/ 20.11.15 / 20 Comments / , , , , ,

Fala com elas

Muita coisa se escreve sobre a adolescência e os adolescentes, quando esta fase ainda estava longe eu romanceei muito sobre ela e cheguei a convencer-me que ia conseguir vivê-la sem os normais sobressaltos que afectam a maioria dos pais.
Isso não aconteceu e muitos são os dias em que me sinto incapaz de chegar à minha filha mais velha que, aos quinze anos está numa fase que pode não ser sempre maravilhosa mas que é seguramente impressionante... é como andar numa montanha russa, a mim deixa-me completamente tonta, confusa e exausta mas com vontade de lá voltar.


Este projecto é um lugar de encontro, um território neutro onde todos os seis elementos desta família têm um espaço que vai acontecendo naturalmente e que será sempre o que conseguirmos fazer dele.
Perguntei à Rita como poderíamos abordar sobre algumas questões sob a perspectiva dela enquanto adolescente, queria a sua opinião. 
Ela fez melhor, trouxe as amigas e todas juntas falámos sobre a vida, a família, o futuro e o presente. 
Foi tão bom que combinámos repetir em breve.


Nheko: Como são as vossas famílias?
Rita, 15 anos: Eu vivo com os meus pais e os meus três irmãos, o meu pai é músico e passa muito tempo fora, a tocar ou a jogar golf, as minhas irmãs são gémeas mas muito diferentes, uma gosta de desporto e de estudar, a outra adora cozinhar e cuidar do nosso irmão mais pequeno, somos bastante unidos e passamos muito tempo juntos.
Madalena, 16 anos: A minha família não é muito chegada, cada um está para seu lado, não falamos muito uns com os outros, tenho uma irmã com menos um ano que eu e antes discutíamos muito, agora já nos damos melhor.
Mariana, 15 anos: A minha família tem uma história curiosa, os meus pais separaram-se há uns anos e o meu pai começou a namorar com a minha actual madrasta que já tinha sido casada e tinha um filho daquele que, passado uns tempos veio a ser o meu padrasto, o ex marido da minha madrasta é o actual companheiro da minha mãe, é confuso mas é assim. A minha mãe teve mais dois filhos por isso tenho três irmãos mais um "emprestado".
Na casa do meu pai somos mais distantes, eu tenho uma relação melhor com a minha mãe.
Maria, 15 anos: Eu tenho um irmão mais novo com 10 anos, temos a típica relação de irmãos. Eu dou-me melhor com a minha mãe do que com o meu pai, discordo muito com a forma como o meu pai pensa e com o seu comportamento comigo. De resto somos muito distantes do resto da família, tios, avós...
Carolina, 15 anos: Eu vivo com os meus avós, com a minha mãe e com os meus dois irmãos que são mais novos. Os meus pais separaram-se há pouco tempo mas eles nunca se deram muito bem portanto acho que nunca tive uma estrutura familiar normal. Dou-me bem com o meu pai mas sou distante dele, tenho uma relação mais próxima com a minha mãe, também me dou bem com os meus avós mas temos muitas discussões, mesmo muitas, com os meus irmãos também. A minha família no geral é uma grande confusão mas sempre que precisamos uns dos outros estamos lá para nos apoiarmos, é uma família difícil mas gostamos muito uns dos outros.


Nheko: Quando pensam no futuro como é que se imaginam, que tipo de família idealizam e o que é que não querem para vocês?
Madalena: O meu pai não é católico e a minha mãe é, eles fizeram um acordo antes de terem filhos, se nascessem rapazes não teriam uma educação católica, se fosse meninas teriam uma educação católica. Nós somos duas raparigas e fomos ambas baptizadas e eu fico feliz por isso, eu quero que a minha família seja católica praticante, a minha mãe não é praticante mas leva-me à missa todos os domingos, eu vou sozinha. Esta era uma coisa que eu gostava para a minha família.
A minha casa é muito grande e isso permite que quase nem nos cruzemos, eu vou querer uma casa pequena e aconchegada que faça com que a família esteja mais junta.
Mariana: Com a experiência que tenho vivido eu vou tendo noção de que algumas coisas que eu não vou mesmo querer repetir com os meus filhos.
Carolina: Vou querer uma marido de quem goste mesmo muito e não me vou separar dele para que os meus filhos não sofram com essa situação. E vou ser uma mãe muito rigorosa (risos), não vou ser tipo a minha avó mas vou controlar os meus filhos e não os vou deixar fazer tudo, não quero que se percam.
Rita: Eu acho que o mais importante numa relação entre pais e filhos é a confiança, sem isso não se vai a lado nenhum. Sem confiar nos filhos os pais ficam sem saber o que podem ou devem permitir e vivem sempre preocupados.
Não mentir aos pais é fundamental, além da nossa consciência ficar mais leve podemos contar com a confiança dos pais.
Madalena: Quando os pais proíbem e não deixam fazer nada os filhos acabam por se revoltar e fazer ainda pior.
Maria: Elas tocaram num assunto que acho muito importante, os pais não deixarem fazer as coisas e os filhos revoltarem-se, eu não estou a dizer que me vou revoltar ou que me revolto mas o meu pai não me deixa fazer grande parte das coisas que quero e a minha mãe deixa, ora isso acaba por motivar muitas discussões em casa e eu sinto-me muito mal por ser o motivo dos conflitos.
A minha mãe confia em mim mas o meu pai não, eu acho fundamental que os pais confiem nos filhos e penso que os filhos vão sempre retribuir, se os pais confiam eles não mentem e fazem tudo para manter essa confiança. Se os pais são abertos com os filhos estes também vão ser mais abertos na relação que têm com os pais.


Nheko: De uma maneira geral acham que os adultos são justos convosco?
Madalena: Acho que até são mas nós não queremos aceitar. A maioria das vezes tem a ver com a nossa segurança, se o meu pai diz que não posso ir a determinado sítio é porque ele pensa que alguma coisa pode correr mal e eu como quero ir nunca vou pensar nas possíveis consequências. Eu só vejo um lado e os meus pais só vêm o outro.
Maria: Os pais deviam preocupar-se mais em explicar as suas razões, sem se zangarem e deixarem-nos explicar também as nossas vontades e razões, se nos ouvirem nós vamos conseguir ouvir também.
Os adultos deveriam esforçar-se mais por nos dar conselhos e não ordens, por nos ajudar a ver as coisas e não nos proibir de fazer o que vamos fazer na mesma.
Rita: Eu acho que cada um é dono de si próprio e devia poder ter a última palavra, fazer o que achar melhor, as consequências são sempre do próprio. Se eu não estudar e chumbar sou eu que vou sofrer as consequências no meu dia a dia, para os pais é mau mas pior é para o próprio. Os pais podem-nos ajudar a perceber o que nós não estamos a ver, podem-nos orientar e nós devemos confiar neles mas na verdade nós vamos acabar por fazer as coisas à nossa maneira, arranjamos sempre forma, pode ser é ás claras ou ás escondidas.

Nheko: Vão ser pais diferentes dos que têm?
Maria: Eu vou ser mais liberal, vou querer que os meus filhos confiem em mim e poder confiar neles, vou querer construir essa relação.
Rita: Não muito diferente da que tenho, eu vou querer ter uma relação com base na confiança, gostava que a minha filha me contasse tudo sem vergonhas ou esquemas, queria que fossemos como amigas.

Nheko: O que vos impede de ter essa relação "ideal" com os vossos pais?
Carolina: A vergonha e o medo das reacções.
Madalena: A forma como nos tratam. Por exemplo se eu recebo um teste mau eu não fico preocupada com a nota em si, eu fico preocupada é com as consequências, com a reacção que sei que os meus pais vão ter, vou ficar de castigo. Isto não é base para uma boa relação.
Maria: Eu acho que se os pais não se zangassem tanto se calhar até tinhamos mais brio pessoal na escola, eu preocupo-me em ter boas notas para poder fazer as coisas da minha vida e não para saber mais, aprender e ser boa aluna. Acho que isto não faz sentido nenhum.
Rita: Isso vai-se reflectir no futuro, quando tiveres a tua vida e a tua liberdade vais ter de fazer as coisas por ti e não para agradar aos outros, os pais que têm essas atitudes deviam pensar nisto e perceber o quanto é mau para os filhos.
Maria: Devemos fazer as coisas e esforçar-nos por nós, para nos sentirmos bem connosco.

Nheko: Qual a vossa opinião sobre os castigos?
Maria: Não servem para nada, é a conversar que se resolvem as coisas, temos de compreender os "porquês" senão não serve de nada.
Carolina: Não sei, se for merecido até pode fazer sentido mas em relação à notas não.
Madalena: Eu estou sempre de castigo, se tenho menos de 13 num teste fico de castigo e não posso fazer nada nem sair no fim de semana seguinte, é muito injusto, até porque há vezes em que estudo imenso e não consigo e fico de castigo na mesma.
Rita: Eu nunca fiquei de castigo, cá em casa não há castigos.
Carolina: Eu, depois de fazer uma festa em casa sem autorização fiquei de castigo e achei justo.
Mariana: Só em pequena é que tive castigos, eu agora não faço nada que "mereça" castigos. Mas sou muito diferente na casa do meu pai e na da minha mãe, eles são muito diferentes comigo e tenho uma relação diferente com cada um.
Madalena: Isso até com os professores acontece, há professores de quem não gosto e não me importo com eles, os que eu gosto esforço-me muito mais e tenho melhor comportamento.
Rita: Os pais que não querem que os filhos façam coisas nas suas costas mas que recusam tudo o que os filhos lhes pedem e nem dão justificação, estão de certa forma a obrigar os filhos a mentir. Se há castigos então são os adultos que muitas vezes os merecem. 
Mas também há quem não faça mesmo nada porque tem medo dos pais.
Mariana: Eu tenho medo do meu pai, não que me bata nem nada disso mas tenho medo de piorar a relação que tenho com ele e que tem sido muito difícil de conquistar. Eu era incapaz de fazer alguma coisa "mal", desobedecer ou sair sem autorização.
Maria: No caso da Carolina que fez um convívio sem autorização eu acho que se os pais dela tivessem abertura para ela pedir nada disto tinha acontecido!
Madalena: Sim, ela ia chegar a um acordo com eles sobre o número de pessoas a convidar, o tipo de festa, etc.
Rita: Claro, ela ia pensar que se os pais estavam a deixar, a colaborar então teria de fazer todos os possíveis para que tudo corresse bem, para corresponder ao que eles lhe estavam a dar - Confiança.
Carolina: É do género, não me deixam fazer mas eu faço na mesma e quero lá saber... não há mais nada a perder, é indiferente.
Rita: Se nos sentimos respeitados, fazemos o mesmo.


Nheko: É mais difícil ser adolescente do que foi ser criança?
Madalena: Sim, os problemas com os pais são maiores, há mais conflitos. Eu em pequena era chegada aos meus pais e agora não sou nada.
Mariana: Era tudo mais fácil, menos confuso.
Rita: Eu não acho nada. Gosto muito mais desta fase, sinto-me melhor comigo, estou mais confiante e divirto-me mais. A relação com os meus pais até está melhor agora, mesmo com conflitos e zangas, faz parte, temos respeito uns pelos outros e estamos muito próximos. Antes era pior, vivíamos muito longe da escola e não estávamos tempo nenhum em casa, era pior a minha vida.
Madalena: Eu também gosto de ser adolescente mas acho que é mais complicado.
Mariana: Agora temos mais a noção de tudo.

Nheko: O que é que vos preocupa?
Maria: As minhas notas, as médias para entrar na faculdade, o futuro.
Rita: A mim preocupa-me fazer as escolhas certas.
Madalena: É preciso conhecer as pessoas certas, às vezes isso faz toda a diferença na nossa vida, é preciso ter sorte também, fazer as escolhas certas, sim.
Maria: Por vezes mais do que o curso hoje é importante o esforço, a atitude, as ideias e a forma de pensar.
Mariana: O curso é muito relativo, a minha mãe nunca andou na faculdade e sempre trabalhou em coisas que gostava, nunca esteve desempregada.
Carolina: A mim preocupa-me ter sucesso, fazer o que gosto e receber bem por isso, conseguir uma vida estável. Eu gostava de ser estilista, trabalhar no mundo da moda, ter uma marca minha.
Rita: Eu quero viajar!
Madalena: Ter sucesso é poder viajar, conhecer coisas novas.
Rita: Eu tenho uma lista de coisas que quero fazer na vida, quero ter o máximo de experiências possível, gostava de ser hospedeira, modelo, actriz, mas também outras coisa, trabalhar num bar, numa loja, até apanhar lixo na praia, experimentar de tudo até perceber o que é que mais gosto de fazer.
Madalena: Não dá para pensar em fazer só uma coisa, ter uma mesma profissão toda a vida, há tanta coisa.


Nheko: Vocês falam sobre o actual estado do mundo?
Mariana: Na escola falamos, em economia.
Madalena: Eu falo com os meus colegas de escola, falamos sobre a possibilidade e o medo de uma terceira guerra mundial.
Carolina: Eu tenho imenso medo disso.
Rita: Eu não me preocupo, obviamente que sinto medo e tenho receio que as coisas se agravem mas sinto que estou tão distante, não por ser longe, eu estou distante porque nem consigo ter a mínima noção do que se sente, não faço ideia do que isso representa na verdade, não sei o que é sofrer assim.
Carolina: É tudo tão estranho e irreal para nós, na nossa idade não conseguimos perceber bem o que está a acontecer.
Rita: Nunca estivemos perto do sofrimento, não consigo imaginar como serão esses cenários, uma bomba? tudo destruído, sangue, mortos, calor? não sei, vejo nas notícias, nos filmes mas não consigo ter noção.
Madalena: Eu só de pensar nas pessoas que têm de fugir do seu pais, largar as suas casas e fugir a pé, fugir para não morrer e morrer por fugir? a situação dos refugiados é terrível.
Rita: Às vezes penso que me preocupo em ter coisas, em querer comprar uma peça de roupa e há pessoas que têm de se preocupar em não morrer à fome, em fugir da guerra, há tanta gente sem nada e eu com preocupações destas, "hoje quero almoçar um hambúrguer"... "preciso de umas calças novas"... há tanto luxo e tanta injustiça, sinto-me tão pequena e impotente.
Madalena: Na missa agradecemos sempre, por mais um dia, por tudo o que temos, agradecemos a Deus pela vida.
Rita: Eu também agradeço, não é a Deus mas agradeço. Quando estou doente, com alguma dor, penso sempre que não dou o valor suficiente ao estar bem, é quando estamos mal que conseguimos valorizar as coisas, a saúde, o que temos. Eu agradeço muitas vezes pelo que tenho à mãe natureza. Acredito que há alguma coisa superior a nós, acredito que haverá justiça para quem fez o bem e também quem fez o mal, não sei se é o inferno mas acredito que terá alguma coisa.
Carolina: Eu não acredito em Deus, não consigo aceitar que um Deus permita tanta injustiça, tanta gente boa e inocente a sofrer. Mas ultimamente tenho conversado sobre isto com a Madalena que me tem falado das coisas de forma diferente, ela disse-me que há sempre uma razão para todas as coisas acontecerem e eu acredito que há uma força superior.
Rita: Acontece-me muito pedir ao universo coisas banais do dia a dia, quando vejo no telemovel 11;11 ou 14:14 peço sempre um desejo, todas fazemos isso, não estamos a pedir a Deus, é como se estivéssemos a pedir a nós próprias, a dar força aos nossos desejos.
Madalena: Sim, ai eu peço coisas como "ter boa nota no teste", a Deus eu não faço estes pedidos, peço que me ajude, que me dê força para conseguir estudar. Peço que me ajude a eu conseguir alcançar os meus desejos, não peço que mos concretize.


Nheko: Qual a vossa opinião em relação aos diferentes tipos de família e orientação sexual das pessoas?
Madalena: Apesar de católica praticante eu sou muito aberta e liberal, acho que o amor e a felicidade são sempre o mais importante.
Carolina: Muitas famílias "diferentes" são certamente mais felizes que as tradicionais que só aparentam ser normais.
Rita: Eu não consigo perceber qual é a diferença, se são dois homens ou duas mulheres, um homem e uma mulher, o que importa é o que a pessoa sente.
Maria: Acho tão mal que os casais homossexuais não possam adoptar, as crianças precisam de amor venha ele de quem vier.
Rita: É muito preconceito pensar-se que dois homens serão piores pais que um casal composto por um homem e uma mulher.
Madalena: Eu também concordo com o facto de casais homossexuais possam criar e educar filhos com o mesmo amor e capacidade mas fui pesquisar o porquê da igreja se opor e o argumento é que as crianças precisam de ter referências femininas e masculinas na sua educação para se formarem como seres equilibrados e assim se assegurar que dão continuidade à espécie, isto porque a nossa função na terra é ter filhos, isso é que é natural e não a homossexualidade.
Maria: A igreja acha que é por seres educado por duas mulheres que vais ser lésbica? isso não faz o mínimo sentido!
Madalena: A igreja defende que a imagem de um pai e de uma mãe são fundamentais para a formação de uma pessoa equilibrada, é essa a justificação da posição da igreja.
Rita: Mas nem a igreja nem a lei podem interferir nos sentimentos das pessoas, pode proibir o casamento mas não pode proibir que as pessoas sejam felizes juntas, o casamento não interessa nada!
Madalena: Mas é um direito, se os heterossexuais podem casar todas as pessoas deviam poder senão estão a ser descriminadas.
Rita: A maior parte das pessoas que casam acabam divorciados e os que se juntam continuam juntos, é estranho isso.

Nheko: Acreditam no amor para sempre?
Carolina: Eu acredito, pode ser difícil de encontrar mas existe! A minha avó disse-me que uma pessoa deixa de estar apaixonada depois de muito tempo casada, que pode continuar a gostar mas que já não está apaixonada, fiquei chocada, não quero acreditar nisso.
Rita: É como as coisas novas que nos fazem sentir uma emoção, as pessoas no início da relação também, depois deve-se perder aquela sensação mas fica um sentimento forte, a relação vai-se construindo com o tempo.
Maria: Na nossa idade é difícil pensar nisso.
Mariana: Viver com alguém 20, 30 anos? Deve ser muito difícil.
Maria: Mas se gostas realmente de alguém consegues ultrapassar as dificuldades.

Nheko: O que é que vos parece fundamental para que uma relação resulte?
Maria e Madalena: Confiança.
Carolina: Gostar.
Mariana: Respeito.
Rita: Além disso tudo os filhos também reforçam o amor, os filhos saem das mães, são a prova do amor de um casal. Eu gostava de ter filhos e de adoptar também mas tenho receio que o amor não seja o mesmo em relação aos filhos que não nascem mesmo de nós.
Madalena: Quando se quer muito amar um filho deve ser igual.
Maria: O amor constrói-se.
Mariana: Os meus irmãos para mim são todos iguais, os do mesmo pai e os que são só da mãe mas penso que se fossem do meu pai e de outra mãe era provavelmente muito diferente, mãe é mãe!
Rita: a ligação das mães com os filhos é uma coisa muito forte.


Nheko: As vossas mães têm o tempo que vocês precisam?
Madalena: eu não passo muito tempo com os meus pais, a minha mãe está sempre no computador, eu só me lembro de ter proximidade em pequena, não somos nada chegadas, se a minha mãe me der um abraço eu estranho, é constrangedor e não devia ser.
Mariana: A minha mãe sempre nos pôs à frente de tudo, preferiu ter empregos menos bons para ter tempo para os filhos.
Madalena: Isso é muito importante, quando escolhemos uma profissão devemos pensar nisso, eu vou querer ter tempo para os meus filhos. O meu avô era militar e a minha mãe teve uma educação muito rígida e conservadora e eu agora vejo a minha mãe a reproduzir o que recebeu e penso que não quero nada ser assim com os meus filhos. às vezes sou agressiva com a minha irmã, não controlo bem a raiva tal como a minha mãe faz comigo e o meu avô fazia com ela. Eu quero muito mudar isto.

Nheko: Alterar o que recebemos como herança dos nossos pais parece-vos simples ou complicado?
Maria: Simples não deve ser mas é possível. A minha mãe teve de ser muito independente e autónoma cedo, o pai estava muito ausente e a sua mãe teve de se dedicar ao irmão que era muito problemático. Ela teve de crescer muito depressa e foi responsável muito antes da idade para o ser, então ela comigo e com o meu irmão tenta a todo o custo fazer o contrário, às vezes até me queixo por ela estar sempre tão próxima, ela vai-me buscar e levar sempre e preocupa-se muito que eu não tenha de assumir responsabilidades que são dela. Às vezes conversamos sobre isto e eu explico que também preciso do meu espaço e ela entende, temos uma boa relação.
Madalena: Eu sou muito responsável e autónoma, muito mais do que a minha irmã que é mais protegida e mimada, eu sou mais independente.
Mariana: Nesta idade precisamos de ter o nosso espaço.
Rita: Espaço, confiança, liberdade mas amor também.
Mariana: Ter irmãos pequeninos a mim ajuda-me a perceber muita coisa, a sentir-me mais preparada para a vida, a perceber como quero ser quando for mãe. É uma experiência para a vida.

Nheko: A vida em família tem certas rotinas que muitas vezes são alvo de críticas por parte dos adolescentes, o que é que acham sobre a necessidade dos horários, das refeições em família?
Mariana: Durante a semana já temos tantos horários que me parece desnecessário por exemplo termos de jantar todos os dias à mesa todos juntos.
Madalena: Eu não me sento à mesa com os meus pais, cada um agarra nas coisas e vai comer para o seu lado, e ao fim de semana muito menos. Quando vou a casa de outras pessoas e vejo a família sentada à mesa penso "É Natal???" Isto também é qualquer coisa que quero muito fazer diferente, acho importante a família estar junta.
Rita: Eu janto todos os dias com toda a família à mesa e talvez por isso sinto que de vez em quando gostava de poder comer à hora que me apetecesse!
Maria. Eu acho importante, é uma hora em que todos nos encontramos e falamos, contamos como foi o dia e ficamos mais próximos uns dos outros.
Mariana: Eu não tenho essa necessidade, talvez porque tenho os irmãos pequeninos e os pais separados, não sei mas não acho importante, se calhar se tivesse os meus pais juntos talvez me fizesse sentido.

Novembro 2015 Fotografias Vitorino Coragem

Nheko: Quando é que vocês conversam mais com as vossas mães?
Madalena: As minhas amigas contam coisas que as mães disseram à mesa, o que conversaram e eu penso que eu nem sei de nada, a minha mãe pergunta-me pelos testes quando andamos de carro e é tudo.
Mariana: A minha mãe sabe tudo, ele pergunta se comi bem, se foi um dia bom e eu conto-lhe sempre que acontece alguma coisa. O momento que falo mais com a minha mãe é quando andamos de carro as duas sozinhas.
Maria: Eu gosto dos momentos em que está a família toda junta mas tenho muitos momentos só com a minha mãe e aí é que falamos sobre tudo.
Rita: Eu gosto de sair sozinha com a minha mãe, ir ás compras, almoçar ou jantar fora só as duas.
Mariana: A minha mãe entende-me como ninguém, gosto de estar só com ela.
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20 comentários:

  1. Para mim no top Nheko! Porque me lembro ainda tão bem desta fase da minha vida, por ser mãe de um adolescente e pela honestidade e maravilha destes relatos tão diversos. só tenho lidado com rapazes, mas apesar de difícil, considero a adolescência algo fascinante!!! Grande ideia da Rita.

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  2. Muitas vezes desesperante pelo constante teste dos limites, mas verdadeiramente fascinante. Parabéns pelas questões colocadas e pelos testemunhos

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  3. Que maravilha de momento este! É tão diferente "ver" assim ao vivo e a cores, porque cada uma é um mundo diferente. E ainda continuamos a ouvri que esta geração está perdida, sem valores...
    Perdido estará quem pensa assim!
    Adorava que me convidassem para a próxima conversa! Posso levar umas perguntas comigo!
    E podes dizer à Rita que a lei da adopção por casais do mesmo sexo já foi aprovada! De facto, o que é necessário para adoptar é mesmo ter amor. E quanto a modelos femininos e masculinos... na verdade todos nós os temos aos dois dentro de nós. Ainda há uns dois ou três dias falava eu com o Jorge sobre esta questão da adopção. O que é hoje afinal uma família tradicional/dita normal???
    Um beijo bem grande a todas as meninas/mulheres. Adorei e diverti-me imenso a ler-vos!
    Patrícia Galvão

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  4. Belíssima entrevista. Quem tem filhos adolescentes identifica-se com muitas das respostas. Na minha opinião faltou um rapaz para ouvir outro ponto de vista.

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    1. Obrigada, quanto à opinião masculina, estamos a pensar na melhor forma de o conseguir.

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  5. A família bonita que se lemos no blog, reconhece-se de imediato nas respostas da Rita.. Ou será melhor dizer, o resultado da família bonita... :) :) Muitos parabéns..
    Muita sorte e felicidade para a Rita e para as amigas dela..
    Brigite Silva

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  6. «Rita - ...eu não estou a dizer que me vou revoltar ou que me revolto mas o meu pai não me deixa fazer grande parte das coisas que quero e a minha mãe deixa, ora isso acaba por motivar muitas discussões em casa e eu sinto-me muito mal por ser o motivo dos conflitos. ...» fez-me recordar a minha situação. Eu nunca me senti culpada por isso acontecer, achava que eles é que se tinham que entender. Mais tarde o meu irmão mais novo acusou-me de estar sempre a causar discussões entre os pais - foi mau! Tive que lhe explicar umas coisas mas foi um mau momento.
    Muito interessante o post. Espero o dos rapazes

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    1. A frase é da Maria e não da Rita.
      Obrigada pelo comentário, de facto há situações que enquanto pais criamos com consequências bem desagradáveis, nunca é com intenção directa nem feito com consciência mas é real.
      A frase é da Maria e não da Rita.
      Quanto à sessão com rapazes terá de ser uma situação muito bem pensada, este tipo de conversa exige relação e preciso de criar as condições certas para que aconteça de forma natural e espontânea como esta.
      Já temos uma estratégia, vamos ver se conseguimos concretizar.
      Muito obrigada
      Alexandra

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  7. Amei ler isto, aprendi muito. Tenho um filho de 7 anos e preocupa-me a adolescencia, somos tão proximos, será que isso vai desaparecer? como fazer para nos prepararmos para essa fase e eu ser melhor mãe, confiando e respeitando? Precisamos de uma entrevista igual aos rapazes, por favor!!!
    Já agora, se a Alexandra tem a benção de ter 4 filhos, está numa posição privilegiada para fazer o mesmo aos pequeninos e ver as diferenças quando tiverem a idade da Rita! E já agora, será que estas adolescentes daqui a 10 anos pensarão da mesma forma? Porque eu pensava como elas, agora diria coisas diferentes e, afinal, houve proibições e coisas impostas pelos pais que hoje agradeço (por ex, aos 17 e 18 anos faziam questão de me ir buscar às discotecas fosse que horas fossem, mas para eu não ir de carro com 'amigos' ou apanhasse taxis a meio da noite - acho que isso fez com que eu nunca apanhasse uma bebedeira e nunca na vida experimentei um charro, o que hoje até causa estranheza - mas espero repetir com o meu filho pois acho que foi importante, o que um adolescente acharia uma aberração e teria vergonha como eu tive).

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  8. TOP.
    Adorei mesmo muito. Tenho uma filha e 2 rapazes. Dou por mim a questionar-me se a minha relação com a minha filha vai continuar como hoje. Muito cúmplice

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  9. Cheguei aqui pela Kiki, li e a mc {a minha filha com 15 anos} leu também. Falámos de tudo o que aqui está escrito e só te posso agradecer: muito obrigada, mesmo!, de coração :-)

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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