos frutos secos e dos vinhos especiais que se bebem nestes dias, gosto de ter os meus filhos por perto e ajudá-los a valorizar os pormenores que de facto importam e que compensam tudo o resto...  gosto da forma como nos sentimos mais atentos e disponíveis para os outros e penso que isso deve ser levado muito a sério acima de tudo dentro da nossa própria casa. 




Desde que as nossas filhas eram bem pequenas que nós aproveitamos os dias que antecedem o natal para fazer programas especiais com cada um dos filhos. A primeira vez que o fizemos foi no natal de 2004, a Eva e a Alice tinham dois anos e a Rita quatro, combinámos dedicar um dia inteiro a cada uma das três meninas. Um dia "filho único" - fizemos programas bem diferentes, desde idas ao jardim Zoológico ou a exposições de interesse para alguma das meninas em particular, um passeio romântico em Sintra com direito a travesseiros e passeio de charrete, uma ida a um cabeleireiro XPTO seguida de almoço num sítio bonito e um passeio pela baixa de Lisboa, entre outros bastante diversos e à medida de cada uma - já o mini rapazinho não tem direito a este tipo de programa porque está muitas vezes sozinho connosco e já é filho único que chegue.
 Em paralelo a isto tentamos oferecer presentes cujo valor sentimental seja superior ao valor material, que correspondam à concretização de um desejo, por exemplo um programa especial de equitação ou surf, um whorkshop ... um fim de semana em família num destino inesperado, um animal de estimação... Todos os anos nos esforçamos por manter esta linha e ajudar as nossas filhas a valorizar o Ser em vez do Ter, as vivências que deixam marcas por dentro e nos transformam em pessoas melhores. 
Este é para nós o lado mais importante do natal, não quer dizer com isto que não tenhamos desejos materiais, vontade de comprar imensas coisas e de oferecer outras tantas, é claro que temos e fazemos, também somos vaidosos e gostamos de coisas novas, mas achamos que como pais|educadores temos uma grande responsabilidade e devemos sublinhar o menos óbvio, enaltecer as emoções e a alegria de estar juntos e valorizar o Amor, sentimento que deve sempre caracterizar esta quadra. 



Há muitos anos e com o objectivo de sensibilizar os nossos amigos e família para este espírito, inspirámo-nos no livro "Laura e o Coração das Coisas" e escrevemos uma carta a pedir a todos que trocassem os presentes por presenças e viessem estar connosco e com os nossos filhos, este ano voltamos a evocar o mesmo: Venham, prometemos ter sempre chocolate quente, ginjinha caseira e bolinhos feitos por nós, a lareira acesa e música de natal (é mais provável que não seja de natal...) 
Venham SER presentes neste Natal.

Novembro 2015, Fotografias Vitorino Coragem
Share This Post :
Tags : , , , , ,

4 comentários:

  1. Identifico-me completamente!! Fotos tão bonitas, obrigada! :)

    ResponderEliminar
  2. Adorei este post e até me emocionei. Também tenho essa relação amor-ódio com o natal... tenho agora um bébé em casa com quase 9 meses e também gostava de começar a criar as minhas próprias tradições. Não sou católica e a história do pai natal não me diz nada... a família é pequena e inclui uns sogros com os quais me identifico pouco... enfim, este ano comecei a não fazer nada no dia 25 e passar o dia em casa só os 3 e os gatos :-) para o ano se verá.
    Gosto dessa ideia de fazer presentes, em vez de comprar tudo. Odeio consumismo e comprar prendas só porque sim.
    E ainda gosto mais da ideia de convidar amigos para estarem presentes connosco. Tenho feito isso mais desde que o P. nasceu, até porque nem sempre apetece ir para sítios com ele, e assim ficamos todos mais confortáveis.
    Descobri este blog hoje... vou seguir certamente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Anita, a entrada de um bebé nas nossas vidas muda muita coisa e realmente faz-nos sentir tudo com outra intensidade, o Natal pode mesmo ser uma época muito bonita se conseguirmos dar esse sentido às coisas, este ano, na noite de 24, ofereci aos meus filhos e sobrinhos pijamas, foi giro na manhã de 25 eles estava todos com os pijamas novos e assim passaram toda a manhã, ideias assim simples podem dar uma sensação boa e começarmos a conseguir desenhar aquilo que é para nós esta quadra. Temos uns amigos que a tarde do dia de Natal convidam um pequeno grupo de pessoas chegadas para beber chá e comer bolo rei, nesse dia estamos todos empanturrados e sabe bem esse registo informal e "quentinho". Abraço e Obrigada por nos seguir, Alexandra

      Eliminar

Sobre Nós

Apresentação

O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

A nossa loja

@nheko_

Seguir por e-mail

Pesquisar