/ 21.10.15 / 3 Comments / , , , ,

Influências


Somos modelos para os nossos filhos e embora nos preocupemos em conversar, explicar e desmontar as mais diversas situações que vivemos, é o exemplo que mais os influencia.


Os nossos filhos assistem diariamente a muitas situações que, sem termos consciência da sua importância, vão moldando as suas acções.
Quando somos tolerantes com o condutor que ainda está a aprender e nos faz perder uns escassos minutos no trajecto para casa, estamos a dar o exemplo de que nem todos temos a mesma velocidade ou experiência mas todos temos espaço e não é assim tão importante aquele tempo que estamos a perder;
Quando falamos ao telefone ininterruptamente na fila do supermercado e ignoramos a pessoa que está na caixa a trabalhar, estamos a dar o exemplo de que os outros não merecem a nossa atenção; 
Quando encontramos um amigo na rua e falamos da vida de outra pessoa que não está presente, estamos a mostrar desrespeito pela privacidade e pelo outro, da mesma forma que quando falamos dos nossos filhos na sua presença mas fazendo como se não estivessem lá.
Tudo isto vai direccionar a compreensão da realidade que os nossos filhos têm. Uma criança que vê a mãe a dar a vez a uma pessoa que precisa vai compreender melhor quando tiver de ceder o seu próprio lugar.
Claro que não acho que por termos um comportamento menos correcto uma vez que os miúdos vão apreendê-lo imediatamente, refiro-me a padrões de comportamento.
Muitas vezes somos confrontados connosco próprios quando nos encontrarmos espelhados no comportamento dos nossos filhos e isso provoca-nos alguma "indigestão" da mesma forma que nos pode provocar uma alegria imensa.


Este tipo de comportamento "papel químico" acontece também entre irmãos em que as relações são muito ricas e profundas, há um grau de intimidade enorme, uma cumplicidade e um amor fortes mas também uma competitividade, uma constante provocação e uma quantidade inúmera de conflitos por resolver diariamente.
Os mais pequenos copiam os mais velhos em tudo, ajudar os miúdos a perceber que servem de exemplo e modelo é uma forma muito eficaz de os responsabilizar pelo seu próprio comportamento, tal como acontece connosco.



Como mãe sempre fui chamada a "julgar" situações e a ter de definir quem era "culpado" e "inocente" o que sempre me provocou muito desconforto. 
Senti sempre que estava a ser injusta, que quem me convencia era o melhor "advogado", o que usava melhor os argumentos com maior poder de persuasão.
Resolvi então mudar a minha atitude e ultimamente tenho-me preocupado em mediar os conflitos das minhas filhas com novas ferramentas, tenho lido algumas coisas ligadas à parentalidade consciente e isso tem-me ajudado.
Esta alteração no meu comportamento fez com que surgissem quase de imediato reflexos nos meus filhos e isso repercute-se nas suas atitudes do dia a dia.

Cá em casa há o grupo das meninas - 3 adolescentes que vivem em permanente ebulição hormonal, e um doce rapaz a caminho dos três anos que, embora seja muito calmo e conciliador também protagoniza alguns episódios difíceis de gerir.


Na nossa dinâmica familiar um dos maiores focos de stress entre-manas sempre foi a roupa, situações como  "Tu sujaste a minha camisola", "Vestiste sem pedir", "Deixaste o meu casaco em casa da tua amiga?", "Só te emprestei os ténis para um dia"... são mesmo o pão nosso de cada dia, normalmente, e depois de uma gritaria de meia noite, acabava sempre uma descabelada  e a gritar "Nunca mais te empresto nada! Nunca mais!" ou pior... "Mãe, anda cá!" e lá ia eu para o julgamento.
Raramente estes episódios apresentavam um final feliz...

Desde que mudei a minha atitude de uma maneira geral, noto muita alteração nelas mas não mudou tudo, os conflitos surgem na mesma mas o interessante é o trajecto da discussão e a forma como elas se envolvem na mesma.

Dou um exemplo, perante esta situação: "Quem é que sujou a minha camisola verde????"
1. Assumem a culpa com muito mais facilidade e pedem desculpa
Antes:  - Silêncio... ou - Foi ela!
Agora: Fui eu, foi ao almoço, peço desculpa.

2. Aceitam as desculpas e procuram uma solução
Antes: Nunca mais te empresto nada! - resposta: Quero lá saber da tua roupa...
Agora: Desculpo?!? Até posso desculpar mas,e agora? - resposta: Podes usar uma minha, tenho uma igual em cinzento, vou pedir à mãe para lavar já a tua.

3. Envolvem-me mas de forma imparcial
Antes: A mãe sabe que tu usaste sem pedir?!? para a próxima vou ao teu quarto e tiro o que quiser quando não estives cá. A mãe que não me impeça!
Agora: A mãe sabe que usaste sem pedir? Para a próxima vê se me ligas ou pedes à mãe para vir ela buscar ao meu quarto, também não gostas que mexa nas tuas coisas!

4. Pedem ajuda na resolução ou na tomada de decisão
Antes: E agora? não há mais nenhuma camisola que fique bem com estas calças, Mãe... a X tem de me comprar uma camisola com o dinheiro dela, eu preciso para a festa de hoje à noite!!!!!
Agora: Já tinha escolhido o que ia vestir hoje e agora não consigo encontrar outra coisa que fique bem, alguém me ajuda? Podemos ir às compras mãe, só uma camisola... dividimos entre as três!

O que sinto é que ganhámos todos uma capacidade muito maior de gerir os conflitos e não utilizamos a culpa e a acusação para reforço da frustração. Nestas idades esta aprendizagem é muito boa e útil pois estão constantemente a ver-se confrontadas com situações complexas tanto no dia a dia como em termos de conflitos internos.

Ver as três irmãs a interagir com o mano pequeno é também muito gratificante porque sinto que alteraram por completo o registo que tinham.
Exemplo: O Raul não quer comer a sopa e quer passar directamente para o segundo prato.
Antes: "Primeiro a sopa, não custa nada. Come tudo que no fim a mana dá-te uma surpresa..."
Agora: "A sopa está muito boa, podemos comer os dois, uma colher para ti e outra para mim. Depois temos o arroz que já está a arrefecer e se ainda tivermos espaço na barriga vamos comer uma sobremesa, sabias que temos sobremesa?"

Em resumo, a vida por aqui melhorou e tornou-se mais leve no dia a dia, para o rapaz pequeno é muito bom porque vai crescer com bons exemplos que valem mais que mil palavras.

Fotografias Vitorino Coragem
Share This Post :
Tags : , , , ,

3 comentários:

  1. também tenho lido muito sobre parentalidade consciente e é exactamente como diz: torna a vida mais leve. adorei a descrição das meninas. vivi bem esse filme há uns anos atrás.

    ResponderEliminar
  2. Alô família linda,
    Tenho passado pouco por aqui nas duas últimas semanas, o que é mau, pois perco oportunidades para aprender alguma coisa ou simplesmente ficar uns momentos de sorriso estampado enquanto leio o que escreves...
    Que bom é encontrar alternativas saudáveis para todos. Podes enviar-me alguns títulos desses livros que tens lido? O tempo n chega para tanta leitura e gosto de ir cruzando outras coisas...
    Que bom teres agarrado este projecto. É tão importante lermos outras experiências, sobretudo quando se tornam inspiradoras...
    Um beijo enorme e até breve, espero!
    Família Galvão

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Patrícia, lê a entrevista da Mikaela Oven, o livro dela é muito bom e estamos a sortear um exemplar, vê no facebook Nheko como participar.
      Boa sorte e obrigada

      Eliminar

Sobre Nós

Apresentação

O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

A nossa loja

@nheko_

Seguir por e-mail

Pesquisar