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Catarina Beato e Pedro de Góis

Catarina Beato é jornalista, alimenta um blog que é diário público há quase 10 anos e ao qual deu o nome de Dias de uma princesa, mãe de dois rapazes voltou a encontrar o amor quando já pensava que relações estáveis e longas não eram para ela. Quando menos esperava foi arrebatada por um amor gigante e sereno que a levou a alterar o estado civil e a sentir-se a mulher mais feliz do mundo ao lado do marido Pedro de Góis, camaraman de informação da SIC. Pedro tem um filho e dois cães e vivem todos numa casa branca e cheia de luz, foi lá que nos encontrámos e nos perdemos numa bela conversa que deu origem a esta entrevista.


Nheko: Como é que se conheceram? 
Catarina: Nas redes sociais, tínhamos em Comum a SIC.

Nheko: E foi de amor à Primeira Vista? 
Pedro: foi.
Catarina: Sim, praticamente ... foi muito rápido, mas foi muito sereno.
Eu levava anos desta vida só com os miúdos, já tinha assumido que o meu mau feitio não permitia outra coisa. Por melhor relação que tenha com os pais dos meus filhos eu não queria que a história se repetisse. Com o Pedro foi tudo diferente, nem sei bem explicar, foi arrebatador mas sem ter a sensação que me ia esbardalhar logo ali à frente, que era o que eu sentia sempre. 
Eu sempre tive a sensação de invasão quando estava numa relação, um desconforto, uma falta de ar que me levava a implicar com tudo, eu pensei que era mesmo assim, que me tinha de assumir e pronto. Com o Pedro senti um amor arrebatador mas sem o resto, senti-me bem, serena.
Depois começámos a brincar com o facto de nenhum dos dois nunca ter casado e lá decidimos casar à pressa...
Pedro: Não foi à pressa. Foi tudo pensado!
Catarina: Eu nunca pensei que se pudesse casar tão depressa.



Nheko: E como foi a entrada um do outro nas vidas que já tinham?

C: Eu tenho uma dinâmica muito forte com as minhas amigas, quase como uma irmandade histérica norte americana, qualquer pessoa que entre na vida de uma de nós sujeita-se a isto.
Logo no início de estarmos juntos havia uma caracolada marcada com as minhas amigas e eu perguntei ao Pedro se queria vir, ele aceitou e imediatamente se inturmou.
Somos um grupo grande e animado, vamos sempre de férias todos juntos, há muito ruído e acho que isso torna mais fácil a integração.
Entretanto fomos de férias com os miúdos e correu também tudo muito bem, eles são calmos e tranquilos mas também muito independentes.


Nheko: A relação entre os vossos filhos aconteceu também de forma natural?
C: O Gonçalo é um adolescente fácil, o Afonso é muito mandão, tenta mandar mais do que eu mas não consegue... ele é igual a mim.
P: Sim, eu tenho um rapaz com 15 anos, o Guilherme, que é o mais alto de nós os cinco.
C: Neste momento o Afonso é completamente vidrado no Guilherme!



Nheko: A Catarina é de Almada, qual a vossa relação com Lisboa e como foi a escolha desta casa nova?
P: Casámos antes de ter casa.
C: Esta casa foi um achado! Tem espaço para todos e para os cães do Pedro, é fantástica! É giro porque apareceu por causa do Dias de uma princesa, a filha do dono da casa segue-me e foi por isso que nos contactaram.
Eu já aqui vivia antes, não queria nada sair até porque a logística está aqui toda montada!
Sou de Almada, sou almadense de todos os pontos de vista. Quando vim estudar para Lisboa ia e vinha todos os dias e enquanto trabalhei no jornal nunca pensei em vir viver para Lisboa, quando fui convidada para mudar de emprego fui ganhar muito melhor e aí pensei que era a altura certa, aluguei a minha casa em Almada e comprei aqui. Há vida de bairro, eu gosto muito disso, sempre fui muito bem tratada.
P: Passei a minha infância em Alvalade, depois vivi em Carnaxide mas sempre gostei muito de Lisboa.


Nheko: Como foi feita a escolha das escolas onde os miúdos andam?
C: Quando vim para Lisboa tive uma sensação que nunca tinha tido em Almada, dizer que era mãe solteira não era visto da mesma forma. Nos primeiros colégios e escolas não fui nada bem recebida, eram escolas ligadas à igreja, para mim foi um choque.
Eu da escola pretendo educação. Dou muita liberdade em casa e não sinto que essa seja uma coisa importante numa escola, desde que brinquem, claro, mas não me preocupo que tenha um espaço ideal. A minha mãe sempre me disse que os meus filhos tendo já uma estrutura tão atípica era importante ter na escola o contra ponto, uma escola com uma estrutura mais rígida, disciplinadora ou até mesmo conservadora faria o equilíbrio. A escola sempre foi a estrutura rígida e a casa um lugar mais livre em termos de pensamento. Mas o que pretendo de uma escola é que seja um espaço onde eles se sintam bem, que tenham atenção e se sintam respeitados na sua individualidade, penso que uma mãe percebe se os miúdos são felizes na escola, acho muito importante termos tempo para ir conversar com os professores e acima de tudo ter tempo para estar com os filhos depois da escola.



Nheko: Ter tempo para estar com os filhos é uma prioridade na vida?
C: Eu estar em casa ao fim do dia é fundamental, no ano passado tive de aceitar um part-time que me obrigava a estar fora no final da tarde e o Gonçalo, passado algum tempo disse-me: "Mãe eu não te queria dizer isto mas tu fazes-me muita falta cá em casa"... 
Eu já fui ausente, até aos 4 anos do Gonçalo eu fui jornalista e vivi ausente da vida do meu filho, eu nunca estava, era o pai que fazia tudo, eu estava sempre no jornal ou fora em reportagens, aos 5 anos dei por mim a não saber os hábitos do meu filho, quando me vi a tempo inteiro com ele eu só pensava: Eu não te conheço!
Com o Afonso foi o contrário, ele tem 4 anos e eu estive 3 anos em casa com ele e foi maravilhoso.
Eu gosto de ter tempo para eles, preciso e sou feliz quando tenho esse tempo.
A presença é fundamental mesmo quando é uma presença silenciosa, eu não sou uma mãe de estar sempre a brincar com eles, sentada no chão ou de ir ao parque, mas gosto de estar aqui, perto, de estar ao lado do Gonçalo quando ele está a fazer os trabalhos de casa. Trabalho muitas vezes só depois de os deitar e isso é duro porque depois não descanso mas já não me imagino a viver de outra maneira.


Nheko: A profissão do Pedro obriga-o a algumas ausências, como sentem isso?
P: Eu tive o meu filho comigo o que me limitou a minha disponibilidade mas agora fui chamado para ir fazer a campanha eleitoral e estive fora, trabalho na SIC há 21 anos, faço grandes reportagens, coisas especiais e também o dia a dia.
C: Temos muito claro que nunca será por nós que o Pedro não aceita trabalho fora, o jornalismo é isso, a adrenalina de ir e de trabalhar nas coisas. A ausência a mim custa-me porque gosto muito dele, não é logisticamente, eu vivi sempre sozinha, o Gonçalo ajuda-me em tudo, o que me custa é a falta dele no sofá para me aninhar.




Nheko: A relação dos vossos pais influenciou de alguma forma as relações que vocês tiveram?
P: Os meus pais separaram-se quando eu tinha um ano e pouco, também me separei da mãe do Guilherme quando ele era muito pequeno.
C: Eu vivi a relação dos meus pais que era complicada e tensa. A minha relação com o pai do Gonçalo, o Diogo, é muito próxima, somos amigos, ele esteve no nosso casamento. O Afonso durante um tempo chamava-lhe pai porque ouvia o irmão a chamá-lo assim. O Diogo fez uma coisa muito bonita que foi ficar a dormir no meu sofá durante 6 meses quando o Afonso nasceu, ele queria ter a certeza que eu e os miúdos estávamos bem. Somos como uma família mas diferente.


Nheko: E vocês são pais diferentes dos pais que tiveram?
P: Eu não me identifico, sou muito próximo e presente, sempre fui muito ligado ao meu filho.
C: Eu sou o meu pai! Em tudo. Sempre fui muito parecida com o meu pai, fui-me apercebendo mais claramente disso desde que fui mãe. O meu pai era capaz de me calçar as meias até ao dia em que saí de casa aos 19 anos, eu faço o mesmo ao Gonçalo de manhã quando ele está cheio de sono.
A minha mãe acordava sempre bem disposta e sorridente, eu não sou assim, sou trombuda tal como o meu pai. Sou flexível, próxima mas exigente e até bruta, não tenho medo nenhum que os meus filhos fiquem zangados comigo.
P: Eu não gosto nada, mesmo quando sei que tenho razão prefiro esperar que eles tenham essa consciência e que tomem uma atitude, se isso não acontece fico a a remoer...
C: Não sou uma mãe muito autoritária mas cá em casa não vivemos numa democracia. Estou cá sempre, não compro todas as guerras mas as que compro são para ganhar. Sou uma mãe descontraída até certa idade, sou muito exigente com a escola, exijo brio! Agora com refeições, horários, etc... não sou nada stressada.
P: Eu identifico-me totalmente com isto.


Nheko: Vocês têm apoios familiares ou outros?
C: A minha mãe é o meu porto seguro! Depois tenho as minhas amigas, conto com elas sempre mas gosto de fazer tudo sozinha.
P: Sim, a Catarina é terrível, até para carregar os sacos das compras eu tenho de insistir, de lhe tirar os sacos, e ela puxa-os! (risos)
C: A verdade é que eu construí uma personagem ao longo do tempo e depois tenho medo, se essa personagem deixa de existir eu perco a graça! Confesso que sim, sempre fui muito independente e bruta, sempre fiz tudo sozinha, se isso acaba, o que me resta? Qual a minha piada? (risos)
P: Eu costumo dizer que a Catarina é a minha camionista (risos)
C: Eu não estou habituada nem gosto de pedir ajuda mas com o Pedro já sou capaz de ceder em algumas coisa, ele amolece-me um bocado e eu não sei se gosto disso... (risos) fico mesmo enrrascada!
P: É giro que a Catarina trouxe-me um lado que eu nem sabia que procurava.
C: A verdade é que o Pedro precisava de um homem na sua vida e eu de uma mulher, Eu sou o camionista e ele a minha princesa... (risota)
P: É mesmo isso!


Nheko: Os extremos atraem-se?
C:
Eu sou mega arrumada, o Pedro é... um acumulador.
P: Eu adoro velharias, gosto de guardar tudo.
C: Gosta de ir às compras, eu não.



Nheko: O vosso casamento foi...?
P: O melhor do mundo! A sensação de estar em plena Av. da Republica à porta do conservatória com uma geleira cheia de minis e chamuças, é única!
C: Eu gravei nesse dia, fui de manhã à SIC maquilhar-me e pentear-me, casei e voltei para trabalhar. Ninguém queria acreditar, foi muito giro e os miúdos adoraram.



Nheko: A vida a dois trouxe grande mudanças?
C: A maior prova do que eu sinto pelo Pedro é o facto de eu conseguir adormecer. Eu nunca adormecia ao lado de outras pessoas, e esse era um problema quando eu começava uma relação, eu era incapaz de dormir e agora adormeço no sofá enroscadinha e durmo! Eu sempre tive problemas com o dormir, eu costumava dizer que eu é que dormia com o meu filho Gonçalo e não o contrário, sempre recorri muito à cama dos meus filhos, agora o Afonso reclama um bocado, não gosta muito deste meu novo hábito de dormir longe dele.



Nheko: A alimentação é uma peça muito importante na vida da Catarina, como é que isso é vivido em família?
C: O Pedro come mal! Muito mal. Os meus filhos ao lanche podem comer o que quiserem mas tenho cuidado com as refeições e tento não ter em casa coisas que não quero que comam. Não sou radical, até porque tenho o meu exemplo, eu em criança não tinha acesso a nada e quando pude passei a alimentar-me só de porcaria, eu ficava emocionada quando via uma coca-cola... só tomei consciência disto muito mais tarde.


Nheko: E com os brinquedos e a utilização das novas tecnologias?
C: O Gonçalo foi o primeiro neto e foi encharcado em brinquedos, ao segundo aniversário eu tive de me impor e limitar o número de coisas que recebia. Mas ele sempre foi um miúdo de ler, gostava de legos também. Sempre achei que eles são mais felizes com meia dúzia de caixas tupperwares do que com brinquedos caros, nunca fui de comprar brinquedos, livros sim. O Afonso é fixado em jogos, ele adora e sabe tudo, sabe mais que os crescidos! Eu com a tecnologia tenho mais dificuldade em moderar o consumo porque eu passo muito tempo ao computador e telemóvel e esse é o exemplo, a referência, mas tento que utilizem bem e que não deixem de fazer outras coisas.
P: Já eu e as tecnologias não somos nada próximos...



Nheko: A vossa história é recente tal como a vossa casa, no entanto ela tem imensos objectos especiais. Destacam alguns?
C: A minha mãe prometeu-me um piano quando eu acabasse o curso, eu nunca o acabei mas quando fui despedida usei o dinheiro da indemnização e comprei o piano.
Tenho muitos objectos do meu pai e o Pedro trouxe muita coisa.
P: Comprámos as cadeiras na nossa primeira viagem, fomos buscá-las a Matosinhos. A bicicleta fui eu que restaurei, gosto muito de objectos com história.




Nheko: Depois de falarmos de tanta coisa torna-se inevitável perguntar: Pensam em ter um filho juntos?
C: No início disse radicalmente que não, mas temos falado nisso e eu não nego que gostava de viver uma experiência de maternidade partilhada com tudo a que tenho direito. Economicamente não é fácil embora isso não seja entrave.


Nheko: A subsistência nesta tua opção profissional é uma luta diária? Tens uma constante necessidade de ser criativa, isso pressiona-te?
C: Sim, eu ganho dinheiro com o que escrevo e há alturas em que é complicado mas para mim o mais difícil é depois do trabalho estar feito ficar à espera das reacções, ver se é bem aceite, isso é o mais duro.
Mas habituei-me a viver assim, a minha relação com os leitores é um alimento, é viciante, o vício do retorno. Gosto muito do carinho que recebo das pessoas, ao fim de 10 anos eu consigo ser fiel a mim mesma, criei um público fiel que me segue, foi um caminho lento que exigiu sempre muito trabalho e persistência com momentos dramáticos em termos financeiros, mas eu não tenho medo de trabalhar, já lavei escadas quando estive desempregada, já fiz muitas coisas. Claro que gostava de ter uma situação mais estável que não me fizesse morrer de medo da falta de trabalho no mês de Agosto ou deprimir com as despesas de Setembro, mas é assim que vivo.
P: Eu gosto muito deste lado da Catarina, desta garra, desta vontade!



Nheko: Quando estão sem os miúdos o que é que gostam mesmo de fazer?
C: Sair na autocaravana, o Pedro vai surfar e eu fico a dormir na areia, depois ele volta e vamos comer, é o dia perfeito.
P: Simples!


Outubro 2015, Fotografias Vitorino Coragem

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18 comentários:

  1. Pela primeira vez tenho coragem de comentar um texto.... Tão bom, leve e simples... Maravilhoso!!!

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  2. Gostei muito deste casal. Sejam felizes.

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  3. O vosso Amor é tão puro que faz sonhar!!!

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  4. Todas as mulheres que deixaram de acreditar num amor pleno e sereno, deveriam um dia conhecer um Pedro :) Eu sou uma dessas mulheres e encontrei o meu quando nem sequer o procurava (porque achava que ele não existia). Linda entrevista, linda historia. Admiro muito a Catarina e identifico-me muitissimo consigo (também preenchi muitos vazios com bolinhos e bolachinhas). Felicidades e muito amor é o que desejo a esta familia linda.

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  5. Adoro a sinceridade e pureza das respostas! Não mudem!

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  6. Esta é uma verdadeira história de Amor!
    ..."A verdade é que o Pedro precisava de um homem na sua vida e eu de uma mulher, Eu sou o camionista e ele a minha princesa... "
    Nunca tinha lido uma descrição tão engraçada de tão sábia!
    Ri mesmo com vontade. Gostei muito de conhecer esta familia. Sejam FELIZES

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  7. identifico-me com o que ela diz quanto à serenidade...é verdade...a minha outra metade sentia o mesmo....conjugo o verbo no passado porque já não o é...pelo meu grande amor por ela tive de terminar a relação para não a magoar...coisas da vida

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  8. Embirrava um bocadinho com a Catarina, aquele ar durão afinal é só sobrevivência. Talvez comigo se passe o mesmo. Afinal ela deve ser uma miúda muito gira. Sejam muito felizes e que a família continue a crescer.

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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