/ 13.11.15 / 17 Comments / , , , , ,

Mindfulness por Mikaela Övén

Mikaela Övén (Mia), nasceu em 1976 na Suécia, está em Portugal desde 2001 e é mãe de três filhos.
Apaixonada pelo Mindfulness e Parentalidade Consciente, Mia iniciou um longo percurso de tomada de consciência de si própria, de alteração de comportamentos e de melhoria de vida - a dela e a da sua família.
Lança agora um livro - Educar com mindfulness, que considera que pode servir de guia para pais e educadores que queiram embarcar nesta muito gratificante aventura.
Conversámos numa esplanada em Lisboa e, aquilo que era para ser uma entrevista rápida, transformou-se numa longa conversa sobre os filhos, a educação, os diferentes caminhos da vida e a consciência que podemos ter neste processo fascinante que é a parentalidade.



Nheko: És uma mãe diferente dos pais que tiveste?
Mia: A minha mãe fazia muitas coisas excelentes mas de forma inconsciente. Sempre foi muito boa a assumir a responsabilidade pelas suas próprias necessidades, não era controladora nem me castigava mas eu sou diferente no sentido que eu eu tenho consciência da minha actuação e dos porquês da mesma, eu também sou muito mais próxima dos meus filhos, eu sei mais coisas sobre a minha filha, sobre a sua vida, somos mais cúmplices. A minha mãe sempre me deixou tomar as minhas decisões, o meu pai era mais controlador, se eu saia à noite a minha mãe deitava-se e dormia, o meu pai ficava à minha espera no sofá.

Nheko: És casada com um português, de Matosinhos, viver perto da sua família foi a razão da escolha do local para morar?
M: Poder contar com o apoio da família é muito importante, essa foi realmente um dos motivos da nossa escolha, consideramos fundamental ter apoio e poder partilhar o crescimento dos nossos filhos com esta parte da família. Para a vida de casal é mesmo fundamental ter tempo a dois, de momento temos até um "compromisso" de sairmos os dois uma vez por mês... nem sempre é fácil por causa dos muitos compromissos profissionais de ambos mas temos bem claro que é prioritário.

N: Quais são os vossos programas favoritos em família?
M: Somos mais de programas desportivos mas para nós fazer coisas em família é estarmos conectados uns com os outros e isso pode ser apenas tomar pequeno almoço em família ao fim de semana, não tem de ser nada de especial, tem a ver mesmo com a atitude e não com o que vamos fazer.

N: Qual a tua opinião em relação ás actividades extra curriculares?
M: Acho importantes mas só quando não causam mais stress na vida da família, não só na vida da criança mas na dinâmica familiar, os meus filhos não andam em mais actividades pois isso seria muito desgastante para a família, acho fundamental avaliar bem este aspecto.

N: Os livros estão presentes na vossa vida familiar?
M: Para além do uso que cada um faz individualmente, temos a rotina diária de ler livros à noite antes de dormir, eu leio em Sueco e o pai em Português. Gosto da "Pipi das meias altas", na Suécia há uma grande preocupação de abordar na literatura infantil a questão da igualdade dos géneros, aliás essa é uma realidade muito diferente nos dois países, na Suécia qualquer matéria é sempre vista da perspectiva da igualdade do género, isso acontece em todos os graus do ensino e em todas as temáticas.


N: E quais as tuas rotinas de trabalho, tens um horário pré definido para meditar?
M: Eu trabalho bem de manhã mas gosto de estudar pela noite dentro. Não tenho nenhuma rotina pré estabelecida mas ao longo do dia tenho vários momentos de conexão comigo mesma. Há muitas pessoas que dizem que não conseguem meditar, eu era assim, mas a meditação que pratico não necessita que eu me isole em silêncio e que limpe a minha mente de todos os pensamentos. Em qualquer momento eu foco-me em mim, consigo aceder à energia da meditação a qualquer hora e isso ajuda-me a estar serena e focada. Eu não tenho de fechar a porta aos pensamentos, só tenho de não me centrar neles, deixo-os surgir e desaparecer. Eu utilizo sempre uma atitude de curiosidade, por exemplo penso: "olha lá estou eu a ter este pensamento de novo...", não me julgo, sinto compaixão por mim, deixo o pensamento fluir e não me fecho nele, é um abrir de portas, os pensamentos entram e saem.

N: Trabalhavas na área dos recursos humanos no Ikea, como começou este teu percurso?
M: Ainda nessa altura eu já tinha dado início a este meu caminho mas foi há cinco anos que resolvi dedicar-me a 100%, deixei o meu emprego super bem remunerado mas que me obrigava a viajar imenso e a passar muito tempo fora da minha família.

N: Foi uma altura com muitas "Dores de crescimento"?
M: Eu tinha já dado início a este trabalho mas quando o meu filho do meio tinha 2 anos passou por uma fase complexa, revoltava-se imenso e foi ai que eu tive de procurar novas soluções, foi ele que me trouxe até aqui, ele é o meu "guru". Ele foi um bebé super fácil mas quando chegou àquela fase dos 2 anos, da independência mudou e nada funcionava com ele, então comecei a praticar parentalidade consciente, até então eu ainda tinha em mim o certo e o errado, embora já tivesse muitas práticas conscientes mas ainda achava que, como mãe os tinha de corrigir, ainda vejo na minha filha ais velha alguns reflexos disso e até já conversámos sobre isso.

N: Qual a percepção que os teus filhos têm deste teu trabalho?
M: A minha filha no outro dia disse-me que o seu professor lhe tinha falado sobre o meu livro e que a tinha questionado sobre o que é isso da parentalidade consciente, ela respondeu dizendo que a mãe nunca os punha de castigo, que conversávamos e que eu os fazia entender o porquê das coisas e que assim eles não tinham medo e que entendiam o que se passava à volta. E é esta a principal ideia dela, é aqui que ela sente de forma mais evidente que é diferente dos amigos.

N. Os castigos e as palmadas são um caminho muito utilizado pelos pais quando se fala de educação, sentes que há uma grande diferença entre a realidade portuguesa e a sueca?
M: Eu cresci na Suécia onde a palmada não é sequer assunto de discussão. Não é uma ferramenta na educação.
A palmada é algo que demonstra que o adulto não está a conseguir gerir as suas emoções, no entanto as palmadas podem acontecer mas não são um recurso nem há "hora certa", é sempre uma perda de controlo.
A palmada está proibida na Suécia mas isso não quer dizer que os pais suecos respeitam sempre os seus filhos, há outras formas de desrespeitar as crianças.
Quanto aos castigos há quem defenda que são essenciais para preparar as crianças para uma sociedade que utiliza a punição como recurso, eu acredito que estou a dar aos meus filhos ferramentas que lhes permitem uma melhor gestão das emoções e que isso vai ser essencial em muitos momentos e pode prepará-los para situações adversas, são recursos que lhes vão permitir adaptar-se a qualquer situação e a não depender do exterior mas sim deles próprios. Este é o meu ponto de vista e é nisto que acredito mas não sou missionária, há muita gente que se encontra demasiado distante de mim e eu já não insisto, antes eu lutava muito para conseguir provar que tinha razão, agora já não o faço, também percebi que essa atitude era demasiado desgastante e nem era congruente com o que defendo.

N: A parentalidade consciente é um caminho partilhado?
M: Temos um diálogo constante, há uma troca, um crescer juntos. O meu papel é de orientadora, de ajudar a encontrar caminhos, de questionar. A parentalidade é o melhor curso de desenvolvimento pessoal do mundo - se tu o quiseres! Eu sinto que a minha auto estima tem crescido muito na relação com os meus filhos e eu sei que posso trabalhar mais, porque quero, não porque tenho de o fazer ou me sinto obrigada a isso, faço-o porque posso e quero sem nenhuma intenção de ser perfeita.
Nós somos muito condicionados  e temos muitos problemas de auto estima que depois se reflectem na forma como lidamos com os nossos filhos. O tomar consciência de nós mesmos é algo difícil e que nem todas as pessoas estão disponíveis.

N: No trabalho que desenvolves encontras muita resistência à mudança?
M: Eu faço acompanhamento individual e trabalho também com grupos, em grupo as pessoas reforçam-se e acabam por se expor com mais facilidade, individualmente há muitos casos em que quem me procura vem porque precisa de resolver um problema com um filho mas ao perceber que tem de fazer uma trabalho individual, consigo próprio, acaba por recuar, há muita dificuldade quando se sentem postos em causa.
A consciencialização é também um buraco complicado porque traz a culpa e o peso da responsabilização. O grande salto é quando se consegue ter consciência e saber que podes fazer melhor, que vais fazer muitas vezes mal mas que podes sempre fazer melhor e que está tudo bem, esse é um passo importante, quando aceitas e vives cada momento como uma nova oportunidade. Nisso a generosidade das crianças é muito maior e genuína, mostram com mais facilidade o amor incondicional.
A parentalidade pode ser uma oportunidade de viver de forma consciente, de aprender todos os dias, mas há muita gente que passa ao lado de tudo isto, há quem considere que os filhos são apenas mais um acessório para encaixar na vida perfeita, uma etapa necessária na vida sonhada, tal como o emprego, o casamento... Respeitar os nosso filhos é muito mais do que isso, é observar de forma consciente o crescimento indo mais além de objectivos como educar para o sucesso, para boas notas, para um bom curso, um bom emprego e uma suposta boa vida.

N: A autonomia é importante na educação dos teus filhos?
M: É muito importante, a autonomia e a responsabilidade. Nós fomentamos a autonomia nas mais diversas situações e por vezes os miúdos surpreendem-nos na forma como sozinhos encontram as suas próprias soluções, aprendemos todos os dias com eles.

imagens direitos reservados Mikaela Övén

Mikaela Övén, estudou ciências comportamentais na Universidade de Lund, Suécia, e é licenciada em Recursos Humanos com a especialidade de desenvolvimento de competências pela Universidade de Malmö, Suécia. Saiba mais sobre o seu trabalho aqui.
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17 comentários:

  1. Obrigada! Gostei tanto... Ja estava curiosa para comprar o livro, agora tenho a certeza.
    Bjs. Tangerina

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  2. Educar com Mindfulness para Mim é fundamental para Co Criar um novo Mundo, repleto de Amor e Paz, com Pais e Filhos Felizes, que crescem em Pura União e Entendimento :) Gratidão por este Livro, por Profissionais e Pais dedicados, que tanto nos podem ajudar a esta Co Criação constante e diária <3

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  3. A minha constante intenção de ser melhor Mãe, faz-me tornar numa pessoa melhor, mais"limpa", mais "aberta ", mais feliz! ♡
    Tânia Mota

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  4. Já há algum tempo que vou seguindo a página da Mia porque quero muito ser uma mãe melhor, mais calma, com maior capacidade de perceber o meu filho e criar empatia entre nós. Quero muito ganhar este livro!

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  5. Educar com mindfulness é um educar em todos os sentidos. Encaro o mindfulness como uma ferramenta de auto conhecimento que ao mesmo tempo me permite chegar mais perto de todos e do meu filho. O mindfulness veio ter comigo com o nascer do meu filho e pelo facto de eu querer que ele seja feliz em todos os sentidos.
    Quero muito adquirir este livro para conseguir sentir de pertinho os ensinamentos da Mia <3

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  6. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

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  7. Educar com mindfulness é um educar em todos os sentidos. Encaro o mindfulness como uma ferramenta de auto conhecimento que ao mesmo tempo me permite chegar mais perto de todos e do meu filho. O mindfulness veio ter comigo com o nascer do meu filho e pelo facto de eu querer que ele seja feliz em todos os sentidos.
    Quero muito adquirir este livro para conseguir sentir de pertinho os ensinamentos da Mia <3

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  8. Pela vontade de ser uma mãe mais Presente, será um livro a ler.

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  9. A vida e feita de mudanças...eu quero mudar..eu estou a mudar por mim e pelos meus filhos. Cada vez mais tento Educar com Mindfulness

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  10. Pela necessidade de evoluir e ajudar de forma positiva quem me rodeia, a começar pelo meu filho, que passa por uma pré-adolescência conturbada!
    Paula Jacinto

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  11. Pela necessidade de evoluir e assim ajudar quem me rodeia, a começar com o meu filho, que atravessa uma pré - adolscência conturbada|

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  12. Por ser tão fundamental a tranquilidade e a respiração considero importantissímo, para além de um momento intímo entre a família, cria momentos de paz interior que, nos dias de hoje, são tão esquecidos. Há muito tempo que o fazemos aqui por casa. Acrescentamos massagem e relaxamento. Hum... sabe-nos tão bem!

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  13. A parentalidade consciente transformou a minha vida, ajudou-me a estar mais presente e consciente das necessidades da minha filha. Tenho estado à espera do livro da Mia com grande expectativa e agora que finalmente chegou: "Educar com Mindfulness" é tudo o que o mundo precisa!

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  14. É quase inacreditável o processo de desenvolvimento pessoal que se inicia quando nasce uma Mãe/Pai/Educador... Essa tomada de consciência é, por si só, já um grande passo no sentido de querer ser mais e melhor para a criança e para nós, enquanto seres humanos.
    É isto que tenho aprendido ao longo do complexo caminho da Maternidade, apoiado nas orientações da Mia e da sua defesa pelo Respeito pela Criança, enquanto ser Único e diferente de cada um de nós!
    (Diana Dinis)

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    1. Parabéns Diana, é a vencedora do passatempo!
      Por favor envie morada para alexandra@nheko.pt
      Obrigada por ter participado,
      Abraço
      Alexandra

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  15. Espero vir a aprender muito com a Mia, para a minha vida pessoal e profissional,de forna a contribuir para que pais e professores sejam cada vez mais mindfull, pelas nossas crianças. :) (Cátia Pereira)

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  16. O vencedor do passatempo é: Diana Dinis | Estrelinha*.
    Agradecemos a todos a participação.
    Abraço, Alexandra

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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